Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 24 de fevereiro de 2019

PALAVRAS



Por Mario Sales








“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. (...)
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.”

“Gosto de Dizer”, Fernando Pessoa, pela boca do heterônimo Bernardo Soares, Livro do desassossego”

“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala!”

Trecho do poema “Língua”, de Caetano Veloso



Meus textos são reuniões sociais de palavras, das quais eu participo. 
Dialogo entre um canapé e uma bebida com objetos diretos e indiretos, com indiretas de sujeitos sem predicado.
Óbvio, eu estou lá por elas e não elas por mim.
As palavras, via de regra, tem uma vida própria, planos e intenções.
Não por outra vivem em bandos, andam juntas, de forma a estabelecer para elas e para quem as lê uma imagem e um sentido, embaixadoras como são das idéias que lhes precedem.
Nenhuma palavra, sozinha, pode fazer o que um grupo delas consegue. Nenhuma palavra que não esteja em relação com outras tem a mesma intensidade, a mesma presença de uma frase pronta e acabada.
Linha após linha, textos são construções com forma, densidade e personalidade, que causarão impacto em uma, duas, ou centenas de pessoas que os contemplem.
Naqueles textos poéticos, vemos um instantâneo de um coração, de um sentimento que flui na vida real e que parou por uma simples condescendência de sua parte, para mostrar-se e ser visto. Palavras são reflexo da vaidade das emoções que não suportam a condição de anonimato.
Toda emoção não expressa gera sofrimento, desconforto.
Textos, mesmo aqueles técnicos, são emoções coaguladas; embora objetivos e científicos, refletem a tensão de quem os fez, acuado pela necessidade de nexo e clareza, pela obrigação de fidedignidade a verdade dos fatos, às teorias vigentes, aos consensos da época.
Talvez aqueles textos que tentam parecer os mais frios possíveis sejam os mais fortemente passionais, já que a energia que levou a sua realização é a energia da descoberta, seja de um fato ou de um conceito, a satisfação de poder compartilhar uma conquista, uma descoberta, enfim uma realização que dará prestígio ao seu autor.
Ou não. Daí a tensão, mascarada por termos e expressões equilibradas, falsamente neutras e impessoais.
Nenhuma conquista do espírito humano é órfã.
Órfão é o fracasso, a derrota, o erro, não a vitória.
Esta, não só tem pais, mas também avós e bisavós.
As palavras também nunca estão órfãs.
Elas são filhas de alguma angústia, de algum conflito ou de um desejo não realizado fisicamente e que se sublima na palavra escrita.  
Quando a angústia se deita com o gênio uma obra prima é gerada. E sua presença no mundo marcará de forma indelével a vida de milhares de pessoas que terão o prazer de conhece-la.
Sim, prazer. Um texto bem escrito, uma idéia bem descrita, é sempre um deleite, como uma brisa fresca em um dia quente, um oásis no deserto de mediocridade do nosso cotidiano.
Os textos que produzimos, são lançados como flechas a distâncias que não conseguimos supor. E quando saem de nosso arco, rápidas, ganham vida própria, e evoluem, alimentadas pelas variadas interpretações e simbolismos que despertarão em diferentes seres humanos.
Os textos nascem como significação mas se desenvolvem e crescem nas conotações, nos diferentes efeitos que, desde que fecundo, possa causar, de acordo com os contextos, as reuniões de que eu falava, as quais possa vir a frequentar.
Como entidades vivas, palavras não subsistem sem outras palavras, sem complementos, sem conjunções, sem artigos que a acompanhem e que as definam.
Palavras sempre estão acompanhadas, a solidão lhes é tão nociva quanto a nós mesmos. Precisam umas das outras, se necessitam, se procuram. Sem inibição ou pudores.
Sem preconceitos, a não ser as regras da sintaxe.
Seu único compromisso é com a beleza e com a elegância.
Palavras são a matéria na qual elaboramos nossos sonhos e nossa imaginação.
Que o Eterno abençoe as letras, as palavras e os textos, nosso sustento no vazio da existência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário