sexta-feira, 30 de abril de 2021

OLHAI OS LIRIOS DO CAMPO

 

Por Mario Sales

 

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”


Mateus 6:25-34

 



 

Lá pelas últimas páginas de “princípios rosacruzes para o Lar e para os Negócios”, no capítulo intitulado “A Távola Redonda”, Spencer Lewis diz que “o homem tem dentro de si um poder criador que é parte da força universal criadora e parte da energia criadora que Deus soprou no espaço quando a primeira Palavra (assim mesmo, com “P” maiúsculo) foi pronunciada e a ordem surgiu do Caos.”

Essa é uma afirmação de forte impacto, se compreendida, se realmente assimilada, se não for lida com desinteresse ou descrença.

Ela afirma que o homem, qualquer homem ou mulher, têm dentro de si “um poder criador que é parte da força universal criadora e parte da energia criadora que Deus soprou no espaço”, mas poderia ter afirmado que qualquer ser humano têm dentro de si o mesmo poder que emana de Deus, e não “uma parte” dele.

Todas as vezes que leio este trecho em literatura da Ordem ou trechos que propõem uma concepção semelhante, sou tomado de forte emoção.

Primeiro pelo significado intrínseco destas declarações que se lidas com a devida atenção trazem uma afirmação assustadoramente poderosa; segundo porque por mais que creiamos na correção e veracidade da afirmativa a maioria de nós está distante de perceber ou de implementar tal conhecimento em sua totalidade. Pelo contrário: sentimo-nos, via de regra, limitados por condições objetivas, problemas de natureza social, psicológica ou física. Situações de caráter financeiro ou emocional.

Não nos sentimos cheios deste poder.

Não percebemos tal energia criadora em nós.

E por quê?

A resposta está em nossas convicções. No livro “As cartas dos mahatmas para A.P.Sinet”, no volume 1, página 166 lemos que “os senhores Sinet e Hume são exceções. As suas crenças não são barreiras para nós, pois não têm nenhuma. (quanto a manter contato e troca de ideias). Eles podem ter tido influências ao seu redor, más emanações magnéticas resultantes da bebida, da sociedade mundana e de associações físicas promíscuas (resultado até mesmo de apertar a mão de homens impuros); mas todos esses impedimentos são físicos e materiais, aos quais podemos nos opor com um pequeno esforço – continua mestre Morya - , e mesmo eliminá-los sem muito esforço para nós. Mas é diferente com o magnetismo e os resultados invisíveis produzido por crenças errôneas e sinceras.”

Errôneas e sinceras, diz Mestre Morya, ou seja, convicções profundas absolutamente equivocadas, contra as quais pouco podemos fazer. Todo diálogo, toda mudança, esbarram nestas convicções que, como zinabre, impedem a conexão necessária que geraria a energia latente em nosso ser.

Obstruções de fluxo.

E precisamos deste fluxo livre para que a força latente em nós possa ser manifestada, como se manifestava no Cristo ou em Buda.

Tal poder não é nosso, mas está disponível a todo ser vivente, e em última análise, é da mesma natureza daquele que nos garante a própria existência através do cordão de prata.

Não é preciso crer nele. Precisamos isto sim, nos libertar da dúvida sobre ele, de todo pensamento de limitação que nos faz crer, primeiro, que somos separados uns dos outros e da Fonte de toda a Vida; e segundo, de que, por isso, não temos poder algum para modificar nossa existência ao nosso bel prazer.

Permitir-nos ser o que somos, tornarmo-nos aquilo que somos, como diria Nietszche, é nosso destino e meta.

A experiencia de vida seria muito diferente se percebêssemos em nós 1/10 deste poder.

Para isso, no entanto, temos de abandonar convicções errôneas e sinceras, nossos preconceitos e crenças acerca do que somos, ou de nossas limitações.

Este salto de qualidade só é possível pela deseducação, pelo esquecer do que acreditamos e, pelo menos, darmos uma chance a outras possibilidades de compreensão.

