Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O MEDO E A INEVITÁVEL FRAGILIDADE HUMANA COMO MOTIVOS DA BUSCA DO PODER

 por Mario Sales, FRC,SI,CRC

John Dee


 "Vim aqui a procura de algo a mais sobre o misticismo. Mas percebi que não conhece muito (d)o que fala e tem um ego maior do que o seu próprio intelecto.
Não conhece verdadeiramente a origem dos termos "ocultismo", "magia", teurgia". E muito mais ainda desconhece a origem da perpetuação do corpo astral no manto sideral através de práticas mágicas.( Rsrsrs) Seu "misticismo" ainda é magia, fraca, porém magia. Só os tolos não perceberiam."

Comentário em O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 1 , como sempre Anônimo, postado no blog no dia 29 de maio de 2014 às 00:48hs



Eram duas e meia da manhã quando minha irmã chegou com minha mãe, de 83 anos, com a perna direita imobilizada por uma fratura de patela recém operada.
Pedi que a trouxessem porque acredito que aqui tenho mais condições de cuidar dela com mais atenção e presteza, além de poder oferecer companhia, carinho e atenção de todos nós, eu, minha esposa e filhas.
Pais idosos, lúcidos, mesmo frágeis, devem ser respeitados no seu direito de querer ou não querer sair de suas casas e ir morar mais perto de seus filhos. É talvez sua última manifestação de autonomia em uma fase da vida em que tudo conspira para nos tirar a liberdade e independência.
Visão enfraquecida, dores lombares, fraqueza muscular, doenças limitantes que nos obrigam a estar perto de serviços médicos ou de parentes, causam desconforto e uma sensação desagradável de tornar-se um estorvo para terceiros.
Se o ambiente familiar é estável e harmonioso tudo é mais fácil.
Quando no entanto, como frequentemente acontece, a terceira idade transforma-se na época da retribuição, quando pais pouco amorosos durante toda a vida ficam indefesos aos cuidados de filhos revoltados e sem carinho, pessoas de muita idade sentem-se acuadas e com medo, tensas e inseguras todo o tempo.
Pessoas fragilizadas, sejam idosas ou não, sempre sentem medo. E o medo, somatizado, transforma-se em descompensações hipertensivas, diabéticas, circulatórias ou até psiquiátricas.
Sempre lembro a minha equipe, no serviço de idosos em que eu trabalho, que um ambiente acolhedor e gentil é 70% da consulta e cria uma condição de relacionamento mais produtiva entre o serviço e o cliente do serviço, seja em procedimentos de enfermagem, administrativos ou na própria consulta médica.
É preciso tratar as pessoas com carinho, semear carinho, para colher equilíbrio e serenidade.
Como qualquer filho comum me preocupa a solidão e a distância de meus pais, mesmo esta sendo voluntária, e não forçada. Minha impossibilidade de poder socorrê-los com rapidez, (como nesta crise mais recente da queda com fratura da rótula de minha velha mãe, o que resultou em uma, graças a Deus, breve internação e um bem sucedido procedimento cirúrgico, crise esta que minha irmã conduziu diligente e eficientemente), é o que me torna mais apreensivo. Confio em Deus no entanto e nas palavras do evangelho em Mateus 6, 26-34 da qual extraio apenas este trecho: "Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles."
Achamos arrogantemente que controlamos alguma coisa com nosso intelecto e nosso conhecimento, mas na maioria das vêzes somos folhas secas carregadas ao acaso pelos ventos de um outono frio. A velhice nos lembra isso, de nossa fragilidade permanente diante da Criação, às vezes tão bela e tranquila e às vêzes tão violenta e furiosa.
Uma inundação, um furacão, um tornado, apenas um grande terremoto e vemos a fragilidade da sociedade diante da vontade até hoje imprevisível das alterações climáticas e geológicas, como que a nos lembrar que , se estamos aqui hoje, amanhã, repentinamente, podemos não estar mais, e que toda a nossa cultura não poderá evitar, se assim for a vontade do Altíssimo, que desapareçamos, rápida e definitivamente, junto com toda a nossa espécie e nossas mesquinharias e ódios e lamentações em um cataclisma cósmico, entre tantos que temos contemplado, espantados, em nossos telescópios.
O que os velhos nos lembram a todo instante, com sua debilidade, é que todos nós somos também poeira das estrelas e que habitamos um corpo temporário que se desfará, do mesmo modo que se formou, seguindo as leis de construção e destruição de tudo que é ou está matéria.
A entropia do Universo segue a lei do Rosacruz Lavoisier, que garante que "na natureza, nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma", transformação que faz, por definição, que aquilo que era antes deixa de existir para dar lugar a outra forma, a outra coisa.
A impermanência é permanente.
E algo tão efêmero e tão precioso como a vida deveria ser melhor aproveitado na construção de uma sociedade mais espiritualista, mais voltada para a autodescoberta, e não para o acúmulo de vaidades ou discórdias.
E a maior das Vaidades é a ilusão de ter algum Poder sobre nós, ou sobre o ambiente que nos cerca. Seja através do dinheiro, da política ou até através da hierarquia das religiões, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Só quando entendemos que todo o poder que precisamos é aquele que emana de nossos corações, começamos a entender o significado da existência. Só quando entendemos que ter poder verdadeiro é não ter poder nenhum; que poder na verdade é permitir que sobre nós desça a mão do Todo Poderoso e nos transforme em seus agentes na Terra, como queria Saint Martin; só quando a nossa vontade é a vontade de Deus em nós, e não desejamos nada de Deus, a não ser mais Deus, como dizia meu querido José Hermógenes, em um de seus últimos textos, "O Essencial da Existência", podemos sentir, intensamente, o poder da presença de Deus em nós.
