Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CONVERSANDO COM MIGUEL



Por Mario Sales




“Mario, nunca te escrevi, sempre leio suas reflexões.
Parece que você pretende dar um cunho de cientificidade ao esoterismo o qual, para mim, não seja possível pois tratam-se de instâncias diferentes. ”
Meu caro Miguel, obrigado por suas ponderações. É um poderoso estímulo para este espaço quando posso ouvir o outro lado. Por isso, obrigado.

Quanto às suas colocações, vamos por partes.
Você diz acima que “sempre lê minhas reflexões”.
Portanto suponho que você leu um ensaio chamado “O Caminho e o caminhar”, publicado em 13 de julho deste ano, aonde se vê este trecho: “Como vocês sabem, eu costumo diferenciar o sentido das palavras misticismo, esoterismo e ocultismo, dando a primeira o significado de conjunto de práticas que visam o contato com o Deus de nossos corações; a segunda, o conjunto de práticas intelectuais, cercadas de segredo, ligadas a interpretação de textos e símbolos antigos; e, finalmente, a terceira, o significado de conjunto de práticas ligadas a tornar possível a intervenção no real, de modo incomum, seja no plano da terra (magia), seja no plano do céu (teurgia).”
Se leu, não atentou para o fato que em todo o ensaio “Para que serve o esoterismo”, o termo usado é Esoterismo e não Misticismo. Logo, quando você diz que “não seja possível (dar um cunho de cientificidade ao esoterismo) pois tratam-se de instâncias diferentes” você provavelmente refere-se ao Misticismo, segundo o meu critério, e não ao esoterismo.
O Misticismo sim trabalha em outro nível de interação com o real, sendo um caminho para dentro, pessoal, indemonstrável, invisível, insípido e inodoro, portanto fora dos interesses da ciência ortodoxa.
O Esoterismo, ao contrário, não é assim. Ele se baseia em uma série de informações e insinuações, dispostas em textos os mais variados, e que se pretende capaz de um diálogo com a ciência, seja no sentido de buscar um estatuto semelhante de validação, seja como antagonista intelectual e metodológico, propondo ter capacidade de apresentar resultados maiores e melhores para situações mundanas e cotidianas sem a necessidade do aparato científico contemporâneo. 
Basta ler a Doutrina Secreta, e aí principalmente a versão da Editora Pensamento, adulterada segundo informações dos próprios Teósofos por Anne Besant e Leadbeater, de modo mais significativo no volume três, (que quase enlouqueceu a mim e a Flavio) com um anexo maior que o próprio texto base do volume, em que os autores se esforçavam para se mostrarem capazes de demonstrar, através de informações ortodoxas da ciência, a veracidade das afirmações do texto blavatskiano.
Não Miguel, esoterismo, sempre segundo a maneira que entendo a palavra, não é misticismo.
O esoterismo é intensamente intelectual e descritivo, baseia-se em longos raciocínios e quer ter status de conhecimento de certeza, embora se recuse ao ritual mais importante de qualquer conhecimento deste gênero, que é a verificação empírica ou matemática.
Já o Misticismo, como você disse, está em um nível diferente e não pode ser comparado a ciência, sendo ambos talvez vetores de mesma direção, mas de sentidos opostos, um indo para fora, para o fenômeno, (a ciência) e outro indo para dentro, para o númeno, (o misticismo).
Portanto, ao contrário do que você diz, de que eu pretendo “...obter respostas objetivas para uma ordem de coisas que não passam pelo intelecto” gostaria de confirmar que sim, anseio por mais objetividade, mas do Esoterismo, que está, como demonstrei, historicamente no mesmo nível das chamadas Ciências Moles, as Ciências Humanas, e não do Misticismo, que é um saber de natureza diversa.
“Como entender algo que não passa pelo caminho das ditas verdades do ego? Esta possibilidade está muito longe da contemporaneidade, tão mesquinha, tão fracionada, tão individualista. Tão tola e crente no homem. ” 
Fica mais fácil agora esclarecer a você que em Esoterismo, (ao contrário do Misticismo, cujos  representantes mais importantes jamais deixaram textos ou livros para serem chamados de sagrados), seja o Esoterismo de Eliphas Levy, ou de Leadbeater, ou de Guenon, o que temos na verdade são monumentos ao ego de seus autores, os mesmos que compõem o grupo que eu chamo de “esoteristas literários”, que produzem compilações eruditas e que são, por isso, confundidos com grandes mestres espirituais.
