Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A EXISTÊNCIA, O TEMPO E O ACETATO.


Por Mario Sales, FRC,SI



Cena de “Sonhos” de Akira Kurosawa

Há vários assuntos e conceitos a discutir, alguns nascidos de reflexões durante o último encontro da Confraria In Vino Veritas, onde lá pelas tantas, o tema passou a ser as distintas compreensões da morte por espiritualistas e materialistas.
Outro tema significativo vem de uma conversa agorinha a pouco com Flavio e Wilson sobre a natureza do conhecimento comparado das várias linhas de tradição místico esotérica, seja Zen Budista, Sufi, da Escola do Quarto Caminho de Gurdieff, ou do Cabala Judaico, Cristão ou Esotérico, na qual eu expunha minha posição que as correntes com certeza tem uma origem comum dado o ditado árabe que lembra que “enquanto só vires as diferenças teu conhecimento não valerá uma rúpia; a verdadeira sabedoria só vem quando começamos a ver as semelhanças”.
A pergunta é se ver essas semelhanças traz alguma vantagem esotérica prática, além desta percepção de uma unidade subjacente a todos estes caminhos. A meu ver, não traz, e pode se tornar uma espécie de vórtice que engole pessoas sinceras em sua busca, mas desviadas de seus objetivos mais profundos pela falsa luz do intelecto. Erudição e Sabedoria são condições absolutamente distintas e, em certos contextos, antagônicas. Eliphas Levi, com sua indiscutível erudição, criou uma legião de seguidores fascinados pelo volume de informações que seus livros traziam, principalmente Dogma e Ritual da Alta Magia de 1854 e O Grande Arcano, de 1868. Era talvez este o papel mais importante dos esoteristas do século XIX: preservar e consolidar as informações de séculos anteriores.




Eliphas Levi


E esse papel, Levi desempenhou com competência. Blavatsky continuaria esse esforço em 1888 com a publicação da Doutrina Secreta. “Ísis sem Véu” de 1877 tinha sido um primeiro ensaio, mas pela densidade de informações, a Doutrina Secreta tem um peso maior.
Mas estes trabalhos são, como disse, monumentos de erudição, não portas de Sabedoria.
Aliás, a erudição pela erudição impede a verdadeira sabedoria. O erudito, antes de erudito, deve ser alguém encharcado de humildade e prudência, de forma a não cair na armadilha de achar que ler e publicar muito o torna um mestre espiritual.
Mestria, por sinal, é algo secreto, silencioso. Um processo oculto em nosso coração, que testemunha nossa evolução e que, junto com a Consciência Guardiã, nos autoriza ou não a trocar de patamar e de nível espiritual.
A verdadeira escola é invisível, interior e individual, como Saint Martin com sagacidade percebeu.
Todos que encontramos em uma ou em muitas encarnações são nossos mestres, ou discípulos. Os papéis são e devem ser trocados, em um balé dinâmico, que comprova a lição e que todos somos parte de um só espírito, de uma só mente.
Mesmo irmãos mais avançados devem retornar e retornam a níveis já ultrapassados para resgatar outros espíritos e demonstrar certos conceitos e valores que vão auxiliar no desenvolvimento de todos e no deles mesmo.
Cada Mestre que demonstra misericórdia doando-se, ao mostrar-se em locais e regiões do espaço tempo menos evoluídos, aumenta sua luz pessoal e melhora seu próprio desenvolvimento.
Um mestre que não ensinasse o que sabe seria inútil. Todo seu esforço se perderia ao não ser compartilhado. E compartilhando-o, ele aumenta as chances de toda a humanidade e sua luz se expande junto com a luz de todos que beneficiou.
Fazer o bem não é virtude, mas uma necessidade evolucional. E quando falo bem não me restrinjo a noção de Bem em oposição a um determinado conceito de Mal, algo definido por compreensões culturais regionais ou por valores de uma época.
Falo do Bem transcendente, transvalorado como diria Nietzsche, já que todos, absolutamente todos os acontecimentos não são mais do que estratégias de mobilização dessas energias em evolução chamadas pelos rosacruzes personalidades alma, como o vento mobiliza o barco em meio ao oceano.
Nós não chamamos de Bem aos dissabores e vicissitudes da existência, e isto porque temos uma visão limitada do contexto no qual está inserida aquela ocorrência.
Muitas vezes anos depois do ocorrido compreenderemos o papel mobilizador que aquele evento teve em nossa vida e o quanto nos estimulou na jornada em direção a posições mais elaboradas de compreensão e percepção da realidade.
O Objetivo sempre será levar-nos a entender a experiência vital como uma experiência estética e não só moral ou psicológica apenas. E estética nos dois sentidos, tanto no sentido de receber estímulos, imagens cores, sons, sabores e as emoções decorrentes, como também um exercício de materialização da beleza, de conscientização da beleza da vida, como quando contemplamos um quadro que nos fascina, ou para ser fiel ao dinamismo da existência, um filme belo e profundo, como os que foram produzidos por Akira Kurosawa. Tanto para Yogues Indianos, como para Cabalistas Judeus, o que importa é entender que o que vemos do mundo é aquilo que podemos compreender do mundo e vivenciar em nós o maior de todos os mistérios: o que vemos com nossos olhos é o que nossos olhos criam a nossa volta.
Akira Kurosawa

