domingo, 27 de janeiro de 2019

A AMIZADE


Por Mario Sales



O que significa amizade? O que faz duas pessoas procurarem a convivência uma da outra, de forma constante e prazerosa?
Das respostas filosóficas a essas questões, a mais famosa é a que está no livro VIII e IX da obra Ética a Nicômano, de Aristóteles, (384 AC a 322 AC) aproximadamente há 2040 anos atrás, mas que ainda permanece atual.
Nicômano era o filho de Aristóteles com a escrava Herpilia. Aristóteles comenta que não possuindo riquezas, deixaria como herança a seu filho um guia para a vida em sociedade e para a interação humana.
A felicidade, (eudaimonia, “o estado de ser habitado por um bom daemon,[demônio, do ponto de vista grego] um bom gênio) não se fundamentaria em satisfações físicas e sociais como honra, prazer e riquezas mas na virtude (areté), palavra que na cultura grega, tem um sentido diferente do significado cristão, representando a idéia de excelência de desempenho em alguma atividade.
Para auxiliar o filho a desenvolver esta areté (lê-se aretê), Aristóteles esmiúça vários aspectos das relações humanas, entre eles a amizade (philia), palavra que em grego tanto representa o afeto cordial como o amor entre duas pessoas.
Sempre atento aos aspectos práticos da Ética, Aristóteles classifica a amizade em três tipos: as amizades motivadas pelo prazer, pela utilidade, ou pela amizade em si mesma.
Nos dois primeiros tipos, existe uma intenção na associação com o outro, ou na busca da satisfação dos desejos, ou na utilidade que este relacionamento traz para nós na forma de benefícios pessoais.
No terceiro tipo, no entanto, que Aristóteles classifica como o mais importante, a amizade existe apenas por ela mesma, sem qualquer interesse de parte a parte. Ama-se o amigo por razões de afinidade espiritual e não por motivos sociais ou físicos. É um relacionamento baseado na admiração mútua, e isto é suficiente.
“A amizade segundo a virtude só pode se estabelecer entre os homens que são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos.”. Como estes (seres humanos) são raros, amizades assim também são raras.”[1]
Dizem que devemos ser gratos por nossas bênçãos. Uma das bênçãos pela qual devo agradecer é por desfrutar do privilégio de amizades virtuosas, as tais que são raras.
E embora as amizades assim não sejam baseadas em interesses pessoais, como disse, existe um benefício imediato deste tipo de associação, o compartilhar.
Fui membro da Ordem Maçônica por muito tempo. Lá observei que os costumes que estavam presentes na fundação da ordem, 1000 anos atrás, ainda permanecem vivos e ativos. O mais prosaico deles é o de dividir e compartilhar a mesma refeição, e o mesmo vinho.
Desde épocas imemoriais, a raça humana faz dos momentos a mesa um instante de consolidação dos relacionamentos e aprofundamento dos vínculos afetivos.
Provavelmente, em uma época em que a comida fosse escassa e difícil de conseguir, compartilhar alimento tornou-se a mais forte manifestação de uma vida social, onde as disputas e as competições são temporariamente suspensas e substituídas por um momento de carinho e saciedade mútua.
Se saciar nossa fome é bom, melhor seria saciar a fome em grupo. Com isso, ao mesmo tempo, combatemos a fome e a solidão.
Chamamos isto em filosofia de sensação de pertencimento. Pelo convívio em torno da refeição, consolidam-se os laços que fortalecem o grupo.
Assim foi com a Ordem Maçonica. Após um dia de estafante e perigoso trabalho, construindo catedrais góticas, no alto de andaimes precários, sujeitos aos perigos de acidentes mortais, os homens reuniam-se a noite para celebrar o fato de estarem vivos e dividir com seus companheiros de oficio esta alegria.



Ainda hoje é parte do ritual maçônico jurar proteger órfãos e viúvas. Os mesmos órfãos e viúvas resultantes dos acidentes citados.
A solidariedade se fortaleceu na divisão do ônus e do bônus envolvido na arriscada empreitada a que se dedicavam aqueles homens.


E então, à noite, vinha o banquete. Por muitos séculos, pelo menos cinco deles, não havia um ritual de iniciação à Ordem Maçônica, mas sim um banquete de recepção ao novo companheiro.
Comendo juntos, tornavam-se um só grupo, fortalecidos por pertencer a algo maior do que eles mesmo, o tal senso de pertencimento.
Compartilhar, assim, era também a forma de expandir nossos horizontes e possibilidades para além de nossas próprias limitações físicas e intelectuais.
Pelo dividir de alegrias e decepções, diminuía-se o fardo da existência e ampliava-se a capacidade de comemorar o que era gratificante. Muitas pessoas unidas pela mesma “philia”, garantiam que o conhecimento fosse uniformemente repartido entre todos os membros do grupo. A difusão da informação tornava mais hábeis e preparados os que dela compartilhavam, melhorando cada um deles e o grupo inteiro, por extensão.
Assim, talvez o maior lucro da amizade virtuosa não seja tão abstrato, mas eminentemente prático além de fundamental ao desenvolvimento da sociedade: o compartilhar.
É verdade que a afinidade entre duas pessoas antecede o compartilhar de alimento e de informação, mas é nessas atividades que o encontro se fortalece, se solidifica.
Por isso conversamos com os amigos enquanto comemos. E com a ajuda do vinho, conversamos alegremente, sem os pudores necessários a relacionamentos mais superficiais.
A humanidade é um conjunto de homens e mulheres, e não um único e isolado indivíduo.
Precisamos, por inúmeras razões, uns dos outros, para a nossa autopreservação e para garantia de uma vida de qualidade e enriquecedora.
A solidão física jamais foi a base de um espírito refinado e elaborado. Em determinada época, alegou-se que era necessário passar algum tempo isolado para desenvolver a espiritualidade, a sensibilidade espiritual.
No entanto, uma vez tendo desenvolvido esta habilidade, estes seres iluminados não fogem do convívio, mas ao contrário, procuram as comunidades para trazer seu conhecimento e sua sabedoria, compartilhando com elas aquilo que possam ter alcançado.
A base, pois da amizade, principalmente da amizade virtuosa, mas também daquela baseada no prazer e na utilidade, é o compartilhamento, o dividir dos ônus e bônus de viver.
Esta talvez seja a essência de todos os relacionamentos realmente bons e justos.


