Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

PARA QUE SERVE O ESOTERISMO?


Por Mario Sales, FRC,SI


“...deixe o Sol bater no meu rosto
(e as) Estrelas preencherem meus sonhos.
Sou um viajante de ambos, tempo e espaço
Para estar onde eu estive,
Para sentar com anciões da raça gentil
Que este mundo raramente viu;
Eles falam sobre os dias pelos quais eles sentam e esperam
Quando tudo será revelado

Trecho da letra de “Kashmir”, Led Zepelin


Minha ignorância inevitável sobre muitas coisas, embora não seja uma virtude, me absolve de ser incriminado por cometer enganos.
Portanto admito que posso estar errado em minha insatisfação; mesmo errado, o que não posso fazer é ignorá-la.
É por isso que me entristece que o esoterismo não seja como a ciência, e se tem, como diz ter, recursos mais avançados para fazer mais e melhor as mesmas coisas mundanas que a ciência faz, não reparta a informação com todos, de maneira clara e desinibida, como qualquer conhecimento científico não iniciático faz.
Ao contrário do esoterismo, que esconde no segredo suas alegadas capacidades, que raramente são demonstradas e que poucos testemunharam, cientistas compartilham não só suas descobertas, mas também a sua busca.
Tudo que a ciência descobre, desde antibióticos até a lâmpada elétrica ou de L.E.D., ela compartilha.
Nenhum cientista em sã consciência, se soubesse como curar a cegueira simplesmente misturando cuspe ao barro, jamais se negaria a dividir essa informação. E em sã consciência não a chamaria de milagre, mas de produto de um saber.
Quanto mais pessoas tem acesso a esta informação, maior o número de pessoas beneficiadas. Faz parte do trabalho científico ser algo compartilhado. Mais cabeças pensando sempre ajudam a acelerar a compreensão de problemas matemáticos ou cosmológicos que surgem das observações e do cálculo. E isto ao longo de séculos.
Não é possível entender o trabalho de Einstein sem a colaboração de Newton e James Maxwell. Ou o de Hawking sem Einstein. Trata-se não apenas de uma corrida de obstáculos, mas também de revezamento, onde um passa o bastão para o outro, até que o último consiga fazer a conclusão do circuito.
Esoteristas, eruditos do chamado conhecimento oculto, ao contrário, nada repartem daquilo que afirmam conhecer ou se o fazem, cercam esse compartilhamento de tantos mistérios e véus que acabam por prejudicar qualquer possibilidade de permitir que outros possam entender e conhecer também aquilo que afirmam conhecer. Leva-se tempo demais apenas para entender o querem dizer com suas afirmações confusas e obscuras.
Digo afirmam conhecer, e não que conhecem, porque tanto segredo às vezes nos causa a suspeita de que por trás desta cortina, como num truque barato de mágica, nunca houve nada escondido. Ou se um dia houve, hoje, como já a muito tempo, não existe mais.
E os esoteristas contemporâneos vivem e respiram lendas não confirmadas e declarações não comprovadas de fatos que nunca testemunharam, mas que “sentem” que são verdadeiros.
Vejam, quem está afirmando isso sou eu, um esoterista também, e não alguém de fora do ambiente iniciático.
O esoterismo é hoje, se é que já não era antes, uma espécie de religião, tão cheio de dogmas e cacoetes filosóficos quanto qualquer das muitas linhas religiosas no mundo. São rituais demais, palavras secretas demais, afirmações sem demonstração alguma demais, para se sustentar apenas na crença de alguns ingênuos defensores acríticos.
Já faz muito tempo que a inquisição ou mesmo o poder da Igreja acabou. Mesmo assim alguns se comportam como se houvesse alguma razão para manter este sigilo estupido e improdutivo, que mais serve para atrair pessoas crédulas para suas fileiras do que para gerar conhecimento. Já falei e repito: ninguém mais nos persegue, ninguém mais se interessa por nós, somos apenas um grupo curioso de crentes com suas peculiares praticas religiosas.
