Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 28 de abril de 2011

NOMES, TERMOS, SIGNIFICADOS

Por Mario Sales, FRC.: ; S.:I.: ; M.:M.:

Um leitor do blog que não se identifica, e usa o curioso codinome de “Incognitus”, manda um comentário simpático em relação ao texto “Todos somos diferentes”, publicado semana passada. Entretanto, referindo-se ao trecho em que está escrito “por que o místico, em geral, segue uma linha panteísta, melhor dizendo, não há alguém, em algum lugar, com quem negociar ou contra quem se revoltar.”, questiona se o termo correto em vez de panteísmo não seria panenteísmo.
Fiquei curioso. Não conhecia o termo panenteísmo.
E, como todo bom ignorante, fui ao dicionário.
Primeiro, consultei o Dicionário de Filosofia de N.Abbagnano, Editora Mestre Jou, 2a edição em português de 1982, São Paulo. Lá na página 711, lá embaixo, canto direito, está escrito que panenteísmo é um "termo criado por Christian Krause para designar uma síntese entre teísmo e panteísmo a qual consistiria em admitir que tudo que existe existe em Deus e existe como realização e revelação de Deus. Na realidade este ponto de vista é próprio do panteísmo clássico e portanto não se vê utilidade no termo, o qual com efeito não teve aceitação." 
No Dicionário Houaiss, edição de 2009, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, na página 1422, lemos lá embaixo na primeira das 3 colunas da página que panenteísmo é “um termo criado pelo pensador alemão Cristian Krause (1781-1832) para designar sua doutrina, caracterizada como uma síntese entre o teísmo e o panteísmo, pois calcada na suposição de que a totalidade do Universo está situada no interior de uma única divindade primordial.
Na página seguinte, 1423, na parte de baixo da 2ª coluna, encontramos a definição de panteísmo, que é o sentido que quis dar no trecho do meu ensaio supra citado, referindo-se “a doutrina filosófica caracterizada por uma extrema aproximação ou identificação total entre Deus e o Universo, concebidos como realidades conexas ou como uma única realidade integrada.”
Esclarecido o ponto, fiquei encafifado com a descoberta de mais um pensador místico, graças ao comentário do leitor, e fui fazer as pesquisas de praxe acerca do mesmo.
Na Wikipedia achei a seguinte referência a este pensador:




Karl Christian Friedrich Krause

“Karl Christian Friedrich Krause (Eisenberg, 4 de maio de 1781 - Munique, 27 de setembro de 1832) foi um filósofo alemão.Foi professor em Jena (1802), Göttingen (1823) e Munique (1831). A filosofia de Krause pretendia ser uma continuação autêntica do pensamento de Kant, contra o que ele considerava as falsas interpretações de Fichte, Schelling e Hegel. Para Krause, Deus, conhecido intuitivamente pela consciência, não é uma personalidade, mas uma essência que contém o próprio universo. Mas isso não significa que Krause aceitasse a designação de panteísmo pois não identifica Deus com o universo, mas antes considera o mundo como mundo-em-Deus.O homem e o universo formam um todo orgânico feito à imagem de Deus e a vida do todo se desenvolveria segundo uma lei perfeita. Para Krause, haveria na humanidade a unidade do Espírito e da Natureza. A humanidade compõe-se de seres que se influenciam reciprocamente e estão vinculados a Deus. Os períodos históricos seriam etapas sucessivas da ascensão a Deus, que culminaria com uma humanidade racional.”
O interessante em sua abordagem é a recusa em identificar Criador e Criação, quase como com receio de que essa desindividualização da divindade significasse o desaparecimento da mesma.
É difícil pensar o inimaginável. Deus é assim. Nem por isso ele deixaria de existir se reconhecêssemos sua complexidade.
As imagens do renascentismo italiano, o Deus da belíssima Capela Sistina, com barbas brancas e um corpo com musculatura definida, saudável, ou o conceito de Pai defendido no discurso cristão, que nos remete a relações familiares, de proteção e intimidade, servem muito bem ao apelo didático de transmitir a idéia de uma divindade, desde o início definida como Incognoscível.
Todos sabemos no entanto que são apenas modelos e não um retrato fiel de alguma coisa que é impossível descrever.
Por isso talvez a insegurança do filósofo. Naquela época pré quântica, quando tudo parecia bem mais estável e sólido, a idéia de algo indefinível e amorfo era no mínimo desconfortável. Entendo a situação psicológica de um homem do século XVIII.
Fiquei pensando, depois desta análise, no esforço que o intelecto humano faz para justificar intelectualmente aquilo que seu coração lhe diz que é verdadeiro.
Lembrou a clássica oposição entre Criacionismo e Método científico.

O discurso, por mais complexo e bem elaborado, apenas reflete a crença de quem o escreve e em si, não prova ou refuta totalmente determinado ponto de vista ou opinião.
Daí a importância de fundamentar o que se diz com a experiência, conquista pós positivista, mas que começoiu a ser desenhada lá atrás com a obra de Francis Bacon , lord chanceler da Inglaterra e Imperator da Ordem Rosacruz do século XVI.
Bom, é isso. Agradeço ao leitor “Incognitus” pelo mote de pesquisa. E se for possível, na próxima vez que mandar um comentário, revele-se, identificando-se por seu nome verdadeiro. Será uma grande alegria conversar com alguém, que ao contrário do Todo Poderoso, tem rosto e carteira de identidade.
Grande abraço.