[1] http://glauberataide.blogspot.com/2008/09/as-trs-espcies-de-amizade-em-aristteles.html?n=1

domingo, 20 de janeiro de 2019

PARA QUE SERVEM OS ESCRITORES


Por Mario Sales


"Senhor, a obra fica e o homem passa.
Mas a obra é o homem. Só estas canções
no fundo incerto e oceânico da raça..."

Fernando Pessoa, "Ao infante", poema de 1921 
in Poesia 1918-1930, 2007, Companhia das Letras 


Que objetivo temos para nossos próximos dez anos?
Quais são nossas expectativas de mudança e de transformação pessoal?
Não me refiro ao corpo. Este, caminha célere e resoluto para a decrepitude e depois de alguns anos, para a cessação definitiva de atividades.
Refiro-me ao nosso espírito imortal, a verdadeira razão de estarmos neste corpo.
Digo isso porque não percebo mudanças entusiasmantes em minha própria personalidade; não noto que as inseguranças da adolescência tenham todas se dissipado com o passar dos anos.
Olhando para mim mesmo vejo ainda transformações inexpressivas.
Ouço dos que estão fora de mim críticas positivas e negativas. Meus defeitos, confesso, são mais fáceis de constatar.
Quanto às qualidades, considerando as experiências que atravessei e o tempo que duraram, poderiam ter deixado em mim traços de sabedoria mais significativos na minha modesta opinião, um pouco mais de serenidade em minha personalidade que, com sinceridade não percebo.
Só o tédio e a fadiga me fizeram errar menos, não a consciência. Ainda me vejo tomado de desejos e insatisfações que possuía na juventude.
É bem verdade que algumas coisas, poucas, se modificaram, mas reputo como irrisórias estas mudanças, mesmo que significativas.
Talvez a transformação mais importante tenha sido a diminuição do meu orgulho, diante das limitações que esta encarnação e suas peculiaridades determinaram. Minhas limitações intelectuais e físicas me fizeram muito mais humilde, menos vaidoso.
Isso, em si, já foi um progresso.
Repito: mudanças ocorreram, mas não sou capaz de classifica-las como importantes.
O que é uma pena porque, se o tempo é como diz Mario Quintana (pisca-se os olhos e passaram 50 anos) mesmo assim tive tempo suficiente para me aprimorar mais, espiritualmente ou em alguma habilidade que me trouxesse gratificação.
No fim das contas, por óbvia e evidente, esqueci de uma capacidade que se aperfeiçoou, sim, ao longo destas décadas. Falo da própria capacidade de escrever, com mais leveza, clareza, conforto.
Lembro alguns anos atrás a luta com os textos, o conflito de imagens e conceitos. Hoje, meu texto flui mais fácil, já que não procuro mais descrever objetos demasiado metafísicos e acho que, por isso mesmo, minha escrita é mais fácil e gratificante.
O ensinamento de tantos grandes escritores, entre eles o saudoso Jorge Amado, de que para ser universal, devemos escrever sobre nosso próprio quintal, foi, por mim, finalmente absorvido.
Hoje sei que falar dessa sala em que estou, do jeito como a luz do sol entra pela janela, dos objetos diante de mim, os papéis, o ventilador e seu som monótono, característico, tocam mais a alma e a imaginação de quem lê do que se eu discutisse o sexo dos anjos. Talvez por isso, textos de caráter naturalista, eróticos e violentos prendam tanto a atenção dos leitores e sejam sucessos de vendas.
Reflexões sobre coisas sutis não são nem podem ser consideradas apaixonantes.
A sensibilidade humana é, de certa forma, rude e primitiva, e responde mais intensamente a imagens mais concretas e mundanas. A descrição de seduções românticas e lutas corporais são absorvidas com rapidez e facilidade.
Isso, de modo geral.
É bem verdade que existem alguns sucessos literários que falam da busca pela perfeição espiritual ou pelo menos, por um equilíbrio psicológico mais sólido.
Nesse quesito podemos incluir a trilogia de Herman Hesse (Sidarta, Demian e o Lobo da Estepe); os livros de Kalil Gibran, principalmente “O Profeta”; e mais recentemente os dois primeiros livros de Richard Bach, duas indiscutíveis obras primas, “Fernão Capelo Gaivota” e “Ilusões”.
Recentemente, um brasileiro entrou no grupo de livros de caráter mais reflexivo muito bem-sucedidos comercialmente, um trabalho criticado mais por inveja e despeito do que por ter reais defeitos. É a história simples de um buscador no ambiente do deserto do oriente médio, que sai a procura de um tesouro, metáfora para sabedoria, passando por várias situações e locais.
O autor, pasmem, foi acusado de ter feito um texto demasiado simples, e alguns mesmo, mais agressivos, chegaram a falar de “literatura medíocre”.
Só que este livrinho despretensioso foi traduzido para dezenas de línguas e vendeu milhões de cópias.
Claro, refiro-me, já devem ter percebido, ao livro de Paulo Coelho, “O Alquimista”.