Repito, os verdadeiros mestres espirituais não produziram literatura para consumo das massas e deram mais importância ao exemplo com suas vidas e suas palavras.
São os textos, e apenas os textos, que podem ser submetidos ao escrutínio dos intelectuais exegetas, dos interpretadores, os mesmos que cometem e cometerão equívocos de interpretação, pelos motivos mais variados, entre eles falta de estofo hermenêutico, a arte de contextualizar historicamente um texto, seja ele qual for. É neste esforço intelectual e não espiritual que se encaixa a sua ressalva de que: “...para agravar nossa capacidade interpretativa é que entre "nós" e as "verdades antigas" existe um século XIX (romântico) e XX , cheio de fantasias e espertalhões que lucraram com o discurso "a verdade é por aqui"...ou "ali"...ou "acolá.”
Concordo com você quanto ao fato de que “...temos que ter a capacidade de encarar também a possibilidade de que não existe nada além. Acho que a desilusão faz parte do caminho para se chegar a um fragmento da verdade. Portanto vejo como positiva sua inquietação. ”
Você diz também: “Não creio na existência de receita. Cada um parte de um ponto. Receita pronta e poderes psíquicos são para os fracos, pessoas possuidoras de egos enormes se debatendo em vã erudição. ”
Novamente aqui acho que se dá a mistura entre os critérios de Misticismo e Esoterismo. Como exemplo, usarei o sexto grau de templo da Ordem Rosacruz. Os conhecimentos deste grau se referem a técnica terapêutica rosacruz, que por sua vez, admite-se ser uma herança do conhecimento dos Essênios ou Terapeutas, uma nobre e antiga ordem do Oriente Médio, cujos conhecimentos foram absorvidos pelos rosacruzes na sua caminhada desde os templos do Egito.
Ali temos conhecimentos esotéricos, na forma de técnicas, receitas como você disse, de como tratar um sem número de afecções e moléstias de modo a complementar e não substituir a Medicina Contemporânea.
É um conhecimento organizado, com princípios claros, cujos resultados dependem de prática, da mesma forma que a mente pode ser melhorada quanto a sua capacidade pela “receita” da meditação, esta sim outra técnica aceita em muitos ambientes, sejam religiosos, esotéricos ou neurocientíficos. Um sem número de publicações atestam a eficácia desta receita de “silenciar a mente em períodos regulares e assim melhorar a mente e o corpo. Receita, no sentido de técnica para desencadear determinado efeito terapêutico ou psicológico, existem sim. Dentro do contexto esotérico.
Já no contexto do Misticismo não, pois ele é um caminho pessoal e solitário e como você disse, não tem receita. 
No Esoterismo são abundantes as receitas para isto ou para aquilo, principalmente no seu braço prático, o Ocultismo, que se dedica exclusivamente à receitas de como fazer coisas comuns de modo incomum.
Concordo com você quando diz que: “...se ficarmos no campo da exterioridade, se não acontecer a transcendência, as coisas perdem a significação, fica o sentimento de palhaços paramentados enlouquecidos pela falsa sensação de poder, o que não deixa de ser verdade. Acho até que muito da produção esotérica, ocultista, e seja lá todas estas coisas e outras tantas, são tentativas do Ocidente buscando explicar caminhos trilhados no Oriente pelos antigos na Cabalah, na Yoga, no Tao e na Alquimia. Explicações, em grande parte, confusas, grotescas e fragmentadas.”
No comentário seguinte (“...Um outro ponto, em meio a esta grande salada que estou dividindo com você, é que levo em consideração nossa presunção em pensarmos sermos hoje o ápice de todas as civilizações, quando na verdade nunca voamos tão baixo, como exemplo, vejo no passado a necessidade da criação da escrita não como um avanço, mas uma decadência na capacidade de compreensão entre os homens (vide os motivos da transição da tradição oral para escrita dos Vedas e da Torah entre outras), portanto a decadência de nossa espécie vem de longe.”), gostaria de fazer algumas considerações.
Ouço sempre este argumento de que nossa época é melhor ou pior que outras, que no passado havia menos ambiguidades, etc, etc, etc.
