Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O INIMIGO INTERNO

por Mario Sales, FRC,SI,CRC gr.18°




A estratégia de combate mais antiga entre todos os generais é dividir para conquistar.
Não precisamos nem devemos enfrentar um exército coeso e monolítico. O melhor é quebrá-lo em pedaços menores, descobrindo suas fraquezas, seus problemas internos, e focar aí, ardilosamente acentuando-os, como uma enzima que quebra ligações proteicas e desmancha algo que antes parecia tão sólido.
Então, se a educação é ruim, diminui-se o número de cadeiras na escola; se o reitor de uma universidade exige qualidade docente, cria-se a eleição direta em que o mais votado é aquele que exige menos e paga o melhor salário; se a saúde não funciona, culpam-se os médicos e joga-se a população contra eles, de forma que se transformem em bois de piranha enquanto a manada no poder passa ao largo, incólume, praticamente sem um arranhão.
Técnicas psicológicas primárias de influenciar o eleitorado ou qualquer grupo de pessoas, foram usadas ao longo de toda a história da humanidade, não com a intenção de melhorar a sociedade, mas na busca da perpetuação do poder de um grupo determinado.
E assim continuará a ser, até que todos recebam as armas filosóficas adequadas, que nos defendem da mediocridade e da pobreza espiritual: a capacidade de reflexão.
A proposta mais perigosa de domínio é oferecer alimento para o corpo e negar alimento para o espírito.
É assim que se criam os zumbis sociais, os comandados mentais que não tem vontade própria, aqueles que apenas sobrevivem dia após dia, aparentemente mais felizes e gordos, mas mais estúpidos e manipuláveis.
E pode-se fazer isso com qualquer grupo.
Pode-se hipnotizar as pessoas com as coisas da matéria, seja arroz e feijão, sejam bolsas Louis Vitton. E se somarmos a isso o preenchimento do vazio existencial com tolices e amenidades, temos uma massa de manobra fácil de administrar.
No marxismo/leninismo esses indivíduos são chamados de inocentes úteis, pessoas que movidas por um estado de atenuação crítica, pela falta de raciocínio político mais profundo acham normal e mais fácil acreditar em lendas de inimigos externos responsáveis pelas nossas mazelas do que na nossa própria incompetência.
Para o idealista, o inferno é o outro.
Nós mesmos não temos pecado, somos indivíduos dignos e nobres, e se não fosse pela ação de terceiros, teríamos sucesso.
Assim, se eu não fui promovido, a culpa é do meu chefe; se minha mulher não me ama, é porque não me compreende; se meus amigos me criticam, é porque são reacionários estúpidos; se não vou bem nos estudos é por que o professor me persegue; se sou multado por excesso de velocidade, estando realmente em excesso de velocidade, não é porque pisei mais fundo no acelerador mas por que os radares são "fábricas de multa".
Shakespeare lembrava disso ao dizer em um texto que "ninguém era um bêbado por causa das estrelas, mas porque bebia".
E esta capacidade de reconhecer em nós mesmos as causas de nossos problemas é manifestação direta de nossa maturidade emocional e psicológica.
Adultos nem sempre são maduros. Por isso é possível que homens e mulheres cometam equívocos, basta que estejam devidamente alimentados do alimento material e privados do alimento espiritual, a capacidade de pensar que liberta.
E desde que Platão se equivocou ao pensar que pudesse influenciar o político, no caso do tirano de Siracusa, nem mesmo os filósofos estão livres de equívocos.
Ser um pensador profissional não desfaz a possibilidade de ser sensível à preconceitos ou a receitas extremistas, pelo contrário, a razão pode fundamentar qualquer coisa, inclusive o mal e a tirania.
O remédio para a ignorância e o totalitarismo é a reflexão verdadeiramente calcada em valores democráticos, na crença que qualquer homogeneidade é burra, que é preciso permitir que as pessoas opinem e que precisamos da diferença para conseguirmos uma vida social saudável.
Imprensa livre, mesmo que contra; salários altos para os professores, escolas de tempo integral, educação filosófica e humanística, ênfase no raciocínio científico, pragmático, fundamentado.
E principalmente, permitir que todos, todos estudem psicologia, e aprendam a defender suas próprias mentes de qualquer tentativa de invasão.
Não defende sua casa aquele que constrói muros altos, mas sim aquele que conhece a si mesmo e que é capaz de barrar as invasões que vem de dentro, não as que vem de fora.
É dentro de nós que moram nossos inimigos, nossos preconceitos e erros, nossas crenças equivocadas e superstições.
Se não nos defendermos desses ataques, se não pararmos de inventar íncubus e súcubus para justificar nossas perversões solitárias, pouco teremos amadurecido.
E seremos presa fácil de qualquer um que saiba com sua língua, como a serpente, nos tentar.