Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 30 de abril de 2011

O TZIMTZUM ESFÉRICO

por Mario Sales, FRC.:; S.:I.:; M.:M.:

Terminei de escrever uma resposta ao comentário que recebi ontem (“CONVERSANDO COM FERNANDO”), e lá pelas tantas vi que tinha cometido um sacrilégio cabalístico. Elaborei um conceito sem discutir antes com Frater Reginaldo do Recife, minha referência no assunto.
Quando comentava os aspectos paradoxais do casamento entre imanência e transcendência, citei ao meu leitor que uma das culturas que havia emitido conceitos que poderiam ser identificados com o modelo panenteísta era a cultura judaica, com a noção cabalística do século XVI de Luria conhecida por Tzimtizum.
E aí comentei que, embora no texto cabalístico de Isaac Luria, o Ari, se falasse que Deus era um Todo Circular que abria em seu centro um espaço para o surgimento da Criação, uma constricção em sua natureza, afirmei que em vez da imagem da rosquinha Donuts que eu sempre usava nas aulas do martinismo, dever-se-ia pensar em uma esfera que abria dentro de si uma outra esfera menor, um espaço esférico de criação finito no centro de uma esfera maior, o Ain-Sof, o Infinito.
Percebi então que isto não estava no Cabala, era uma imagem minha. Aí telefonei para Reginaldo em busca de socorro e respaldo. Encontrei-o no celular.
Sempre prestativo, avisou que voltaria para casa e pesquisaria. E assim foi. Meia hora depois ele liga e diz:
"- Aqui nos textos que eu tenho fala-se em círculo que se retrai, uma constricção, tzim, a contração, tizum, a expansão. Esfera não fala não."
E agora? Só que isto para mim estava claro. E me lembrei de um insight semelhante durante uma reunião martinista em que vi nitidamente que, no Quadro Universal de Martinéz de Pasqually, embora estivessem desenhados círculos, mais sentido faria se fossem considerados esferas que se tangenciavam, mesmo que apenas para servir de modelo didático. Apresentei um trabalho sobre o assunto. Publiquei nas páginas essencialmente Martinistas do Blog ("O Eixo Fogo Central Incriado"). E ficou por aí.
Agora a mesma maldição esférica vem mexer com minha visualização do Tzimtizum.
Falei pra Reginaldo: “- Se Luria não fala, é porque na época dele como na época de Martinez e Saint Martin todos pensavam bidimensionalmente. Tenho certeza que é uma esfera. Fica como outro Insight meu.”
Mestre Reginaldo riu. E eu também.
Mas eu estava falando a sério. Só que é engraçado esta maneira de pensar a herança mística e ocultista, modernizando-a quanto à sua representação espacial.
Eu cresci vendo televisão, sou um indivíduo visual.
Gosto de entender um conceito vendo-o em minha mente.
Todo mundo gosta. Falar sobre um conceito, por mais material e palpável que seja, não é a mesma coisa que poder mostrá-lo.
Quanto mais um conceito altamente abstrato.
E a didática se vale de modelos descritivos desde que o mundo é mundo.
O tzim tizum é assim. É um conceito aparentemente bidimensional por que na época todos eram bidimensionais, não porque Luria tenha visto assim.
A própria Terra, nosso planeta, ainda era meio plana. Digo meio plana porque Vasco da Gama já tinha feito o caminho das Índias, as Américas tinha sido descobertas , Colombo (século XV) já havia conversado com a Rainha Isabela e posto o ovo em pé. Só que a sociedade ainda não tinha absorvido o impacto epistemológico.
Levaria muito tempo para sair de um mundo plano para um mundo redondo, ou melhor esférico.
Hoje ainda estamos lendo coisas da época sobre o prisma da época, sem arriscar mudar uma linha sequer, com medo de perverter a tradição. Mas é preciso perder o receio, que todo estudante rosacruz tem, por respeito pela tradição que ele preserva, e avançar.
Temos de tridimensionalizar a Tradição, isto não me sai da cabeça.
E por falar nisso, vamos arriscar mais um pouco, isto aqui é apenas o meu blog, ninguém se importa se eu cometer algumas heresias em nome da da mais completa liberdade dentro da mais perfeita tolerância.
E se o tzim tizum não for uma singularidade? E se dentro de Deus, do Ein Sof, ocorreram outras constricções, que permitiram o surgimento de outros universos?

Já que são muitos planetas, muitas esferas, porque não muitos universos? Não é disso que a moderna cosmologia fala, não é sobre isso que os matemáticos especulam? Os famosos Universos paralelos, ou para usar um termo mais esférico, universos tangenciais? Quem sabe até, oscilando e interpenetrando-se eventualmente.
Por que não?
Antes acreditamos que éramos apenas nós no Universo.
Depois descobrimos que éramos muitos, milhões de estrelas cercadas de dezenas de planetas cada uma.
E se foram múltiplas constricções, não um Universo mas o Multiverso? Talvez estas sejam considerações para uma Neo-Cosmovisão Cabalística.
Bom, estas são minhas especulações.
Afinal este é o meu Imaginário.
Espero que o Velho Ari, Luria, o Leão, não esteja se sacudindo na tumba a esta hora