Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A CURIOSA QUESTÃO DO SAGRADO E DA ONIPRESENÇA

por Mario Sales, FRC,SI,CRC


Talvez por estarmos quase sempre em estado não reflexivo, repetimos sem pensar conceitos que, ou são vazios de sentido, ou tão profundos e amplos que, se compreendidos, anulariam várias elementos da equação da existência.
Um conceito que lembra este último perfil são os chamados "Atributos da Divindade", que, se fossem levados realmente a sério, desautorizariam toda a lenda do Gênesis, impossibilitariam a existência de outros conceitos como o da "Rebelião dos Anjos Caídos", ou a própria noção de um Deus Bíblico real, e não apenas literário.
Eu explico: se eu aceitar que Deus é Todo Poderoso (o nome já diz), não posso entender ou aceitar diálogos Bíblicos como aquele entre Deus e Caim, após este último matar seu único irmão. Pois é dito que Deus faz a Caim a seguinte indagação: "Caim, aonde está Abel teu irmão?" Gênesis 4:9.
Onisciência, saber todas as coisas, implica em não precisar perguntar nada, a ninguém, quanto mais a um assassino.
Significa poder antecipar tudo o que ocorre e poder impedir aquilo que não condiz com Sua Divina Vontade. Se não o fez, não o fez por que não quis, pois sabia e acompanhava os acontecimentos através de Sua Mente Todo Poderosa.
E que dizer da tentação da Serpente? Como poderia Eva ser tentada, sem que Aquele que Tudo Sabe não acompanhasse os fatos em Sua Onisciência, e , se o desejasse, o impedisse? Se o Ser Supremo é, como se diz Onisciente e Onipotente, sabe tudo e pode tudo, e aquilo que ocorre não ocorre sem sua permissão e nunca, nunca contra a Sua Toda Poderosa Vontade.



Ou Deus é Onisciente e portanto não poderia ser traído por um grupo de Seus próprios anjos, ou não é Onisciente e tem sim, zonas mortas em Sua dita perfeita visão.

Onipotência


Ou Ele é Onipotente e o Caos e as contradições do Universo e da Existência são produto de Sua Santa Vontade, ou Seu Poder não é completo e certos fenômenos tem uma insuspeita autonomia e independência , já que nesta perspectiva existiriam áreas sem lei na Criação onde forças cegas e sem propósito ditariam, caprichosamente, o ritmo dos acontecimentos.

O Olho que Tudo Vê

Essas questões dilaceram a mente dos pensadores místicos, mas não mais a dos filósofos, que de há muito mergulharam suas atenções em uma realidade onde o conceito de uma Divindade, seja ela qual for, foi substituído pelo conceito de natureza, ou Natura Naturante, como gostava de dizer Baruch de Espinoza.
Só retornei a estas insustentáveis contradições, manifestas no desenho de Deus da mente dos religiosos, para falar da terceira grande contradição das três descritas: a Onipresença.

Onipresença

É comum falarmos na característica de Onipresença de Deus na Criação. Onipresença é como se sabe, estar em toda e qualquer parte, na Luz ou na Sombra desta vastidão que chamamos nossa realidade.
Ora, se assim é, a mera suposição que a presença de Deus Todo Poderoso está entre nós ou mesmo ao nosso lado, torna, por definição, o nosso lado ou mesmo a nós mesmos, presenças sacralizadas pela Divina Presença.
Nada mais será comum ou mundano esteja em nossos pulmões ou nos nossos intestinos. Nenhuma praça, nenhuma rua ou viela, nenhuma poça, seja de água da chuva ou de lama, será mais ou menos santa, já que a magnífica presença do Todo Poderoso sacralizará estes locais, estas coisas, este mundo.
Não seria possível, se considerarmos como correta ou se ao menos aceitarmos o conceito de Onipresença, que exista algum local ou espaço não sagrado.
Desaparece assim o chamado mundano, o profano, o terreno. Tudo, em toda parte, torna-se imediatamente sagrado pela Divina e ostensiva presença.
Os animais, suas lutas e necessidades; os insetos, mesmo os mortais; as serpentes e os pássaros; os vírus e as bactérias; os homens bons e os assassinos; os chamados de boa vontade como também os de má vontade, todos estarão automaticamente abençoados pela presença de Deus, dentro e fora deles, bem como entre eles.
Isso é Onipresença.
Ou Deus está em toda parte, ou não está. E se está, não existem "locais santos", mas tudo, em toda parte é santo e nossos pés sempre estarão em solo sagrado.
Se acreditarmos nisso, retiremos nossas sandálias, também santas. Deixemos que nossos santos pés toquem o santo solo abaixo de nós.
E sintamos-nos embevecidos com isso.
A Bem aventurança, portanto, depende de nossa compreensão do mundo, e não do mundo em si.
Ele, o mundo chamado profano, será tão sagrado quanto permitirmos em nossa mente, em nosso modo de olhar este mundo.
E o Deus Onipresente lá estará se olharmos a Criação com olhos de ver.