Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A IMPORTÂNCIA DA PAIXÃO

por Mario Sales, FRC, SI, CRC gr.18°




Este período que marca uma das mais acirradas disputas eleitorais que o país já viu, que literalmente dividiu o país ao meio, é necessariamente um momento onde a serenidade desaparece. Até meu primo posta mensagens pedindo que as pessoas tenham menos empenho em suas defesas de seus candidatos, assustado com a intensidade das emoções envolvidas.
A manifestação livre da emoção sempre foi considerada um risco à espiritualidade. Todo comportamento religioso primava e ainda em alguns lugares prima por procurar o recato, a discrição, o silêncio. O próprio Saint Martin tem uma famosa frase (aprendi que o Bem não faz alarde e o alarde não faz bem) que estimula o recolhimento em prol da espiritualidade.
De certa forma, este recolhimento transformou-se em tristeza, de forma que tristeza tornou-se sinônimo de espiritualização.
Nunca entendi bem este aspecto do recolhimento, se bem que entendo o contexto em que surge este discurso.
Digo isso porque tenho grande simpatia pela alegria entre jovens monges e autoridades budistas, sejam do Budismo Tibetano ou do Budismo Zen. Não há tristeza em seus discursos.






Recentemente, publiquei aqui no Blog um longo vídeo dedicado a Sua Santidade o Dalai Lama, quando em visita ao Brasil. Sua fala, ao longo de três palestras, de mais de uma hora e meia de duração, em nenhum, vejam, nenhum momento, tece quaisquer considerações sobre moral, hábitos ou costumes, pecados e castigo, sofrimento e santidade. Sua fala foca em aspectos operacionais ou históricos do Budismo, suas raízes, seus princípios, a natureza da mente e das ilusões que ela fomenta.
As paixões humanas não são combatidas, mas aceitas como uma parte e uma expressão da natureza humana comum. À um questionamento, em determinada altura, sobre se ele, Dalai, também se aborrecia, sua resposta foi como sempre preenchida de bom senso e sinceridade:
"- Claro que sim, há momentos em que meu temperamento se altera, como qualquer ser humano."
O Dalai é avesso à separação mental entre santos e pecadores, comum na visão cristã ocidental. Bons e maus, nobres e plebeus, materialistas e espiritualistas, são divisões que não fazem sentido para um budista que sabe que o dualismo é a mais importante ilusão da mente.
O Mundo não é apenas dual, ele parece Dual, porque o que contemplamos, contemplamos com nossa mente, através de nossa mente, nossa lente, através da qual, se a lente/mente for verde, tudo será verde, ou se ela for vermelha, tudo será avermelhado.
As paixões, são manifestações legítimas de sentimentos entendidos como passivos, nas palavras de Renée Descartes, em seu livro "As Paixões da Alma".
Paixões são erupções de fluxos de emoções as quais dão substância e colorido às nossas vivências na carne, mediadas por nossos hormônios e sistema nervoso.
Não podem ser represadas sem que paguemos um alto preço psicológico por isso, da mesma forma que represar um rio caudaloso é aumentar sua pressão em um milhão de vêzes.
Se um indivíduo sabe que ele e o corpo não são a mesma coisa, e sabe respeitar essas diferenças, não terá escrúpulos em manifestar suas paixões no cotidiano, nem sentirá nenhuma culpa cristã por isso.
O Cristo, que dá nome a esta linha religiosa, não tinha ele mesmo este pudor. Lembro-me de um episódio do Novo Testamento em que ele expulsa os vendilhões do templo de uma maneira que, a meu ver, nada tinha a ver com discrição ou falta de alarde.
Não, o mesmo cristianismo que, na visão de Friderich Nietzsche, transformou a todos os seus seguidores em seres apáticos e sem vigor, foi fundado por um homem vigoroso, corajoso, social e gregário.
Não vejo pois conflito em ter e manifestar paixões e buscar ao mesmo tempo a evolução espiritual.
A vida no corpo não impede nossa alma de evoluir, apenas acelera nossa evolução, assim como o fluxo da água de um riacho é mais rápido quando ele contorna uma pedra em seu caminho.
Penso que quando voltar ao estado não manifesto não poderei mais sentir o sol em meu rosto, nem o calor da tarde, nem o frio da noite, e dessas coisas, sentirei saudade. São sensações banais, mas tão agradáveis e provocam em mim uma tal felicidade, que não posso evitar de lamentar a ausência desses momentos.
Não tenho vergonha pois de perder temporariamente minha serenidade para minhas paixões, desde que meu motivo seja justo e nobre.
Estas paixões não nos desmerecem, mas dignificam nossa condição humana.

Indignar-se é a última manifestação de liberdade humana. Desfrutemos, sem culpa, pois, da vida e das paixões geradas por quaisquer indignações justas.