Escrito em 1988, tornou-se o livro brasileiro mais traduzido do mundo, com 70 traduções, vendendo em torno de 150 milhões de cópias.
Pelo Livro Guiness de Recordes, é o livro mais vendido da história por um autor ainda vivo.
O texto narra a saga de Santiago, um pastor que tem um sonhe recorrente, o que o leva a procurar uma vidente.
Esta interpreta o sonho como uma profecia de um tesouro no Egito, que deverá ser descoberto por ele, por causa do qual ele deverá realizar uma longa viagem de busca.
Santiago parte, e logo no inicio de sua jornada encontra outro personagem, com o sugestivo nome de Melquisedeque, que o introduz ao conceito de “Lenda Pessoal” expressão que representa a descoberta daquilo que sempre quisemos realizar e que é na verdade a realização de nosso verdadeiro objetivo na vida.
Santiago vai agora, não só em busca do “tesouro” profetizado pela vidente, mas também de sua própria “Lenda”, marcado pela afirmação de Melquisedeque de que “quando você quer algo, todo o Universo conspira para ajudá-lo a alcançar seu objetivo”.
Com este enredo simples, Paulo Coelho produziu um magnífico sucesso literário, lido por donas de casa e presidentes (é famosa a foto de Bill Clinton, com seu livro nas mãos ao descer do avião presidencial), e tornou-se ele mesmo seu próprio personagem, já que, a partir da publicação do “Alquimista”, ele Paulo achou a sua própria Lenda Pessoal e viu todos os seus sonhos mais banais se realizarem. Ou melhor, o que ele descreveu no texto, na sua imaginação, tornou-se sua própria realidade o que configura, apenas isso, um feito impressionante.
Existem outros sucessos literários que não recorrem ao tripé sexo-violência-morte, e que focam nas modificações íntimas psicológicas que todo ser humano deve atravessar.
Destaco a obra de J.K.Rollings, Hary Potter, que narra, de modo extremamente feliz, através das peripécias de três bons amigos, a aventura da adolescência, esse período mágico em que nos tornamos indivíduos.
Não é apenas o corpo, portanto, que incendeia nossa imaginação. Existem outras abordagens possíveis, bem-sucedidas, o que nos mostra que o narrador é mais importante do que a narrativa em si.
É quem conta a história que torna a história mais atraente e interessante.
Em função disto, concluo que eu mesmo não encontrei ainda minha Lenda Pessoal, e talvez seja isso que tem me incomodado, nos últimos anos.
Aliás, como lembrava Maquiavel, fenômenos literários como os descritos são uma combinação de “virtú e fortuna”, habilidade profissional, técnica, e sorte.
Até o fenômeno de Paulo Coelho costumava-se dizer que Machado de Assis não tinha sido reconhecido mundialmente porque não escrevia em inglês. Esse argumento, embora tenha lá sua pertinência, não se sustenta mais.
Talvez, isso sim, o que falte aos escritores brasileiros e de qualquer outro país, sejam temas realmente universais, que falem de problemas atávicos da humanidade. Realização pessoal é o mais importante deles.
Nada é mais universal e comum a todas as pessoas do planeta, estejam aonde estiverem, do que primeiro descobrir qual é seu verdadeiro talento, seja ele qual for, e depois levá-lo a um alto grau de excelência.
Textos que discutam, de modo simbólico, este importante drama humano sempre atrairão as mentes de todas as pessoas que vivem e respiram, que dia após dia, às vezes, arrastam-se da manhã até a noite, em funções profissionais para elas não gratificantes.
Não há maior tortura e sofrimento.
Todos nós, sem exceção, temos um papel relevante a desempenhar no teatro da vida.
Descobrir que papel é esse e expressá-lo com plenitude é nossa principal missão na existência.
E é dentro de nós mesmos que se escondem as chaves para estas descobertas, essas respostas a verdadeiras questões fundamentais, que são quem somos realmente e o que viemos fazer aqui.
A satisfação de se fazer o que se gosta é enorme, e aí, chego à uma conclusão evidente: escrever é a minha vida. Escrever, escrever e escrever.
Não sinto que sou importante em mais nada, mesmo redigindo ensaios inexpressivos ou demasiadamente pessoais. É nesse exercício diário que minha vida ganha sentido.
Procurar a palavra correta, juntá-la à outras, dar uma correta descrição dos meus sentimentos mais particulares é a minha verdadeira alquimia.
Ao escrever produzo mais um pedaço de minha pedra filosofal, meu Elixir, que me cura do cansaço e me diverte. Além disso, escrevendo, sirvo a sociedade, já que cabe ao escritor explicitar emoções e impressões subjetivas, o que auxilia a quem lê organizar suas próprias emoções.
Esclarecer o mais íntimo e oculto, esse é o papel de todo escritor, seja na prosa ou na poesia.
É exatamente para isso que servem os escritores.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

