Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 1 de março de 2016

O CERTO E O FÁCIL

Por Mario Sales, FRC, SI, MM




Um leitor do blog me procurou particularmente para dividir suas angustias sobre um problema pessoal. Tratava-se de uma questão de saúde, na verdade de saúde mental, e me perguntava qual a posição da Ordem Rosacruz sobre isso.
Expliquei que assuntos daquela natureza não eram objeto de considerações esotéricas e por isso a Ordem não tinha nada a falar sobre o caso. Que se tratava de um problema médico e que como tal o frater deveria procurar auxilio medico e psicoterápico, com uma boa perspectiva de melhora nos sintomas.
Ato contínuo, ele me indaga: “Frater, eu não posso fazer esse tratamento, é muito caro.” Respondi que poderia ser feito através da saúde pública, sem ônus financeiro. Mesmo assim ele questionou: “- Mas não existe um procedimento velado (esotérico) para resolver isso?”.
Enquanto desfazia este último esforço de não dar a atenção necessária ao problema, vi em seus comentários expresso o sentimento de que o Esoterismo, principalmente sua parte operacional, o Ocultismo, esconde soluções simples e rápidas para todas as questões mundanas e cotidianas.
Como ele é leitor do blog e como essa dúvida ou esta falsa convicção, de que no Ocultismo existe uma série de maneiras para evitar o Carma ou as atribulações da existência, deve ser uma impressão não tão incomum, resolvi elaborar mais sobre o tema para complementar minha resposta para ele em particular e para fratres e sorores em geral, que compartilhem dessa perspectiva.
Na verdade, a vida não é fácil para nenhum de nós, seres humanos. E recursos comprovados que possam atenuar nossas dificuldades pessoais não devem ser menosprezados em detrimento de condutas sem suporte nos fatos e nos experimentos, ou mesmo sem domínio de nossa parte.
Se alguém se opuser a essas afirmações dou alguns exemplos de humanidade e limitações presente entre alguns indivíduos acima de qualquer suspeita.
Comecemos pelo Buda, Sidarta Gautama, que conheceu prazer e deleite durante toda a juventude, e que ao se deparar, pela primeira vez, com os três problemas da existência, a doença, a senilidade e a morte, foi tomado de uma emoção tão intensa que embrenhou-se na mata durante uma madrugada, trocando seu palácio por cinco anos de privações, desconforto e meditação. Esses cinco anos não foram cinco dias. Foi um período de dor e cansaço, de momentos de tentação, instantes de dúvida, de sofrimento físico e psicológico. Sua dignidade, sua determinação e firme convicção de busca da iluminação foram suas armas para atravessar sua noite negra e emergir mais sábio ao final.
Assim vemos que ele, o Buda, passou por problemas e optou por aprofundar seu auto conhecimento através do esforço meditativo, com determinação e sacrifício, até que pudesse transcender suas limitações. Sua santidade que se manifestaria a posteriori não livrou-o de pagar o preço da sabedoria.
Pode-se argumentar que após a iluminação sua vida tornou-se mais serena e fácil, o que provavelmente não é verdade, pois "a vida vem em ondas" e manter-se sereno sobre as águas revoltas do Oceano sempre será um exercício permanente, que requer prática e uma convicção que não é comum na maioria das pessoas, como demonstra a passagem bíblica envolvendo Pedro apóstolo, um barco e Jesus.
E para que não restem dúvidas, entretanto, chamo ao palco o mesmo Jesus, o Cristo, outro nobre líder espiritual, agora do Ocidente, embora nascido também no Oriente, já que “a luz vem do leste”.
Homem de rara percepção, capaz de conhecer o futuro e os desígnios divinos, pouco antes de seu martírio ele passa a noite no Getsêmani, um monte perto de Jerusalém, em oração e prece, tomado pelo medo e pela angústia. Atravessa ali momentos de intensa ansiedade; sua sangue. Mesmo assim, não evita, se bem que, supõe-se pudesse tê-lo feito, o destino que julgava ser o mais adequado a criar, historicamente, as bases para um novo conceito de espiritualidade.
