Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 17 de abril de 2011

“PANTA REI”

por Mario Sales, FRC.:; S.:I.:; M.:M.:


A instabilidade das coisas é vista como um problema pela maioria das pessoas.
Pelo hábito com estruturas aparentemente estáveis supomos que a estabilidade seja mais adequada que a instabilidade.




Talvez porque nosso sistema nervoso, a estrutura neurológica que nos permite a percepção do mundo, não lide muito bem com referenciais instáveis, e precise amadurecer para dar conta de tamanha variabilidade de momento a momento.
Só que tudo que temos está sujeito à mudança e à transformação permanente, a começar por nossos filhos que nos avisam dia após dia que estamos envelhecendo, já que nós mesmos não percebemos com clareza a passagem dos anos em nós.




Certo dia acordamos, como em tantos outros antes daquele e percebemos de forma súbita, no espelho, que nosso rosto se modificou e que os anos passaram.
Vemos as crianças crescerem e se transformarem em adolescentes sem que saibamos com clareza como tais coisas aconteceram. É surpreendente a nossa incapacidade de acompanhar de forma consciente tudo que acontece ao nosso redor imediato.
Somos, quase em tempo integral, inconscientes das mudanças que nos envolvem e que envolvem o mundo que nos cerca.
Instável. Sempre em movimento.
Este é o nosso modo de estar no mundo.
Fantasiosamente, queremos que as coisas durem, que permaneçam, e a única realidade, lembra o Zen Budismo, é a impermanência.




É comum em mosteiros construírem-se com todo carinho, ao longo de meses, com areia colorida, um lindo mandala, com motivos florais, para que depois de pronto, o Mestre venha e o destrua com gestos rápidos.
É preciso que haja empenho neste trabalho de construção do mandala, senão a experiência de ver um trabalho tão detalhado e tão precioso ser destruído não será suficientemente didática e emocionalmente forte.




Dizem que Heráclito era o mestre présocrático da Impermanência com sua frase “um homem não pode banhar-se no mesmo rio duas vêzes”, demonstrando assim o fluxo das águas e da vida. Só que seu discípulo Crátilo era mais radical. Quanto a impermanência das coisas, lembrava que “as águas que banham a ponta dos pés não banharão os tornozelos”.
Heráclito

Tudo flui, dizia ele, ou em grego, Panta Rei.
Queremos que as coisas que chamamos boas sejam permanentes na forma. Não são.
Queremos que as coisas ruins passem depressa. Isto é certo, passarão. Por que tudo desaparece nas areias do tempo.




E por mais eterno que tenha parecido, inevitavelmente tornar-se-á uma lembrança, como um sonho, do qual lembramos às vezes com dificuldade, e do qual guardamos apenas alguns aspectos.
É assim que a Vida flui, semelhante a água que escorre pelo ralo, ininterrupta, puro movimento.


Conviver com a Impermanência é nosso desafio educacional mais importante.
Esforcemo-nos para entendê-la e aceitá-la.
A vida com certeza fica mais fácil.