Não é tão simples como bem lembra mestre Morya; mas é possível. Não é suficiente querer, mas sim esquecer o que achamos sobre a vida e sobre nós mesmos.

Este é o segredo da transformação.

E aí perceberemos como lembra Mestre Jesus no evangelho de Mateus, nossa divina filiação e nossa ligação permanente com Aquele que não só nos deu a Vida, mas também a mantém.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O EQUÍVOCO MARTINEZISTA

 Por Mario Sales



“Foi graças às cartas de Martinez de Pasqually que pudemos fixar a ortografia exata de seu nome, estropiado até então pelos críticos (1); foi ainda graças aos arquivos que possuímos e ao apoio constante do Invisível, que logramos demonstrar que Martinez não teve jamais a idéia de transportar a Maçonaria aos "princípios essenciais", que sempre desprezou, como bom Iluminado que foi. Martinez passou metade de sua vida combatendo os nefastos efeitos da propaganda sem fé desses pedantes de lojas, desses pseudo-veneráveis que, abandonando o caminho a eles fixado pelos Superiores Incógnitos, quiseram tornar-se polos no Universo e substituir a ação do Cristo pelas suas e os conselhos do Invisível pelos resultados dos escrutínios emanados da multidão. Em que consistia o Martinezismo? Na aquisição pela pureza corporal, anímica e espiritual, dos poderes que permitem ao homem entrar em relação com os Seres Invisíveis, denominados anjos pela Igreja, chegando não somente a sua reintegração pessoal, mas também à reintegração de todos os discípulos de vontade. Martinez fazia vir à sala de reuniões todos os que lhe pediam a luz. Traçava os círculos ritualísticos, escrevia as palavras sagradas, recitava suas orações com humildade e fervor, agindo sempre em nome do Cristo, como testemunharam todos aqueles que assistiram às suas operações, como testemunham ainda todos os seus escritos. Então, os seres invisíveis apareciam, resplandecentes de luz. Agiam e falavam, ministravam ensinamentos elevados e instigavam à oração e ao recolhimento; tudo isso ocorria sem médiuns adormecidos, sem êxtase, sem alucinações doentias. Quando a operação terminava, os Seres Invisíveis tendo sido embora, Martinez dava os seus discípulos os modos de chegarem por si mesmos à produção dos mesmos resultados. Somente quando os discípulos obtinham sozinhos a assistência real do Invisível é que Martinez lhes outorgava o grau de Rosa-Cruz, como mostram suas cartas, com evidência.”

“Martinezismo, Willermosismo, Martinismo e Franco Maçonaria” por Papus



“Os anjos são homens de uma ordem superior, e nada mais. Não são os anjos “ministros” nem “protetores”, não são tampouco “Arautos do Altíssimo”, e muito menos os “mensageiros da ira” de Deus, criados pela imaginação do Homem. Pedir a proteção deles é tão insensato quanto supor que se possa captar-lhes a simpatia mediante qualquer espécie de propiciação; pois eles, do mesmo modo que os homens, são criaturas sujeitas a imutável lei cármica e cósmica. A razão é óbvia”

Doutrina Secreta, Volume I, página 307, Ed Pensamento,1973

Existe evidentemente um conflito de compreensões entre Teosofia e Martinezismo. Papus, ex teósofo, abandonou as fileiras da Sociedade de Blavatsky para reabrir uma ordem de características históricas e culturais tipicamente francesas para franceses, e mais que isso, com um caráter operacional completamente diferente da visão teosófica ortodoxa, já que o Martinezismo se baseava em operações teúrgicas, leia-se invocação de seres invisíveis celestes, Anjos, ou pelo menos um deles, que denominava-se “A Coisa”, Le Chose, e que apresentou-se como “O Filosofo Desconhecido”, codinome depois assumido pelo próprio Saint Martin em seu ministério particular.