É preso, torturado, morto e, após três dias, transcende sua noite negra, como chamam os rosacruzes, ressuscitando transfigurado, em corpo glorioso, e retornando ao convívio dos discípulos, para comer com eles e mostrar a superioridade do espírito sobre a matéria.
De forma alguma seu sofrimento foi menor por causa de seus conhecimentos esotéricos e de seu poder místico.
Os verdadeiros místicos e esoteristas sabem que não podem abrir mão de fazer o certo e trocá-lo pelo caminho mais fácil e que o verdadeiro milagre está em render-se às vicissitudes da existência, de modo estoico, confiando em que Deus tem um plano para nós, mas cumprindo nossa parte nesta relação e buscando, dentro da nossa circunstância, os meios e maneiras de atingir o melhor resultado possível, para nós e para a sociedade.
Pensar que existe um atalho, uma via rápida que nos exime de atravessar as experiências que Deus julga necessárias ao nosso aperfeiçoamento é não compreender adequadamente a razão de nossa passagem por este plano de evolução. Estamos aqui para desfrutar das situações que nos são apresentadas pela vida, podendo ou não sermos bem sucedidos ao tentar resolvê-las com suas nuances e dificuldades inerentes, mas, e o mais importante, empenhando nosso melhor esforço tentando vencer nossos desafios diante de nossas limitações.
Ah! O Cristo e o Buda não são exemplos satisfatórios já que são seres de grande e indiscutível evolução. Muito bem então. Vamos reduzir nossas expectativas a pessoas também importantes no esoterismo e no Ocultismo, mas sem a luz dos indivíduos citados acima. Falemos de três pessoas, dois rosacruzes e um esoterista francês. Os rosacruzes: Francis Bacon, imperador da Ordem no século XVII e o Conde de Cagliostro, conhecido ocultista do século XVIII. E o Esoterista francês será Papus, o reorganizador da Ordem Martinista com Chaboseau, no final do século XIX.
Bacon conheceu glória e respeito, produziu literatura filosófica e esotérica, mas mesmo assim, não evitou passar por um período de sofrimento, vergonha e prisão, mesmo que por pouco tempo, tendo sido afastado de seu cargo de Chanceler sob a acusação de corrupção. E Cagliostro, perseguido por inimigos invejosos, terminou seus dias de bondade e conhecimento na prisão da Bastilha, aonde faleceu.
 E finalmente, o grande vidente Papus, não foi capaz de evitar a sua própria morte de tuberculose em uma trincheira na 1a guerra mundial, para muitos demonstrando assim uma incapacidade de antever o perigo e desviar do perigo.
Todos tinham grande conhecimento esotérico e ocultista. 
Não consta que tenham usado este poder para fugir aos acontecimentos que os atingiram; nem consta que recusaram seu destino através de meios mágicos e secretos. 
Talvez não soubessem como; talvez não quisessem. Acredito que nunca saberemos.
Prefiro creditar estes procedimentos aquele fator imponderável, mas presente em todas as situações difíceis que atravessamos ao longo de uma encarnação: nossa própria humanidade, esta mesma humanidade que como qualidade inerente ao estado de ser humano, nos liga e conecta ao Conde Cagliostro, à Bacon, Papus, Cristo e Buda.
Todos somos homens ou mulheres, todos nós devemos usar tudo que sabemos e o que outros sabem em prol de nossa melhoria de qualidade de vida física e espiritual.
Porque não há atalhos e viver dá trabalho . 
E o mais seguro é seguir o caminho ortodoxo, do esforço pessoal, da humildade em receber orientações que nos ajudem a melhorar, de ouvir o outro e a si mesmo, e, se formos sinceros, marcharmos decididos em direção à solução de todos os nossos problemas.
Nem que levem cinco anos ou nos cause uma dor intensa.
Emergiremos depois aperfeiçoados, ressurrectos, pois aquilo que não nos mata (e, às vezes, o que nos mata) nos fortalece, como dizia Nietzsche.
Não podemos abrir mão de nosso esforço pessoal, já que este esforço, físico , intelectual e espiritual, é, ao fim e ao cabo, a maior magia transformadora que temos a nossa disposição.
E concluamos este ensaio com este pensamento: só está pronto para ser um Mago aquele que não procura resolver tudo pela Magia.