Nosso ego não existe mais, nossa vontade não tem mais importância, nosso coração transforma-se num receptor da vontade divina e nossos pés vão aonde não sabemos, e nossas mãos fazem coisas que não entendemos, e nossa língua fala sobre coisas que não conhecemos, sempre com sabedoria e perspicácia, mas não nossa sabedoria ou nossa perspicácia, mas sim a sabedoria e perspicácia de Deus através de nós." ...Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim..." lembra Paulo em Gálatas, 2:20.
A partir desse instante, qualquer ilusão de que possamos voluntariamente interferir na realidade a nossa volta, seja através de nossa ciência ou de algum tipo de técnica mágica, sem que antes o Altíssimo tenha permitido, desaparece de nós. Não temos mais, uma vez tocados pela Luz da Consciência Divina, qualquer impressão de que estejamos separados dele e de seus desígnios.
Lembra Mateus, ainda no capítulo 6 de seu evangelho, versículos 31 a 33, as palavras do Mestre Jesus: "Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas."
Buscai primeiro o Reino de Deus, diz o Mestre, ou seja, a comunhão com a vontade de Deus, despojando-nos de toda ilusão de separação D' Êle e de Sua vontade.
Não temos possibilidade de garantir nem se nossa espécie durará mais uma década, quanto mais supor que temos poder para alterar de modo súbito ou mágico as vicissitudes de nossa existência mundana.
Todos, como os velhos lembram, somos ou estamos fragilizados por nossa condição humana, e "o mais poderoso dos magos" ainda deverá atender as ordens da natureza e terá que urinar e defecar quando a natureza ordenar.
"O mais poderoso dos magos" conhecerá dores na coluna, gripes, problemas financeiros, como aconteceu com Martinez de Pasqualy, que morre no Haiti em meio a resolução de assuntos mundanos de uma herança; ou Papus, que morre de Tuberculose em uma trincheira de batalha na primeira guerra mundial, ele, conhecido pelo seu poder místico; a ciência ou a magia não nos protege da calúnia e da prisão, como sucedeu ao nobre Conde de Verulâmio, Imperator dos Rosacruzes no século XVI, Francis Bacon, ou com o grande Giusepe Bálsamo, Conde de Cagliostro; nem a ciência ou a magia nos protege da vergonha e da traição, como ocorre com John Dee, matemático, astrônomo, astrólogo e geólogo, mentor esotérico de Francis Bacon e no entanto, vítima de um embusteiro de quinta categoria, Edward Kelley, que o convence a uma jornada infrutífera e dispendiosa pela Europa, marcada pelo fracasso e pela vergonha de ver sua própria esposa seduzida por este mesmo indivíduo, pasmem, por crer que isto tinha sido ordenado por um anjo.
Tanto a ciência como a chamada Magia, renegada por Saint Martin como inútil e desnecessária "para ver Deus", não são necessariamente fonte de sabedoria se antes "não buscarmos primeiramente o reino de Deus e a sua justiça".
Quem se dedicar às artes mágicas ou a ciência ortodoxa deve precaver-se de que nada é superior a comunhão com o Altíssimo e que corre o risco de, tomado pela sua própria vaidade, supor-se capaz de controlar tudo a sua volta e de ser sim superior a tudo e a todos inclusive superior a Vontade de Deus ou da Natureza.
Se a doença e a desdita não trouxerem juízo a estes desmiolados, ao menos a velhice os obrigará a curvar, junto com suas colunas, suas cabeças, em sinal de respeito Àquele que é o Verdadeiro e Único Senhor de Todas as Coisas, do qual somos apenas pálidos reflexos.
É por isso que, quando olhei no meu celular e li este comentário infantil no alto da página à um antigo ensaio meu de três anos atrás em que eu alertava, como o Mestre no Evangelho de Mateus ou  Saint Martin nos seus textos, que o poder vem de dentro e do Alto, e não de gestos e chapéus ridículos ou palavras em latim, ao mesmo tempo que minha mãe entrava, caminhando com a dificuldade de alguém com fratura de rótula  aos 83 anos, fiquei repentinamente cheio de enfado e sono. O medo causado pela inevitável fragilidade humana são os motivos da busca do poder. Não queremos ser pobres, não queremos ser feios, não queremos sofrer por doenças ou limitações físicas, enfim, não queremos envelhecer. Só que a Magia nunca protegeu os Magos, (os grandes Magos da História, não os "aprendizes de feiticeiro" que supõem ser Magos porque leram algum livro empoeirado ou fizeram um curso idiota por correspondência) da pobreza, da doença, da vergonha ou da velhice. A Magia, por último, nunca protegeu nenhum Grande Mago conhecido, da Morte. 
As pessoas lêem livros fantasiosos demais, vêem filmes demais, esquecendo-se de que vivem não num filme ou num livro, mas no mundo real.
E enquanto lia este comentário idiota, ao mesmo tempo que, junto com minha irmã, colocava minha velha mãe na cama, no meio da madrugada de um dia comum, na manhã do qual eu teria que trabalhar normalmente, e providenciava cobertores para prevenir a noite fria pela frente, pensava com meus botões: "Meu Deus, quanta mediocridade, quanta ignorância ."