Blavatsky é clara: Anjos não são mais do que seres humanos evoluídos, que não devem ser tratados como deuses ou como possuidores de alguma autoridade esotérica indiscutível, uma afirmação coerente com o espírito iconoclasta do ensinamento teosófico.

Para ser mais claro ainda, para Blavatsky, invocações teúrgicas são além de erros operacionais, equívocos na busca de iluminação.

Curioso é que o secretário de Martinez de Pasqually, Saint Martin, participante ativo das reuniões dos Cohen e redator dos cadernos ditados pela “Coisa”, mais tarde repudiasse, como Blavatsky, tais procedimentos, se bem que por outros motivos.

Ouçamos as ponderações de Saint Martin, citadas por Papus (“Martinezismo, Willermosismo, Martinismo e Franco Maçonaria”):

"Não poderíamos denominar os três reinos que vossa escola designava "natural, espiritual e Divino", natural, astral e Divino? Todas essas manifestações que vêm após a iniciação, não seriam do reino astral? Uma vez tendo colocado os pés nesse domínio, não se entraria em sociedade com os seres que aí habitam, cuja maior parte, se me for permitido, em assunto dessa natureza, servir-me de uma expressão trivial, é má companhia? Não se entra em contato com seres que podem atormentar, até ao excesso, o operador que vive nessa multidão, ao ponto de suscitar-lhe o desespero e de inspirar-lhe o suicídio, como testemunharam Schoroper e o Conde de Cagliostro! Sem dúvida que terão os iniciados os meios mais ou menos eficazes para se protegerem das visões; mas, em geral, parece-me que essa situação, que está fora da ordem estabelecida pela Providência, pode ter antes consequências mais funestas do que favoráveis ao nosso progresso espiritual".

Ou seja, por mais bem intencionadas que as narrativas da Coisa parecessem, não haveria como estabelecer sua autenticidade. O Martinezismo, além de anti teosófico, também tinha um caráter anti rosacruciano contemporâneo, já que Spencer Lewis construiu uma doutrina na busca interior das verdades necessárias, evitando a chamada confirmação externa das percepções esotéricas, que tanto prejuízo traz ao neófito e mesmo a alguns iniciados antigos.

Digo “rosacruciano contemporâneo” porque ao longo da história tivemos sim, nós, rosacruzes, nossos momentos magistas e invocacionais. Nem sempre nossa estratégia de busca das camadas elevadas da espiritualidade baseou-se como hoje se baseia, em auto investigação, em um caminho para dentro. Também nós, rosacruzes, evoluímos, passando de um período de simpatia por manifestações externas pela busca eminentemente cardíaca, como falava Saint Martin.

Hoje sabemos que o Deus de nossos corações guarda toda informação que precisamos, e que informações de terceiros, sejam homens comuns ou “anjos” precisam ser checadas com nossa intuição pessoal, com nossa sensibilidade, expondo-as a Shekinah, a presença divina em nós.

Pessoas como Papus acreditavam em uma erudição esotérica, no acúmulo de todo tipo de informação sobra a tradição, independente da estratégia que representassem, ou como se essas estratégias não tivessem um tempo de validade.

Deus é eterno, a compreensão esotérica de Deus não. E se existem verdades nos textos esotéricos que permanecem válidas até hoje, isso não significa de maneira nenhuma que tais textos não devam ser relidos à luz das mudanças psicológicas e sociais dos últimos séculos.

Foi isso que Spencer Lewis fez quando realizou brilhantemente a atualização dos conhecimentos rosacruzes transmitidos pelos rosacruzes europeus chefiados por Hyeronimus.

Outra consideração: se enquanto rosacruzes tivermos alguma hesitação quanto a aceitar que o método Martinezista, mesmo bem-intencionado, fosse apesar de tudo equivocado, lembremos que Blavatsky baseia sua critica nos ensinamentos dos mestres ascensionados da Fraternidade Branca, um deles seu mestre pessoal, El Morya, e o outro Ku-Thu-Mi, coautores da Doutrina Secreta por ela redigida, e este último, segundo Spencer Lewis, Hierofante e responsável pela Ordem Rosacruz.

