Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

FÉ E MEDO

por Mario Sales






“Perigos, infortúnios, necessidades, dores e padecimentos, isto é o que, a mais ou menos, aguarda com certeza todo homem que vem ao mundo. Cabe a ti, portanto, ò filho da calamidade, fortalecer desde cedo tua mente, com coragem e paciência, para que possas suportar com a devida resolução a parte dos males humanos que te espera.
Assim como o camelo suporta o labor, a canícula, a fome e a sede pelos desertos de areia, e não sucumbe, assim a fortaleza do homem o sustenta através de todos os perigos. O espírito nobre desdenha as adversidades da fortuna; sua grandeza de alma está em não desfalecer. Ele não deixa que sua felicidade dependa dos sorrisos da sorte e, por isso, não desanima quando lhe franze o cenho. Como a rocha na praia, ele se mantém firme, e a rebentação das ondas não o perturba. Ele ergue a cabeça como uma torre sobre a colina, e as flechas da fortuna caem a seus pés. No momento do perigo, a coragem de seu coração o sustenta e a firmeza de sua mente o mantém incólume. Ele enfrenta os males da vida como o homem que vai para uma batalha e retorna com a vitória nas mãos. Diante da pressão das desgraças, sua calma alivia seu peso e sua constância as sobrepuja. Mas o espírito pusilânime do homem timorato o atraiçoa, entregando-o a vergonha. Encolhendo-se diante da pobreza, curva-se até a mesquinhez; e, ao suportar docilmente os insultos, abre caminho à injúria. Assim como os juncos que são sacudidos pela brisa, a sombra do mal o faz tremer. Em horas de perigo ele fica embaraçado e confuso; em dias de infortúnio cai e sua Alma é arrebatada pelo desespero. ”

Do livro “à Vós Confio” lemos sobre “A Fortaleza”




Problemas todos enfrentamos ou enfrentaremos, perseguições, constrangimentos, situações difíceis súbitas e inesperadas.
Diante de tal contexto, tudo nos mobiliza para buscar uma solução, uma reversão da estranha maré de acontecimentos que nos tenha atingido.
Certas situações, às vezes, não são de curta duração, ou de fraca intensidade.
Independente de nossos esforços, sentimos nestas situações a perda progressiva de nossas possibilidades de resolver nossos problemas através, apenas, de nossas próprias habilidades.
É aí que oramos.
Oramos por receio da derrota, do fracasso, da dor.
Oramos por forças para atravessar esta fase ou pela simples manutenção da serenidade enquanto aquele drama se desenrola.
Oramos por necessidade, portanto. E nossa fé nestas horas é testada pela intensidade de nosso medo. Pois todos nós, que temos bom senso, sabemos que somos mortais e frágeis e que não temos nada em torno de nós que evite que passemos pelas mesmas atribulações que tantos antes de nós passaram.
Sabemos que nestas horas é importante termos a Fortaleza de Espírito preconizada no texto em epígrafe, mas somos humanos e nossa nobreza depende de nossa capacidade de superar nosso próprio medo do qual não podemos nos separar pela simples e banal vontade.
Ele estará lá, à espreita, tentando sabotar nossa confiança, nossa fé.
Fé e Medo conviverão, lado a lado, como o anjo bom e o anjo mau, cada um de um lado, a nos sussurrar ideias, posturas, de acordo com seus pontos de vista.
Ficaremos, sempre, como ouvintes passivos de suas mensagens, tentando não prestar atenção a um e focar nossa atenção a outro, de acordo com a escolha que façamos. Esta escolha, prestar atenção à esquerda ou à direita, ao Medo ou a Fé, é a essência deste teste de serenidade que atravessaremos com ou sem sucesso, dependendo de nossa Fortaleza e determinação.
A vida às vezes pode ser muito difícil.
Precisamos relaxar e crer que sempre existe uma boa razão par o que acontece e como diz a máxima do movimento Hare – Krishna, “tudo que Krishna faz é bom”.
A tendência é que nos desequilibremos, que nosso espírito se desespere, mas nada, nada é mais incorreto do que isso em momentos de grande provação. É para estes momentos exatamente que todo nosso treinamento mental é focado. É aí que precisamos lembrar de tudo que aprendemos sobre a necessidade do equilíbrio interior e da paz de espírito serem independentes das coisas que ocorrem fora de nós.
Aliás este é o segredo: o fora e o dentro. Embora estes mundos se tangenciem em nossa mente e, em certas situações, até se interpenetrem, são mundos diferentes e podem ser mantidos estanques, sendo que o mundo interior serve, às vezes, como uma cápsula de sobrevivência diante dos transtornos que acontecem em Maya, em torno de nós.
Manter esta separação nítida e clara ajuda a separar o Medo da Fé e a diminuir o efeito enfraquecedor daquele sobre esta, nos ajudando a atravessar momentos difíceis com mais serenidade.