AINDA SOBRE O LIVRE ARBÍTRIO


Por Mario Sales





“...porque os costumes são tão coercitivos quanto as leis...”

Roberto da Mata, antropólogo,
na sua coluna do
Estado de São Paulo,
16 de janeiro de 2019


Eu tenho dificuldade de convencer as pessoas de que não existe tal coisa como o chamado “livre-arbítrio”.
Embora seja um conceito teórico proposto pela primeira vez por Santo Agostinho em um livro do mesmo nome, a idéia está tão entranhada na formação humana que para alguns é como a lei da gravidade. Na verdade, parte de seu sucesso ao longo dos séculos vem do fato de ser um axioma agradável ao narcisismo humano, que precisava afirmar-se diante de outras forças, divinas e metafísicas, que por muito tempo trouxe dúvidas e receios aos homens comuns. Por isso uma tese que propõe que temos a capacidade de decidir, livres de qualquer influência, nosso destino, foi aceita de imediato e elevada à condição de lei.
De tal forma que hoje, para muitos, é difícil e às vezes impossível aceitar que em nossos arbítrios, nossas escolhas, não existe e nunca existiu qualquer tipo de liberdade. Nesse mesmo espaço já falei dos três filtros das ações humanas, as três forças determinantes do nosso comportamento, porém não custa repetir.
Primeiro: em uma fase mais primitiva da humanidade, os instintos determinavam nossas ações. Guiados pelo primeiro deles, a autopreservação, os homens individualmente, e depois nas maltas, os primeiros grupos humanos que se reuniam apenas para caçar, centravam sua existência em cinco condições primárias, contra as quais não podiam se rebelar já que delas dependia suas próprias vidas. Eram os cinco As que até hoje carregamos conosco: ar, água, alimento, abrigo, afeto (inicialmente como desejo sexual).
Não importa em que região do planeta estivessem, seus atos eram guiados por estes parâmetros irrecusáveis, ditatoriais. Quantos conflitos ou mesmo batalhas foram travadas apenas para conseguir realizar estes cinco comandos biológicos.
Depois, muito depois, a estes instintos que até hoje comandam nosso comportamento, veio somar-se a lei, um conjunto de regras de comportamentos e costumes que organizava a vida na sociedade.
A lei substituiu a vontade individual e o conflito entre as partes passou a ser limitado por ela.
Quem julga, limita a ação dos que estão em julgamento, como no célebre caso de Salomão, descrito no livro de Reis 1, no capítulo 3, versículos 16 a 28, aonde ele julga a disputa de duas mulheres por um bebê que ambas alegavam ser seu filho legitimo. Salomão, como se sabe, sugere para resolver a questão, dividir com uma espada a criança em duas partes e dar metade dele a cada uma.
Uma delas aceitou. A outra absolutamente não concordou e para salvar a vida da criança, abdicou de sua reinvindicação. Assim Salomão descobriu que esta era a verdadeira mãe e a ela deu a criança.
A lei funcionou, estabeleceu justiça na solução do conflito e limitou a ação da impostora, tirando-lhe a liberdade de enganar. Até hoje é isso que a lei faz, criando regras que limitam as ações de homens e mulheres na sociedade.
Não há liberdade para matar outro homem impunemente ou para um homem forçar uma mulher a relacionar-se sexualmente contra a sua vontade, como nos tempos das cavernas. Não há liberdade nem para atravessar um cruzamento sem respeitar o internacional sinal vermelho.
E então,  estas duas restrições e determinantes do comportamento humano vem se juntar uma terceira e decisiva força, a consciência, a formação educacional ética, que nos obriga a seguir um código de conduta, a fazer somente aquilo que nossos valores morais permitam, valores estes que determinarão nossas escolhas, nossas opções diante de dois caminhos. Usa-se mesmo a expressão “fazer o certo e não o fácil” para evidenciar que este código de conduta pessoal dirige nossas ações, mesmo considerando o alerta de Nietzsche quanto a relatividade dos valores morais, que mudam de época para época, de país para país, mas que determinam nossa atitude sempre que há um conflito entre nossos interesses pessoais e os interesses de outros ou da sociedade.
Não bastassem esses poderosos inibidores da chamada liberdade do homem ao fazer suas escolhas, esses fatores às vezes competem entre eles mesmos.
A consciência moral impede que as todas as vontades do instinto sejam satisfeitas sem controle, restrição fundamental a vida em comunidade.
E a Lei às vezes vai contra nossa consciência como no caso da escravidão aceita pela lei e combatida por alguns que viam o absurdo dessa prática, mesmo em uma época em que era uma prática social comum.
Ser legal não significa ser correto, da mesma maneira que por vezes a atitude mais correta não é uma atitude legal.
E mesmo o instinto de busca de afeto, que garante a sobrevivência de nossa espécie e seu crescimento pela reprodução, mesmo este desejo legítimo do corpo precisa ser reprimido de acordo com o contexto social mais adequado.
Podemos desejar e desejamos pessoas com as quais jamais consumaremos qualquer relacionamento, porque as coisas não se resumem mais a um ato de violência sobre outro ser humano contra a sua vontade para satisfazermos nossos próprios desejos.
O instinto insiste em um desejo que a cabeça negocia e julga se é viável ou não. E como o desejo é instintivo, não desejamos quem queremos desejar, mas sim aqueles que somos levados a desejar por características as mais variadas que incluem o cheiro, o tom de voz, o modo de caminhar, e claro, sua beleza física.
Nem nosso desejo sexual é livre pois obedece ao corpo e não a mente.
Hoje em dia, isto não quer dizer que este desejo será satisfeito e muitas vezes será relegado a área da imaginação, à fantasia, que dará vida na mente àquilo que não pode ser vivenciado no corpo. Assim nascem os problemas, segundo a psicanálise.
Fantasias não realizadas transformam-se em sonhos para alguns e pesadelos para outros, fantasmas que nos assombram dia e noite, em momentos de ócio mental.
A fantasia, esta sim é livre.
E mais uma vez não temos como evita-la.
Ela invade nossa mente em pedir permissão, sem pedir licença, e nos traz, via de regra, imagens não compartilháveis, secretas, pessoais, seja para nosso deleite ou sofrimento.
Contemplemos essa disputa das forças que nos determinam com humildade e compreensão.
Fazemos o que queremos quando podemos e não quando queremos. Não temos nenhuma liberdade para escolher aquilo que realmente desejamos.
Essa sim é a verdadeira lei das escolhas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