Acredito que este é um enfoque incompleto e parcial da evolução da nossa sociedade como espécie, baseado em uma compreensão linear da história. Neste tipo de compreensão linear, muito comum aos pensadores do século XIX, o que veio antes foi pior e o que virá depois será melhor por causa do chamado “progresso científico”. Estes critérios foram reavaliados no século passado e hoje são passíveis de um sem número de críticas possíveis. Veja, qualquer civilização é complexa e deve ser analisada sobre uma grande quantidade de parâmetros. Estes parâmetros podem ser divididos em principais e secundários.
No século XIX, na era pré positivista, ainda se achava que progresso era tecnologia e ciência e somente isso. A Europa branca era considerada modelo do mundo e tudo que fosse diferente era exótico ou inferior. Como você bem sabe, bárbaros eram os outros, fosse para os chineses, para os romanos ou para os gregos, bem como o foi para os europeus.
No século XXI já não se pensa assim. Aliás, em linha com sua crítica, se pensarmos avanço como acesso a informação e melhoria das condições gerais de saúde, sim estamos em uma época mais avançada; se por outro lado pensarmos em riqueza o mundo, independente dos bolsões de miséria conhecidos, não para de enriquecer fazem décadas; quanto ao avanço como melhoria do homem e da mulher como seres planetários, com maior consciência ecológica, graças em muito ao trabalho do Green Peace, também houve melhora, já que estamos mais focados, nós os contemporâneos em uma maior qualidade de vida e não necessariamente em riqueza material. Existem muitas pessoas marginalizadas na sociedade de consumo, os sem cartão de crédito, como diz Baumann, mas mesmo assim houve expansão da distribuição de bens, se bem que o mundo ainda tem uma divisão extremamente desigual entre suas diversas faixas de renda.
Mas se você se refere ao aspecto ético e espiritual, se você quer dizer que nossa época é moralmente pior que as anteriores, com certeza não podemos falar em progresso, mas em manutenção do status quo.
O ser humano ainda se desconhece e pouco se esforça para conseguir se conhecer melhor. 
A frase em Delfos em grego GNŌTHI SEAUTON ou em Latim “Nosce te ipsum”, Conhece a ti mesmo, ainda é um desafio permanente para esta sociedade pós psicanálise.
Ainda vivemos a ilusão dos países, das línguas, ainda não nos compreendemos como uma espécie planetária única, mas acredito que temos conseguido alguma evolução.
De qualquer forma são tempos mais elaborados sim, mas com menos ilusões, aonde não existe mais lugar para ideologias e onde o terrorismo passou a ser mais perigoso que a guerra entre as grandes potências, nosso receio de 50 anos atrás.
E quanto ao seu comentário: “sem ofender ...40 anos depois você ainda espera os ditos poderes psíquicos... leia Guenon (trecho do livro "Considerações sobre a iniciação", já não sou tão jovem para ter ambições tão infantis.
Quando falo que o esoterismo promete muito mais do que entrega, refiro-me ao fato de que, como comentei acima, aquele que deseja status de respeito científico deve submeter-se, humildemente, aos métodos de avaliação científicos, a verificação de suas premissas e de suas afirmações e ao critério de reprodutibilidade que orienta qualquer técnica científica. Era este modelo que a Ordem Rosacruz, sob a batuta de Spencer Lewis prometia aos seus membros. Como os alquimistas do século XX, os rosacruzes da Califórnia tinham laboratórios, um planetário, e procuravam mostrar seus princípios através de experimentos. Não eram apenas narradores ou escritores mas submetiam seus princípios a testes, no melhor comportamento científico experimental da época. As áreas de Misticismo e Esoterismo eram bem divididas. Haviam cerimonias iniciáticas e rituais, mas paralelo a isto havia um trabalho laboratorial que nas últimas décadas do século XX foi chefiado pelo Dr. George Buletza que publicava regularmente seus resultados de pesquisa na revista “O Rosacruz” dos Estados Unidos e era republicado em revistas semelhantes de todas as jurisdições do planeta.
De lá pra cá muita coisa mudou e a própria palavra “técnica” foi apagada dos textos rosacruzes. Houve uma mudança sutil com ênfase no aspecto Místico em detrimento do caráter experimental dentro da área esotérica, que tentava dar um caráter mais experimental ao trabalho de AMORC. Mais: o aspecto místico teve uma forte guinada para uma estratégia em muito semelhante à religiosa. Atribuo isto a um fortalecimento do braço martinista da Ordem, que como já demonstrei não é semelhante ao trabalho rosacruciano, já que segue os protocolos instituídos por Papus e Chaboseau, muito semelhantes formalmente mais ao Wilermosismo do que ao Martinismo propriamente dito. 
Expressões como , por exemplo, que eram entendidas como produto apenas de discursos religiosos, foram incorporadas ao vocabulário rosacruz, como se rosacrucianos fossem. Na verdade, Lewis ele mesmo repetidas vezes disse em artigos e em monografias que o conhecimento rosacruz jamais se basearia em Fé, mas na Confiança que advém da experimentação e verificação dos preceitos das monografias. 
A Ordem nos últimos anos parece mais uma religião do que uma Ordem Esotérica, e mais do que isto, parece muito mais com uma Ordem cristã do que outra coisa qualquer, e isso, já falei também, vai contra o espírito universalista que sempre guiou os trabalhos no século XX, com atenção igual ao pensamento judaico, islâmico, sufi ou budista.
Algo que foi nesta direção foram as visualizações do Sanctum Celestial que de um modelo de Catedral Gótica passou a ser flexibilizado na forma que melhor aprouver a linha de pensamento do rosacruz em questão.
Não quero dizer com isso que a Ordem não respeita e agrega valor com os ensinamentos cristãos, mas, ao mesmo tempo, a Ordem que Lewis, um cristão convicto, metodista, estabeleceu em 1915, era multicultural, a começar pela sua alegada origem Egípcia.
É contra esta sutil e preocupante mudança do ponto de vista de discurso e metodológico que eu me levanto.
E quando falava que “Minha sensação é de impaciência com a minha própria ignorância e com a ignorância que o segredo me obriga a aceitar como parte da minha vida esotérica” não falo de dons mais de informação, que dizem estar arquivada aqui e ali mas que nunca vem a luz. Falo das técnicas, das receitas sim, que podem ter impacto não na minha vida pessoal, mas na vida de muitas pessoas que precisam dessas informações para se recuperarem de problemas de saúde, os mais variados.
Eu falo como médico, como alguém que vê uma medicina avançada, mas ao mesmo tempo inviável pelos enormes custos e pela desorganização administrativa do nosso país. As técnicas do sexto grau são extremamente úteis, mas funcionam ainda como paliativos para situações não tão graves. Era disso que eu falava. Se o esoterismo tem alguma receita realmente eficaz contra a dor e o sofrimento que a mostre, que a compartilhe; senão que seja mais humilde e reconheça sua limitação ao que é, um conjunto de afirmações não demonstradas nem demonstráveis, baseado em crenças e não em fatos ou experimentos, como era o sonho de Spencer Lewis.
Quando você fala que: “ ...o mais importante, para (você), e o mais difícil para nossa época, é o curvar-se a um conhecimento eternamente desconhecido, a transcendência...” novamente você se refere ao aspecto Místico da existência, não ao Esotérico. E isto, se é difícil hoje, sempre o foi em todas as épocas, e não só na nossa.
Ao fim e ao cabo, corpo e espírito andam lado a lado e o que tem feito melhorar a espiritualidade na humanidade tem sido o aumento de sua cultura e de sua dignidade.
Livre das pestes que devastavam a humanidade, pulamos de um milhão e quinhentos mil para sete bilhões de corpos coabitando o mesmo planeta, ao mesmo tempo.
E mesmo considerando, como disse acima, a existência de bolsões de miséria e atraso no planeta, a sociedade prospera e o ser humano contemporâneo já não se satisfaz apenas com discursos e promessas. Ele quer fatos, resultados, fenômenos que manifestem o númeno, e que possam ser utilizados na melhoria da qualidade da sua vida e na vida dos seus familiares e amigos.
Todos nós rosacruzes nos curvamos à este conhecimento eternamente desconhecido, como você comentou. Só que ao mesmo tempo, exatamente, além de nos curvarmos ao eterno, queremos nos erguer com o temporal, nos ombros de nossos antecessores, fazendo valer nossa tradição e dando uma contribuição objetiva a melhoria do mundo em que vivemos. Não é possível que, se temos, como dizemos ter, não só nós, rosacruzes, mas todas as linhas esotéricas, um conhecimento realmente revolucionário para a vida de todas as pessoas, ele sirva apenas aos interesses de poucos e não de todos. 
Esse era o sonho de Lewis, de Comenius, e é o meu também.

Abraços

Mario