Não abandonei minha religião inicial para me tornar membro de outra; tornei-me um esoterista por acreditar no que Lewis garantia em seu discurso: junte-se aos rosacruzes e nós lhe revelaremos técnicas que lhe demonstrarão a exatidão de nossos ensinamentos. De lá para cá já se vão mais de 40 anos. Conheci algumas técnicas sensacionais, mas nem metade da expectativa que eu alimentava em meus primeiros anos. O mais importante: não conheci quase ninguém que dominasse quaisquer dessas técnicas de modo indiscutível e possível de demonstração.
São relatos e relatos, na maioria das vezes, apenas relatos, histórias de se ter feito isto e aquilo em circunstâncias muito particulares e muito pessoais, fora o caráter interpretativo de cada experiência pessoal, o qual enriquece a narrativa, seja ela qual for, com expressões como “tenho certeza que era isso” ou “senti naquele instante que era aquilo”.
Sinto falta de fatos e embora admire o Cristo continuo sem entender porque seus dons foram usados, mas não compartilhados, já que como todo rosacruz sei que dons especiais são produto do esforço, do estudo e do aprimoramento pessoal acessível a qualquer ser humano que possa ser adequadamente treinado.
Se ele sabia como curar doenças sem remédios, se sabia como curar leprosos sem remédios, se sabia como trazer de volta a lucidez doentes psiquiátricos considerados possuídos por demônios, não deu a qualquer de seus seguidores um programa de treinamento detalhado, pelo menos que eu saiba, capaz de ser estudado e garantisse a repetição dos mesmos feitos que foram, comodamente, classificados como irreprodutíveis, milagres, e nada mais.
Qualquer conhecimento fantasticamente avançado para sua época ou mesmo aqueles que são demasiado complexos na nossa época parecem para pessoas intelectualmente mais simples verdadeiros milagres quando, na verdade, são o produto de um saber, de um conhecimento, provavelmente compreensível por mentes elaboradas, se compartilhado.
Ao contrário, guarda-se segredo, alega-se repetidas vezes que a finalidade do segredo é proteger este conhecimento de um uso inadequado. 
Ora para que serve um conhecimento inútil, escondido? Para nada. Se existe uma Lei de Karma, qual seria a retribuição para pessoas que, tendo em seu poder a capacidade de aliviar o sofrimento de muitos, não compartilham essas informações, seja pelo motivo que for?
Quem disse que impedir o acesso a essas técnicas as tornam mais protegidas?
Das opções possíveis duas me passam pela cabeça: ou estes conhecimentos não são assim tão importantes, ou se um dia existiram, ninguém mais os possui e foram perdidos nas areias do tempo e do espaço.
Minha sensação é de impaciência com a minha própria ignorância e com a ignorância que o segredo me obriga a aceitar como parte da minha vida esotérica.
Eu vejo o sofrimento todos os dias e me indago quem foi que disse, fora Nietzsche, que a dor pode de alguma forma ajudar as pessoas. Este é um mundo apático, onde a dor e o sofrimento são apenas isso: dor e sofrimento, nunca ensinamento.
Mesmo esoteristas continuam a morrer das mesmas doenças que os não iniciados, a ter os mesmos problemas profissionais e de relacionamento afetivo que eles, não demonstrando na maioria das vezes, em suas vidas pessoais, nada de especial em relação aqueles que não conhecem este mundo de iniciações, máscaras e toques secretos que eu frequento a tantas décadas, aonde conheci centenas de pessoas comuns e limitadas como eu.
Acredito que já viajamos muito no tempo e no espaço e que hoje, não só estamos prontos, mas acima de tudo, necessitamos testemunhar algo mais concreto que este mundo esotérico insiste em dizer que tem a oferecer, porém jamais nos mostra.
Nós só nos tornaremos a “raça gentil” de que fala a canção se algum dia o conhecimento refinado de que o esoterismo fala em seus textos estiver a nossa disposição.
Quando o sol bate no meu rosto, sonho com o dia em que tudo será revelado, não apenas para mim, mas para todos aqueles que necessitam de alento, cura e conforto.
Neste dia saberei que não desperdicei 40 anos da minha vida acreditando em coisas inexistentes ou em declarações fantasiosas.
Se o esoterismo não serve para ajudar a melhorar a qualidade da vida das pessoas, para que servirá então?
Para que?  
Essa é minha angústia mais profunda.