DAS PERCEPÇÕES


por Mario Sales



Daqui a pouco irei para casa. O expediente aqui no posto se encerrará em 20 minutos.
Parado na porta, observo a rua à minha frente.
O casario, lado a lado, à perder de vista, à direita e à esquerda.
Casas sem acabamento, dois, às vezes três andares, construídos, percebe-se, sem nenhum rigor arquitetônico.
Apenas tijolos, um ao lado do outro, um em cima do outro, sem reboco.
Uma construção assim, tosca, mal-acabada, intensifica a sensação de materialidade das coisas, de solidez, de densidade.
Aqui parado, sem ter mais o que fazer senão esperar a hora de ir embora, contemplo esta solidez e reflito sobre meus ensinamentos de iniciado.
Somos doutrinados desde os graus mais iniciais, a não acreditar nesta aparente concretude.
O iniciado não pode crer, dizem nossos orientadores, nossos autores, no que enxerga a sua frente. A realidade, eles dizem, é plástica e tanto a mente se adapta ao que vê, como o que é visto se adapta ao observador.
Todas, absolutamente todas as escolas esotéricas afirmam esta instabilidade oculta naquilo que nos parece mais denso, mais estável: a realidade a nossa frente.
É difícil entender, ou melhor aceitar, que essas construções toscas, mal-acabadas, mas de aspecto por isso mesmo extremamente sólidos, sejam apenas projeções tridimensionais de nossa mente, e que além disso esta mesma mente participe destas projeções, fornecendo aspectos ao que vemos e não apenas vendo o que é visto.
Captamos e irradiamos, dizem os esoteristas, ao mesmo tempo, o que nos cerca, até nosso próprio corpo. É como se fossemos construindo com nosso olhar, no momento mesmo que olhamos, aquilo que contemplamos.
Algo difícil de aceitar. Muito difícil. Principalmente por que o iniciado é apenas um iniciado, não um iluminado, e o fato de saber que as coisas são assim não significa que ele consiga experienciar esta instabilidade perceptiva. 
Não. 
Para mim estas casas, essa rua, tudo que vejo a minha frente parece sim, extremamente sólido. 
O iniciado é apenas uma pessoa comum com crenças no mínimo exóticas acerca das coisas e do real. A diferença é que aquilo que ele crê, para ele, é um fato a ser percebido desde que sua mente se modifique, desde que sua percepção se aperfeiçoe. Neste momento, deixarão de ser crenças e passarão a ser fatos. O mundo inteiro a sua volta será apenas aquilo que sua imaginação decidir.
Eu não sou um iluminado, só um iniciado. 
Olho para as casas e digo para mim mesmo: “Estas casas não são sólidas, apenas parecem sólidas.”, mas isto não é suficiente para que o que está a minha frente se modifique, se metamorfoseie em outras paisagens, em realidades absolutamente diferentes, novas. 
Vejo a minha frente coisas que me parecem sólidas, embora saiba que não são.
Não falo estas coisas em voz alta. São assuntos delicados, que não podem ser discutidos com qualquer pessoa, em qualquer lugar. Assuntos de iniciados. 
Para que a magia da transformação se realize, entretanto, mais do que uma crença é necessária. Precisa-se de uma alteração neurológica, e de preparo psiquiátrico para lidar com realidades incomumente instáveis, em ebulição permanente.



E mesmo sussurrando da nossa boca para nosso ouvido, ainda resta a dúvida. Os fatos realmente parecem desmentir tudo que o ensinamento iniciático nos diz.
“Bata a cabeça em uma dessas paredes e sua cabeça sangrará!” diz o cético.
Fato. Quem pode desmenti-lo?
Porque cremos, nós iniciados nestas afirmações estranhas, esdrúxulas, que a realidade como percebida, desmente?
Eu mesmo não sei. Só me lembro de um argumento de Rousseau, que dizia que embora eu não tivesse provas de alguma coisa, se todo o seu ser gritasse que esta coisa era real, deveríamos prestar atenção a este grito.
Ah o Humanismo, esse hábito de pensar que o subjetivo prova o objetivo. Essa postura não se sustenta. 
Os fatos são os fatos, dizem de maneira coerente os homens que não estão doentes da metafisica, como lembrava o poeta português.[1]
Mas o que faz um iniciado? Olha para as coisas com um olhar educado para duvidar da aparente solidez de tudo. Embora todos os argumentos sejam contra esta compreensão, algo dentro dele grita que são apenas aparências, imagens, nada mais.
Ele, iniciado, não tem provas do que sente, mas sente. 
Como uma cólica de rim, que é real, perceptível, mas não demonstrável.
Aceita-se que eu tenho dor por que se crê na minha máscara facial de dor. Ninguém sente a dor que sinto.
É algo pessoal e intransferível. A dor é nossa e de mais ninguém.
Da mesma maneira a sensação de estranheza ao aparentemente estável, ao aparentemente sólido, é uma sensação pessoal, improvável a terceiros, mas não importa. 
Como a cólica renal, não posso simplesmente negar-me a sentir o que sinto. Minha dor e minhas crenças são impossíveis de desprezar, elas me mobilizam, impõem suas presenças. Embora eu as esconda, elas estão lá.
E então como Magritte, olho para o Ovo e vejo o Pássaro.



Mas se a realidade é a realidade de cada um, se ela é como dizem os esoteristas tão plástica, porque todos temos uma impressão de ambiente comum? Por que vemos, ao mesmo tempo, pelo menos aparentemente, a mesma realidade?
Talvez o que vejamos não seja uma realidade, mas a resultante de várias realidades, a síntese possível de várias maneiras de imaginar o mundo.
Como os aros de uma bicicleta que convergem todos para o centro da roda e são cada um, de uma posição diferente.
Todos vemos um único centro de roda, mas a roda não é apenas seu centro. Na verdade, na roda, aros, centro e o círculo que sustentam são uma única experiência, um único instrumento, cujas peculiaridades e particularidades desaparecem com o rodar da roda.
A roda não é homogênea. Muitas são suas partes e divisões. 
Apenas o movimento, o seu fluir no tempo, lhe dá um aspecto de unicidade. É, da mesma forma, o nosso tempo que nos une e nos dá a sensação abstrata do mesmo.
O tempo nos une. E impregna nossa percepção. 
Pensamos em passado e futuro, mas só existe o presente eterno.
Sempre é presente, e mesmo o passado é vivenciado no presente. É o passado possível no presente que temos.
Vemos, da mesma forma, o que podemos ver. 
Vemos o que é possível ver, dentro de nossas capacidades de percepção.
Não existe um mundo lá fora. Existe aquilo que podemos enxergar.
Se vemos tristeza e conflitos, eles estão lá.
Se vemos serenidade, calma, elas estão lá.
Uma percepção não é menos “real” que a outra.
São vivências intimas. Nossas percepções são reflexos de nossas concepções. Nada mais.
A estabilidade é uma falácia.
Nada é o que parece e essas casas a minha frente também não são.
Este bairro é apenas uma imagem, uma concepção, que desaparecerá da minha frente quando sair de dentro da minha mente. Não sou o que vejo; vejo aquilo que sou, aquilo que creio.
Nada disso posso demonstrar, como não posso demonstrar uma cólica renal. As pessoas crêem nas minhas informações sobre a minha dor porque tudo indica que estou sendo absolutamente honesto, e meu sofrimento é indiscutível.
Sinto o mesmo em relação a esta estranha forma de descrever o “real”. É uma sensação extremamente forte e real, mas sou incapaz de fazer com que outro sinta o que eu sinto, que creia no que creio.
É uma experiência intransferível. Como a dor.
As casas deste bairro para mim parecem sólidas. O bairro todo parece bem sólido. E tudo em mim diz que não é.
Só uma de muitas ilusões que nos acompanham ao longo de muitas encarnações.
Afinal o que é “real”?