Spencer Lewis tocou neste profundíssimo assunto em uma de suas monografias. O Olhar não é apenas um passivo recebedor de imagens, mas também um ativo projetador de compreensões. E, portanto, vemos e criamos ao mesmo tempo, ao interagir imageticamente com o que contemplamos.
Como em um filme qualquer de cinema.
A erudição, de que eu falava acima, é como saber de cor o nome de todas as locações do filme, os membros da equipe técnica, o nome do elenco, conhecer os problemas relacionados a sua execução, as questões financeiras da produção, o nome dos produtores e do diretor.
Nada disso é o filme, no entanto.
O filme é o produto final, a experiência estética, a obra em movimento.
O filme é movimento, ou melhor, é o que resulta da ilusão de movimento provocada pela aceleração de milhares de imagens imóveis, tornadas “vivas” pela aceleração de seu deslocamento, pelo movimento que lhes é acrescentado.
Vida, da mesma maneira, não é nada sem o movimento, que em nosso caso se chama Tempo, o Devir, a sequência dos instantes como descrita por Henry Bergson.
Sem o Tempo não há existência, apenas formas sem vida.
Sem a ilusão provocada pelo Tempo, ou seja, sem a Ilusão produzida por outra Ilusão, a existência como a concebemos seria impossível.



Para compreender isso, a natureza mais profunda da existência, não basta ir a cabine de projeção e segurar nas mãos o acetato em fita dentro daqueles enormes projetores, como se fazia antes das cópias digitais.
É preciso sentar na cadeira em frente a tela perceber que a realidade que sentimos na experiência que o filme nos traz, não importa sua natureza, terror, ficção, ação, violência, só existe por autorização e concordância de nossa parte, por cumplicidade nossa nessa magnífica e emocional experiência cinematográfica. Mestre é aquele que sabe que, antes de qualquer coisa, um filme é diversão e aprendizado como lembra Richard Bach em “Ilusões”, sua obra prima.
A Vida, da mesma maneira, ou é diversão ou aprendizado, e sempre é, ou deveria ser, lazer.
Só se assusta com o filme quem acredita na ilusão e nos truques cinematográficos. Outros apenas se divertirão; esses são os mestres. O próximo passo da evolução é fazer seus próprios filmes, materializar suas próprias histórias, construindo-as com a elegância e a habilidade de um artista, de um artesão.
Esta é a consequência da Sabedoria, a visão de conjunto: tornar-se um criador de Universos e de Mundos.
Bonito.

Quanto à morte e seus diferentes conceitos para espiritualistas e materialistas, isso aí já é assunto para outro ensaio.