Pode-se dizer, portanto, que dizer que anjos não são fontes as quais deva-se dar uma reverencia divina não é uma afirmação de Blavatsky em si, mas de dois mestres da Fraternidade Branca, à qual como rosacruzes estamos hierarquicamente submetidos.

Portanto, não só Martinez estava equivocado, mas também Papus, na tentativa de fazer reviver uma Ordem e dar-lhe um caráter Martinezista.

O Martinismo, como o nome diz, está ligado a Saint Martin, que rejeitou como vimos as práticas teúrgicas, em função de seus riscos para a sanidade além de sua inadequação como recurso de iluminação.

Todo conhecimento deve receber um tratamento intelectual que o classifique e separe, colocando algumas informações em uma categoria de “métodos históricos de busca da espiritualidade” e reservando uma categoria para as técnicas adequadas e ainda úteis a esse mesmo objetivo.

Buscar no próprio coração a presença de Deus e sua força me parece que é e sempre foi o método mais correto de crescer em consciência.

Outras técnicas têm um valor histórico e simbólico; em termos práticos contemporâneos, entretanto, apenas isso, nada mais.

sábado, 20 de março de 2021

O ROSACRUZ ESQUECIDO

 

Por Mario Sales

SPENCER LEWIS

 

A comunidade rosacruz no mundo comunga valores comuns quanto a busca do aperfeiçoamento do caráter de seus membros, quanto ao aumento de conhecimento sobre as leis naturais e universais e sua aplicação ao cotidiano e, finalmente, a vivência de uma fraternidade indiscutível entre os membros da Ordem e a Humanidade.

Estes pontos de ligação, no entanto, não devem ser entendidos como marcas de homogeneidade mental ou comportamental.

Se existe uma lei acerca dos seres humanos, sejam iniciados ou não, é a lei da diferença, da heterogeneidade. Somos, nós, rosacruzes, peculiares, individualmente, com preferencias e tendencias singulares que nos identificam entre nossos pares.

Alguns de nós são extremamente céticos, outros intensamente crentes. Uns seguem a linha dos místicos religiosos, outros a linha de trabalho dos alquimistas que ao sabor do dito “ora et labora”, consagravam a Deus seu trabalho e rezavam através do empirismo laboratorial.

É destes alquimistas, que colaboraram com seu oficio para a forma e estrutura atual dos laboratórios contemporâneos de química e biologia, que vem a linhagem com a qual, dentro da rosacruz, me identifico.


Por ignorância ou falta de maturidade, muitas pessoas julgam, senso comum, que existe uma incompatibilidade natural entre ciência e devocionalidade e que um indivíduo ligado ao trabalho científico não pode ser um crente ou alguém que sinta em si a presença do eterno.

Ledo engano. O físico Marcelo Gleiser, agnóstico, cético metodológico, em mais de uma oportunidade mostrou que tal visão é equivocada, e que muitos homens de ciência seus conhecidos admitem francamente crença em um ser indefinível, ou se preferirem, divino, sem que isto em nada interfira com sua objetividade científica.

Em 1915, quando a Ordem voltou a atividade visível pelas mãos de Harvey Spencer Lewis, esse grupo de rosacruzes que representa o pensamento alquímico, empírico, laborioso no mundo material tanto quanto no mundo espiritual, estava representado. Nosso antigo imperator era um amante da ciência e da pesquisa.


Um dos aparelhos de Lewis, o LUXATONE, que projetava na tela triangular cores correspondentes as notas emitidas pelo teclado.


Preocupou-se em montar um sistema de ensino a distância, antecipando os métodos contemporâneos de aulas remotas. Construiu um pavilhão para estudo das estrelas no parque de San Jose, na California, aos moldes dos nossos planetários de estudo e ensino.