[1] “Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que ideia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre Deus e a alma E sobre a criação do mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas)” Fonte: https://www.mundovestibular.com.br/articles/617/2/POEMAS-COMPLETOS---Alberto-Caeiro-Heteronimo-de-Fernando-Pessoa-Resumo/Paacutegina2.html

domingo, 13 de janeiro de 2019

ELOGIO DA COVARDIA


Por Mario Sales


A coragem é cantada em prosa e verso como uma virtude fundamental. No entanto, se pensarmos essencialmente na sobrevivência do indivíduo, ser corajoso atrai muito mais riscos e perigos.
Esconder-se, esgueirar-se, manter-se discreto e, se possível, invisível, sempre foi uma estratégia mais útil para manter-se incólume em meio a tantas ameaças à nossa integridade.
Sem uma saudável consciência dos perigos que nos cercam, portanto sem o medo, temos muito mais possibilidades de caminhar para nossa própria destruição.
A covardia, portanto, nos protege.
Isto não significa que a covardia seja melhor que a coragem. Trata-se apenas de uma estratégia alternativa que deve sim ser considerada dependendo do contexto.
Usar um ou outra maneira para enfrentar os perigos, provavelmente, não é opcional. Trata-se de um traço de comportamento, na minha opinião, mais biológico que cultural.
Como este ensaio é sobre a Covardia, e como ao longo dos séculos esta forma de comportamento tem recebido críticas e ataques, resta-me, para fazer a diferença, elogiar as virtudes de ser covarde.
Primeiro: como é óbvio, o covarde é um mestre da Dissimulação. Ou por estar desiludido consigo, ou por ser realista acerca de suas reais capacidades e habilidades pessoais, o covarde sempre evitará o combate, a disputa, o confronto. Tudo que aprendeu ao longo de uma vida inteira foi ocultar, da melhor maneira possível, seus inegáveis e indubitáveis defeitos.
E aí surge o primeiro equívoco positivo que a covardia verdadeira provoca. Todo covarde, por ser covarde, é um pacifista nato, já que em função de seu medo permanente pensará seis vezes antes de reagir a uma agressão. Paralisado pelo terror, poderia ser facilmente confundido, enganosamente, como alguém acima de reações beligerantes, um ser superior, quando na verdade sua principal preocupação é a autopreservação.
Segundo: o covarde aparentará ser um indivíduo altamente racional, um ser que não cede aos impulsos ou aos desejos, da ganância, quando na verdade o que o impede de ceder é o medo das consequências de seus atos ou de um desempenho pífio. Sua autocrítica é extremamente severa e o imobiliza, impedindo gestos demasiadamente intensos.
Terceiro: ao contrário dos infelizes, existe uma certa serenidade na covardia. Os infelizes lamentam-se de sua condição. Covardes SABEM de suas limitações, que não tem qualidades das quais se orgulhar e parecem conformados com isto, desde muito cedo na vida.
Esta situação gera o segundo equívoco positivo na vida dos covardes. Por ser consciente de sua incapacidade, o covarde sempre parecerá humilde, quando na verdade, o seu comportamento reservado é uma forma de evitar que outros percebam os muitos defeitos que julga possuir.
Não se trata de alguém negativo. O covarde sabe que não é o único a ter defeitos; no entanto, por ser covarde, evitará a todo custo expor esses defeitos a outros, a não ser como uma técnica de sedução. Afinal, todo psicólogo sabe que uma aparência frágil induz em outras pessoas um instinto de proteção. O covarde usará sua aparente fragilidade para inspirar compaixão no seu objeto de desejo, que não for suficientemente sagaz será facilmente vitima desta antiga armadilha emocional.
A compaixão é o primeiro passo para a empatia, que gera ternura e depois afeto. Ser covarde não significa ser estúpido.
Todos nós participamos do jogo da vida com as cartas que recebemos, tentando usá-las da forma mais lucrativa possível. Alguns compensam sua pouca força física com a inteligência; outros compensam a falta de beleza com a eloquência ou o talento artístico. Existem mesmo aqueles que, para superar a maldade que têm dentro de si dedicam-se intensamente a atos generosos.
O covarde, por ser covarde, jamais o fará, não por uma virtude ética, mas pelo medo das consequências. Assim é com o covarde, pois até para ser realmente mal é preciso coragem. O mal é destrutivo, ativo, avassalador. O indivíduo realmente mal impõe seus desejos, tripudia sobre os outros, despreza os fracos e os limites da ética.
E para romper as barreiras morais, uma de duas coisas é necessária: supor-se acima do Bem e do Mal, ou ser um indivíduo sem escrúpulos de ultrapassar os limites do bom convívio social.
Um ser verdadeiramente superior abre as portas que parecem restringir a maioria; o indivíduo maldoso apenas derruba as mesmas portas a pontapés.
Já o covarde, exatamente por ser covarde, jamais teria atitudes intempestivas que revelassem seus verdadeiros sentimentos. Só um indivíduo maldoso corajoso o suficiente para isso manifesta publicamente sua maldade.
De qualquer forma, por não manifestar o mal que traz dentro de si, o covarde será erroneamente considerado um virtuoso, da mesma forma que atribuímos sabedoria a quem se mantém em silêncio, até que ao abrir sua boca percebamos sua enorme estupidez.
Por último, é preciso fazer uma distinção entre dois tipos de pessoas: os impulsivos e os corajosos. Na verdade, a impulsividade é resultado do descontrole dos instintos, com a perda parcial ou total do senso de autopreservação.
Como dissemos, o medo de ferir-se, de ser destruído, física ou moralmente, tem um caráter biológico saudável.
Ausência de medo não é igual, portanto, à coragem. Pode ser apenas um problema de natureza neurológica ou psiquiátrica.
Um indivíduo corajoso, ao contrário, tem plena consciência dos riscos envolvidos em suas opções de ação e, mesmo assim, tem a determinação de enfrentar esses riscos e superá-los, na busca de um objetivo.
Já o covarde, por ser covarde, jamais corre riscos, aparentando assim ser uma pessoa extremamente sensata, quando na verdade tem apenas medo do fracasso.
Não fazer o mal, portanto, não é o mesmo que ser bom. Pode ser apenas medo de revelar-se em toda a sua natureza animal e instintiva. Da mesma maneira não correr riscos pode parecer prudência e moderação, quando na verdade, às vezes é uma estratégia covarde por medo do sofrimento e da dor.

TEMPO, TEXTO E TERNURA






Por Mario Sales

“Sentados à soleira tomam sol
Velhos negociantes sem fregueses.
É um sol para eles: mitigado,
Sem pressa de queimar. O sol dos velhos.
Não entra mais ninguém na loja escura
Ou se entra não compra. É tudo caro
Ou as mercadorias se esqueceram
De mostrar-se. Os velhos negociantes
Já não querem vende-las? Uma aranha
Começa a tecelar sobre o relógio
De parede. E o sagrado pó nas prateleiras. (...)”

“Tempo ao Sol”, de Carlos Drummond de Andrade,
in Boitempo II, Ed Record,1986

Estou aqui sentado, tentando escrever e recuperar o tempo perdido no silêncio e na inação literária. Mas as idéias (ah! As idéias) não estão muito comovidas com meu esforço. Trata-se de um jogo.
Escondem-se de mim na floresta da mente, rindo, zombando da minha falta de assunto.
Ouço suas risadas por trás dos meus neurônios, mas não as vejo.
São idéias em fuga lúdica, divertindo-se em me ludibriar, por 10, 20 ou 60 minutos que sejam.
São impiedosas como crianças. Parecem mesmo ter prazer em ocultar-se, como em uma brincadeira infantil.
Súbito, um vislumbre: são idéias infantis, portanto, sem importância para reflexões adultas e profundas.
Já sei como ganhar este jogo. Basta jogar a toalha, desistir de caçá-las, largar a mão de tentar achar quem não quer ser encontrado.
Melhor esforço é ficar aqui, calmo, nesse domingo de sol e tranquilidade embora, às vezes, esse mesmo sol me lembre o sol da citação em epígrafe.
Não é a idade, no poema, que me incomoda, mas a falta de “fregueses”, a carência de interesse de outros no que temos para vender.
De repente percebi que, como com as idéias, ando perseguindo afetos e mendigando atenção de “fregueses” desinteressados.
Não sei de onde vem essa minha carência tão intensa que me faz ser gentil e solícito até com estranhos, talvez na esperança de receber algum gesto inesperado de carinho, um sorriso, um abraço.
Pensei que com a maturidade tivesse superado esta sequela da infância de precisar ver outras pessoas, encontros que sustentam meu humor, que me obrigam a dizer coisas espirituosas ou discutir tolices para provocar risadas; ou falar sobre assuntos sérios e profundos, essas conversas que ajudam a “matar o tempo” que se arrasta, e que a imagem da aranha que faz a teia no relógio, no poema de Drummond, descreve assustadoramente tão bem.
Meu tempo, às vezes, tem semelhanças com essa imagem.
A mesma rotina que me dá uma vida equilibrada, me aterroriza com alguns sinais do tédio, do vazio de intenções e desafios.
Como os velhos comerciantes do poema, nesses inquietantes momentos, quietos demais, ninguém entra ou mesmo quer entrar na loja do meu espírito; ninguém se interessa pela minha “mercadoria” especulativa.
Nesses momentos sou desnecessário, inútil, obsoleto.
Aqueles que “compram” alguma coisa, compram aquilo que gostam quando vêem.
Nos dias de calma excessiva, com o tédio a espreita, cresce meu receio de não ter atrativos para os que me cercam, de não ter mais nada interessante para vender, para oferecer àqueles que me procuram ou que encontro pela vida.
Se estas sensações são ilusórias ou não, nestes momentos, não discuto. Não importa se essas percepções correspondem ou não à realidade.
Procuro apenas descrever essas inoportunas sensações que chegam sem convite à minha mente, e como essas visitas indesejadas, invasivas, me atormentam com comportamentos piegas e pensamentos tristonhos.
Alguém talvez classificasse essas considerações como ridículas, o que me lembra um outro poeta, Fernando Pessoa, que decretava que “todas as cartas de amor são ridículas”. Porque não são apenas as cartas de amor, mas também nós que as escrevemos somos ridículos.
A começar por esses chistes, esses atos falhos que escapam de nosso inconsciente como pensamentos incômodos e lamurientos.
São como malas que esquecemos nos armários e que reencontramos cheias de mofo pelo desuso, mas estão lá, ocultas por outras coisas. São idéias e emoções que denunciam nossa fragilidade psicológica e afetiva sempre de um modo perturbador. E mesmo assim, tais idéias insistem em desfilar pela mente nos momentos mais tranquilos, nos quais nos permitimos uma sinceridade maior em nossas reflexões, uma honestidade incomum no nosso cotidiano.
Nesses instantes percebemos que por trás das personas, por trás das máscaras, como as do teatro grego, os atores são apenas crianças assustadas com o medo do abandono, físico ou psicológico.
Talvez a idade nos remeta à infância por ser uma época de fragilidade semelhante, onde a necessidade da ajuda de terceiros volta a se manifestar. Bebês e velhos precisam ambos do mesmo tipo de carinho, do mesmo tipo de atenção, às vezes do mesmo cuidado físico.
E isso nos expõe, nos desarma.
Nossas antigas fragilidades retornam como fantasmas nos assombrando como a aranha sobre o relógio, lembrando que até o tempo está velho e que a teia do tédio começa a envolver nosso tempo, nossas horas.
É verdade que todas essas reflexões adultas e profundas podem não passar de meras tolices e delírios de um domingo quieto. Mesmo assim são as minhas tolices, moram em mim, e por mais que eu as esconda com discursos racionais e um comportamento social adequado estão lá, à espreita, junto com a nossa ridícula condição humana.
Se são idéias ridículas são exatamente o que deveriam ser, já que os sentimentos mais profundos em nós são sempre ridículos.
No fundo, bem no fundo, ainda precisamos como crianças, do prazer de quaisquer gestos de ternura, que salte por cima das defesas do Ego e nos atinja a face em cheio.
Um beijo, um alisar de cabelos, um olhar mais amoroso. Todas essas coisas quando percebidas no outro, nos enche de bem estar, relembrando a época em que coisas assim eram grande parte de nossos dias.
A verdadeira solidão não é estar só, mas a ausência de carinho, não só com palavras, mas principalmente com gestos.
Se todas essas linhas são apenas desvarios ridículos de domingo não importa. Pelo menos agora são um texto. O invisível tornou-se visível.
O interessante é que a fuga das idéias foi inspiradora.
O resto não tem nenhuma importância.

sábado, 5 de janeiro de 2019

O AVANÇO DO OBSCURANTISMO.


