Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 31 de março de 2016

AS BARBAS DE DEUS


por Mario Sales

Em um seminário ontem a noite em uma loja Maçônica, lá pelas tantas o palestrante entrou pela seara da Cabala.
Como de hábito, dentro da maçonaria, não se faz distinção entre Cabala Judaica, de Luria ou de Moshe de Leon, com a Cabala Cristã, este Frankstein nascido da mente perturbada do pensador italiano Pico de la Mirandola, catequista cristão de primeira hora e que causou, a meu ver, com seu trabalho, um grave desserviço ao estudo do verdadeiro misticismo judeu que desembocou no que se chamou de Cabala Esotérica; mas isto é assunto para outra hora.
O que me chamou a atenção, no entanto, foi a colocação do conceito de que o Ain, o Nada de onde Tudo provém, é essencialmente doador e que ao homem resta a condição de eterno recebedor da Luz do Ain, não tendo maior papel na Criação a não ser receber cada vez mais e melhor esta Luz, pela retirada paulatina dos véus que inibem sua percepção.
Usando uma interessante metáfora na explicação das “cascas” que envolvem o homem, o palestrante comparava estas obstruções à véus que são jogados sobre um abajur em número cada vez maior e que aos poucos chegam a ocultar quase por completo a luz que dele emana.
O processo de avanço espiritual, concluía ele, seria a retirada de véu após véu, até que a luz pudesse novamente voltar a brilhar desimpedida.
Quanto a estas duas afirmações, de que Ain é apenas doador e que Malkuth e os seres que neste plano habitam são apenas receptores, (conceito que o palestrante deve ter colhido em algum dos milhares de textos sobre Cabala que existem pelo planeta hoje em dia, repito, sem a distinção clara daquilo que é genuinamente judeu e o que é oriundo da salada conceitual chamado Cabala Cristã), argumentei que, na minha opinião, (paradoxalmente usando um exemplo do esoterismo árabe-ocidental, a Tábua de Esmeralda), não via da mesma forma a relação , via Árvore da Vida , entre Ain e Malkuth.
Considerando que a Tábua ensina que “o que está em cima está embaixo e o que está embaixo está em cima” vejo a Árvore como uma estrada de duas mãos e Malkuth como o espelho de Deus, tese que encontra amparo em Luria, com sua teoria do Tikun Olam, ou o conserto do Mundo.
Como sabem, após a Shevira Hakelin, Luria diz que os cacos espalhados devem ser recolhidos e reunidos em um único conjunto, de forma a desfazer a dispersão das luzes causada pela explosão das sefirot pela fraqueza dos Vasos iniciais em suportar a Luz de Deus, na primeira tentativa de criação de Malkuth.
A Shevira Hakelin, ou Explosão dos Vasos, para Luria, causou uma situação tal que, sem o concurso e a colaboração de cada um de nós, o Universo e a Criação jamais serão de novo reorganizados, e cada vez que faço algo bom, praticando um ato de misericórdia, ajudando alguém que precisa, demonstrando compaixão, estou envolvido diretamente no processo de Tikun Olam, ou seja, estou reorganizando as luzes espalhadas, reunindo-as e restaurando a Unidade perdida. Para Luria, o ser humano comum, por mais simples que seja, pode e deve colaborar com o Ain na administração e aperfeiçoamento da Criação o que, ao contrário da tese defendida pelo palestrante ontem à noite, faz de Malkuth um lugar de intensa atividade, e não uma região passiva.
Assiah, o nível onde Malkuth se encontra é, pois, uma região viva e atuante.
Então, na minha opinião, melhor seria considerar a Árvore, como disse, uma via de duas mãos e Malkuth como o Espelho de Deus, como já defendi neste espaço mais de uma vez. 
Deus, em sua Sabedoria, não é inerte ou imóvel, como preconiza a visão filosofica de doutores e pensadores da Igreja Catolica, como Agostinho, mas evolui, como pensa o Hinduísmo e sua filha dileta , a Teosofia Blavatskiana, e parte importante desta evolução depende dos experimentos que realiza em cada Criação, em cada Universo que produz, sucessivamente.
Não uma única criação, um único Tzim-Tzum, dentro do espaço em seu interior, como ensina Luria, mas sucessivas criações, a seguinte sempre mais aperfeiçoada que a anterior, consequência das infindáveis informações colhidas por nós, suas sondas energéticas, que neste ambiente temporário de milhões de anos e em sucessivas encarnações ( sim, o Cabala aceita a reencarnação, a Guilgul Neshamot, a Transmigração das Almas, como descrita no Sepher Bahir e no Zohar) buscamos a retirada dos tais véus citados pelo palestrante, não apenas para receber mais luz, mas para melhorar a compreensão de Deus de si mesmo.
Talvez uma imagem mais didática seja a do espelho do banheiro durante um banho muito quente.