Criou aparelhos na tentativa de estabelecer a ponte entre os ensinamentos esotéricos e a demonstração dos princípios rosacruzes, na esperança de achar este Santo Cálice (Hole Graal) do encontro experimental destes dois Universos.

Faltava-lhe infelizmente tecnologia para sustentar tanta ambição, como de resto, a todo o planeta. Não seria a primeira vez que um visionário perceberia realidades ainda impossíveis de serem reveladas ou tornadas de domínio público por falta de estrutura empírica.

Hoje ainda não temos a tecnologia necessária para atravessar este vazio entre nós e amanhã, mas muitas condições antes ausentes tornaram o estudo do invisível, do antes indetectável, mais viáveis.

Os recursos empíricos necessários para a detecção do muito pequeno se ampliaram. A sensibilidade dos nossos aparelhos, entretanto, para energias muito sutis ainda é baixa.

Não conseguimos ver aura, salvo se formos videntes. Não conseguimos detectar o Ki dos acupunturistas, que flui segundo eles por canais ao longo do corpo, e por não conseguirmos ver, muitos supõem ser apenas uma superstição, uma fantasia, se bem que ninguém nunca viu o “inconsciente coletivo” junguiano, ou mesmo o espaço tempo einsteiniano, mas aceitam sua existência em função de “evidências empíricas indiretas verificáveis”, como o desvio da luz visto nos eclipses.

Isto para a ação de deformação do espaço tempo como manifestação da gravidade. Para o conceito de inconsciente coletivo junguiano nem esses dados experimentais indiretos temos, o que não abala aparentemente sua dita cientificidade.

Porque então falamos em pseudo ciência quando nos referimos a conceitos que se baseiam em energias ainda não detectáveis, independente de seus efeitos terapêuticos demonstrados, dados empíricos indiretos portanto, e ao mesmo tempo aceitamos como plausível uma rede de interligação entre os subconscientes de todos os seres humanos, sem tanto pudor?

Vejam que aqui eu não estou falando a favor ou contra esse conceito, o qual inclusive tem minha simpatia.

Verificável, no entanto, ele não é, e portanto, muito menos cientifico. A psicologia junguiana se sustenta na habilidade como escritor e descritor de seu fundador e na pratica de seguidores apaixonados de seu pensamento, mas sob o ponto de vista ortodoxo, cientifico, baseado no modelo matemático-empírico, só podemos classificar a psicologia não experimental como um conjunto de crenças, boas ou más, porém crenças, já que não são passíveis de verificação, assim como os canais de acupuntura, hoje ainda invisíveis, como por séculos foram invisíveis os microorganismos na ausência de um simples microscópio.

Por isso, o diálogo tão decantado em prosa e verso, entre esoterismo e ciência é inviável. Falta-nos, como faltava para Spencer Lewis, tecnologia que sustente com evidências empíricas demonstráveis, as afirmações dos esoteristas.

Assim a rosacruz se viu em um impasse. Os experimentos elaborados por Spencer Lewis para enriquecer o ensino dos nossos principios tornaram-se cada vez menos expressivos dado o enorme avanço da ciência no século XX. Pelo menos, foi o entendimento do grupo que assumiu a direção dos trabalhos administrativos da Ordem a partir dos anos 90, dando uma forte guinada para o enfoque devocional, forte porém sutil, de maneira a não explicitar o abandono do ideal empírico de Lewis. Seu nome, suas palavras, seus discursos ainda estão lá, mas a Ordem que ele imaginou já não existe.

A alquimia rosacruz ainda é estudada, mas como uma curiosidade histórica e simbólica, substituindo o aspecto pratico experimental pela vertente do estudo semiótico.




Embora sejamos a mesma Ordem da qual foi membro o criador do ceticismo metodológico, Renée Descartes, a maioria dos rosacruzes contemporâneos não perceberam estas mudanças. Leais aos seus juramentos templários de respeito as decisões de nossos oficiais superiores, deixamos que década após década, a AMORC fosse transformada em uma associação com forte caráter religioso em detrimento do cientificismo de Lewis. Não que Lewis não fosse, ele mesmo, um devoto cristão. Nunca, entretanto, usou do apelo da religião para fomentar o trabalho rosacruciano.