 Por Mario Sales


Gosto muito do estilo das crônicas de Inácio de Loyola Brandão no Estado de São Paulo, pela simplicidade e tranquilidade com que descreve coisas, épocas e pessoas. Como sempre digo, o bom escritor é um bom descritor. Embora não tenhamos um passado semelhante, reconheço em suas recordações algumas imagens comuns. Hoje, no seu texto semanal, ele fala dos mitos que nos cercaram na infância. 
“Ler e comer ao mesmo tempo faz mal”, dizia sua mãe.
E a minha também.
Ele compara esse mito àquele do perigo de envenenamento se misturássemos leite com manga, também uma memória comum, tanto aqui em São Paulo como era no Rio de Janeiro.
Loyola argumenta com perspicácia que, pior que comer e ler ao mesmo tempo, deve ser comer e digitar mensagens no iPhone e não há, que se saiba, relatos de mortes frequentes por causa dessa prática amplamente difundida.
Mitos são assim. Às vezes desaparecem com a mesma rapidez com que surgiram. Se não fossem os guardiões da memória, os narradores-escritores, nem saberíamos que um dia tivessem existido.
O problema, entretanto, não está no mito, mas na sua natureza.
O mito do mal que faz ler e comer, em si não expressa nenhuma restrição que não possa ser quebrada ou um perigo para quem nele crê ou não crê.
O que assusta é quando uma parcela da sociedade e não uma parcela carente, mas com uma vida material confortável, que teoricamente têm acesso a informação de qualidade, começa a difundir mitos como aquele que diz que a Terra é plana ou que vacinas são perigosos para crianças.
Isso me assusta.
Pode-se rir da ideia da Terra plana a esta altura da história da ciência e da civilização, mas não se pode rir do fato de que alguém esteja disposto a aceitar tal disparate como verdadeiro. Carl Sagan alertava desta bomba relógio que estávamos montando, aquela que combina tecnologia avançada com ignorância e preconceito. 
E isso porque o ser humano hodierno não entende o que a ciência faz. Só que o fato de a maioria das pessoas serem incapazes de acompanhar o que a ciência faz é culpa da própria comunidade científica, que jamais fez um esforço como o de Sagan, para traduzir os feitos científicos em linguagem compreensível para a sociedade leiga, nem preocupou-se em explicar para os não iniciados o que estava estudando.
Como narciso e sua imagem no espelho, cientistas em geral falam de ciência para outros cientistas e não para as pessoas que, em última análise, são as mesmas cujas vidas serão modificadas de modo dramático por este trabalho científico e pelos avanços tecnológicos.
Sem esse esforço fundamental de alfabetização em ciência que Sagan iniciou com a série para a televisão “Cosmos” (trabalho que hoje é continuado pelo diretor do museu de história natural americano, o físico Neil Degrasse Tyson , nos EUA, e aqui no Brasil por outro físico, Marcelo Gleiser) não teremos como evitar que ideias descabidas e fantasiosas além de perigosas, ganhem força.
Todo terreno abandonado está sujeito a invasão.
Mentes vazias de informações confiáveis tendem a ser ocupadas com informações não fundamentadas, às vezes completamente absurdas como essa história do leite com manga, ao mesmo tempo que rejeitam fatos consolidados, comprovados.
Por exemplo, repassei em minha linha do tempo do Facebook recentemente uma informação antiga, de 20.11.17, sobre o interessante trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, no qual foi elaborada uma substância cuja molécula é capaz de se ligar com a molécula da cocaína, tornando-a identificável pelo sistema imunológico do indivíduo. Uma vacina contra o vício.
Não costumo repassar notícias descabidas, mas mesmo assim uma amiga, com formação universitária, ao ver o post ironizou, insinuando que se tratava de uma notícia falsa.
O que me espanta é que trata-se de uma profissional de saúde, em princípio capaz de pensamento científico crítico, perfeitamente habilitada a buscar a confirmação da notícia que lhe parecia tão inverossímil. Alguns cliques e ela chegaria a fonte da notícia, o site de uma grande empresa jornalismo e lá, a matéria estaria mais aprofundada e seria fácil confirmar sua veracidade.
Não, nada disso.
Preferiu desdenhar de uma notícia séria apenas por preguiça mental. Este é outro lado dessa perigosa moeda. Estas pessoas não acreditam, apenas, em coisas absurdas; além disto, também duvidam de fatos reais, como minha amiga fez com uma simples notícia de um trabalho científico em andamento em uma universidade brasileira.
Como muitos que me lêem devem saber, muitas pessoas duvidam que o homem tenha pisado na Lua, acreditando que tudo não passou de uma encenação de estúdio. Duvidam da ciência e do conhecimento científico consolidado ao longo dos anos e ao mesmo tempo acreditam em fantasias descabidas, como a absurda ideia da Terra plana.
São sintomas de um perigoso obscurantismo que ronda tudo de bom e útil que a ciência produziu nos últimos anos, nas últimas décadas.
A profecia de Sagan aos poucos vai se materializando e me parece que se quisermos reverter essa tendência nefasta teríamos que investir pesadamente no trabalho de alfabetização científica da sociedade, no esforço de resgatar as pessoas em geral das garras da ignorância.