Toda vez que saímos do chuveiro após um banho muito quente que tenha produzido muito vapor, encontramos o espelho embaçado e precisamos limpar com as mãos o vidro para que possamos fazer a barba ou terminar nossa higiene matinal.
Deus cria, da mesma maneira, sucessivos Universos, e estes são como espelhos embaçados em que ele procura se olhar e se conhecer melhor. O tempo de duração de um único universo, de uma única experiência de Criação, entre muitas, é o tempo que Deus leva para “desembaçar o espelho” à sua frente. 
O Ain cria mundos e universos para se ver melhor.
Malkuth é o espelho que reflete a Luz que vem do Alto de volta à fonte, imagem reflexa essa sem a qual Ele, o Incognoscível, não poderia ver-se e conhecer-se melhor.
Penso na maioria do tempo como um filosofo Sankhya e acredito no aforisma desta grande escola hindu que diz "Ishwar Avydya”, ou seja “Deus não se discute”.
Com isso quero dizer que discutir a natureza de Deus não leva a parte alguma já que, como se disse, ele é, para nós, algo acima de nossa compreensão.
Discuto , entretanto, estes aspectos acima, animado pelo debate de ontem a noite, apenas porque isto diz respeito à vida humana em Malkuth, e não porque esteja em meio a uma investigação metafísica abstrata.
Se entendermos, como Luria propõe, que somos parte da solução, nossa responsabilidade e nossa auto estima aumentam, na mesma proporção que entendemos a importância de cada ato nosso, por menos importante que pareça, na melhoria da compreensão de Deus de si mesmo e no aperfeiçoamento do próprio Universo. Não somos mais vítimas de um destino, mas criadores do Destino, tão criadores quanto Deus em si já que somos suas extensões.
Todos nós somos, portanto, como diz lindamente o Martinismo, Agentes Divinos na Terra, e nesse sentido nunca poderíamos desempenhar papel de simples receptores da Luz divina, sendo nossa única obrigação, se aceitarmos esta compreensão, ficar cada vez menos afastados da luz de Deus, que nos banha, mas passivos, como alguém que se bronzeia ao sol, em uma praia.
Alguns dirão: não, não se trata disso, pois a exposição à luz de Deus pela retirada dos véus que interrompem o livre fluxo da luz divina pressupõe atividade e aperfeiçoamento e não passividade. Concedo. Só que esta explicação é, embora correta, insuficiente.
A melhoria de nossa espiritualidade não visa apenas o nosso aperfeiçoamento isoladamente, mas o aperfeiçoamento da própria criação, do conjunto do Adan Kadmon, a Humanidade.
Portanto, podemos buscar a progressiva retirada dos véus não pensando em melhorar a nós mesmos, mas ativamente praticando o bem, sem olhar a quem, melhorando o mundo, como um todo.
Quando a bondade em nós se tornar um hábito espontâneo, quando ver o outro não como um estranho, mas como membro de uma comunidade e de um tecido ao qual eu pertenço, tecido este que deve ser preservado por todos para que todos, inclusive nós mesmos, possamos desfrutar de um ambiente melhor, também estamos nos desfazendo dos véus que nos bloqueiam a visão e que impedem de vermos, não diferenças, mas semelhanças entre nós, seres humanos.
Isto também é Tikun Olam, a restauração da Criação, o trabalho de reunir os cacos resultantes da Shevira Hakelin.
Queria dizer , por último, que alguns véus não se tornaram véus apenas por deficiência da espiritualidade humana.
O fato de estarmos em Malkuth, no plano de Assiah, nos obriga a lançar mão de instrumentos de adaptação a este ambiente material, de densidade diferente, da mesma forma que usamos trajes de mergulho especiais que reduzem nossos movimentos e tolhem nossa capacidade de visão como os antigos escafandros, ao mergulharmos em águas profundas.
A maioria dos cabalistas e esoteristas supõem que as explicações das dificuldades do homem são ligadas a problemas de caráter e falta de evolução. Insisto que devemos considerar a possibilidade de que esta seja, como imaginam Hindus, o físico Marcelo Gleiser e alguns Cabalistas, uma criação imperfeita, que não permite ainda maior liberdade às suas "sondas divinas de investigação", nós, seres humanos, tendo-as feito de tal forma mal acabadas que enfrentam graves dificuldades de adaptação na troca entre planos como Atziluth e Briah, Briah e Yetzirah e finalmente, Yetzirah para Assiah, aonde se encontra Malkuth.




Em vez de supor que as dificuldades do homem sempre são consequência de suas opções, consideremos misericordiosamente, que nós humanos fazemos o que podemos dentro das condições que esta criação em particular nos permite fazer, e que mais do que isto, neste atual modelo, seria impossível realizar.
Esta visão, de que o homem é o culpado de sua dor e não a Criação em aperfeiçoamento que o cerca, é bastante judaico-cristã. Culpa e pecado são conceitos caros a estas duas culturas.
Na verdade, sem tirar de cada pessoa sua responsabilidade por seus atos, insisto que temos limitações e que precisamos ter tanta compreensão e misericórdia com os outros quanto conosco, nesta difícil caminhada que é a reconstrução do Universo, deste em que ora estamos, bem como de todas as outras experiências de Universo que o Criador, o Ain, em sua imensa curiosidade sobre Ele mesmo, produzirá, ao longo das eternidades.
Por muito tempo ainda Deus esfregará o espelho da criação com suas mãos para retirar o vapor que o encobre apenas para ver-se, ou talvez terminar de fazer sua própria barba, a divina barba do Criador.