Sua norma e, salvo engano meu, seu maior objetivo, era criar uma organização internacional de esoteristas capazes de como ele fez, atualizar por métodos científicos os conhecimentos esotéricos recebidos dos guardiões da tradição. Havia nele, Lewis, uma urgência em transformar conhecimento em técnicas que poderiam ser aplicadas por qualquer individuo em situações as mais corriqueiras, aquelas que dizem respeito a vida cotidiana.

Assim, com seu maravilhoso poder mental, sintetizou todos os antigos meios mágicos na arte da visualização criativa. Mais do que isso não era necessário para mostrar os efeitos diretos sobre a realidade do poder mental de cada indivíduo, um poder desconhecido e pouco usado, mas Lewis queria mais, queria poder demonstrar de modo empíricos outros princípios, mas como disse faltavam recursos, faltava tecnologia.

A vertente rosacruciana dos devotos assumiu e expandiu a Ordem com o discurso da crença e da devoção, o que não vai contra a natureza rosacruciana, mas, tenho para mim, não era o objetivo de Lewis lá nos anos de reabertura da Ordem.

Dentro deste espírito devocional, aconteceu o fortalecimento da Ordem Martinista, uma Ordem de origem maçônica, baseada na teurgia do século XVIII, que não tem por objetivo a verificação empírica dos poderes latentes, mas o desenvolvimento de uma sensibilidade religiosa nos moldes do cristianismo ocidental, com insinuações de práticas mágicas que via de regra não se concretizam, já que a teurgia prática, dentro da Tradicional Ordem Martinista, foi esvaziada e pasteurizada, num reconhecimento tácito de sua inadequação ao momento histórico atual. Embora fale-se em “caminho do coração”, qualquer martinista sabe que a TOM é fundamentada em exaustivos estudos teóricos, textos e mais textos, sobre assuntos que a atualização feita no início do século XX por Lewis, dos antigos ensinamentos da tradição, a meu ver tornou obsoletos.

Pode-se dizer em defesa do Martinismo que foi o próprio Lewis que resolveu abrigá-lo dentro da AMORC, mas a ênfase que ele recebeu a partir dos anos 90, foi indiscutivelmente mais intensa.

O Martinismo, temo, é apenas uma curiosidade histórica. Pessoalmente acho que foi um equivoco tentar mante-lo já que trata-se de uma Ordem que tende ao desaparecimento historicamente.

Assim foi após a morte de Martinez de Pasqualy. Assim foi com o surgimento do Rito Escocês Retificado criado por Vilermoz em ambiente maçônico. Assim também ocorreu com o Martinismo primitivo, de Louis Claude de Saint Martin que jamais desejou uma escola de graus separados, mas a livre iniciação que hoje, na TOM é tratada como prerrogativa de alguns e não de todos os Superiores Incognitos, como sonhou o fundador.


PAPUS

O modelo de Papus, em Paris, com graus e com ênfase no estudo da Cabalá, ao que parece da Cabalá Cristã, e não da Hebraica, era fomentar um esoterismo genuinamente francês que se opusesse ao trabalho da Teosofia Blavatskiana, que à época, dominava o cenário e com a qual Papus rompeu ligações em 1890, um ano antes da morte de Helena Petrovna. Como os teósofos, os martinistas de Papus davam ênfase ao estudo teórico, e não ao estudo prático, se bem que alguns enveredassem por este caminho, de modo particular.

A TOM é um reflexo não da Ordem imaginada por Saint Martin, mas da Ordem como desenhada pelos esoteristas franceses do final do século XIX, Augustin Chaboseau, Stanislas de Guaita, Lucien Chamuel, Charles Barlet, Maurice Barrès, Joséphin Péladan, Victor-Émile Michelet e alguns outros.

A Ordem que Lewis abriga, via FUDOSI, dentro da AMORC, é o Martinismo de Papus, com a estrutura educacional própria da época, um esoterismo de enciclopédia, com muita informação e pouco foco pragmático. O inverso, portanto, do ideal rosacruciano de empirismo e aplicabilidade cotidiana dos princípios esotéricos.

É difícil entender qual o objetivo de Lewis ao tomar essa decisão de abrigar a escola de Papus dentro da estrutura da AMORC. Talvez tenha se deixado encantar pela proposta de uma ordem que refletia o espírito dos ideais de cavalaria do século XVII e XVIII enriquecidas por um ambiente cristão. Não percebeu eu estava abraçando um empreendimento que nada tinha a ver com a proposta de AMORC para os séculos XX e XXI, e que de forma alguma representava o perfil dos alquimistas rosacrucianos, se bem que ali estivessem ecos da cabalá cristã que os rosacruzes tão bem conheciam na linha de Pico de laMirandola.

Depois desta demorada digressão, que visa dar um panorama histórico da evolução de AMORC pré e pós anos 90 do século XX, volto a questão inicial. Perdemos, na minha opinião, nosso caráter eminentemente empírico e pragmático, pelo menos do ponto de vista da proposta descrita nas monografias como qualquer artesão como eu leu nos anos 60 e 70.

E isso inviabiliza o tal diálogo desejado entre os homens céticos e metodológicos, ao espirito do rosacruz Renée Descartes, também francês, que a rosacruz contemporânea esqueceu ao longo de sua caminhada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

O PAPEL DE MAYA

 

Por Mario Sales

 

 

Quando eu digo que Maya tem um proposito e que discutir se é ou não ilusória não é o mesmo que discutir se é boa ou má é porque não tem sido essa a linha de comentários sobre esta dimensão fundamental de nossa manifestação ao longo dos textos esotéricos que consultei nestas quatro décadas de esoterismo.

Os textos mais tradicionais, sejam indianos do período clássico ou europeus, do século XIX ou início do XX sempre trabalham o tema sob o viés de ilusão versus realidade.

Já argumentei e repito que um filme de cinema, (coisa que não existia no tempo de Platão e de seu Mito da Caverna, no diálogo “A República”), é um espetáculo de ilusão altamente divertido e instrutivo, pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar para experimentar.

Ninguém na contemporaneidade sentir-se-ia mal se alguém lhe dissesse: “Ei, esse filme, é pura fantasia, nada disso existe”. A Resposta mais provável seria “Sim, é fantasia, e daí?”, com uma face perplexa acompanhando a declaração.

Porque o cerne da questão não é esse, mas sim o grau de utilidade aquela “fantasia” tem para mim em termos de diversão, prazer e aprendizado.

Um filme, feito por atores e cenários teatrais, efeitos especiais e truques com recursos digitais traz uma hora e meia, às vezes duas de entretenimento e emoção.

E é por isso que pagamos. Queremos aprender, queremos nos divertir e isso vale alguma coisa. Traz benefícios. 

A “ilusão” tem um papel, tem uma função artística e educacional em nossa existência.

É como discutir se um quadro de Magritte ou Dali retratam uma cena real, ou melhor, são reais, independente da emoção que desencadeiam em nós ou dos estímulos à nossa imaginação que provocam.

Olhar uma obra surrealista e não considerar seu impacto emocional e estético, é uma abordagem no mínimo estranha além de equivocada.

Da mesma maneira, discutir a realidade de Maya, ou seu aspecto ilusório como um defeito ou algo que a desabone é desconsiderar que nossa existência, nós que estamos mergulhados nesta simulação a partir da qual fazemos esta análise, é rica de emoções e sentimentos exatamente graças a este ambiente simulado.

O problema não é este, real X irreal.

O problema é como lidamos com esta experiencia.

Quem entra em uma sala de cinema concorda em, temporariamente, deixar-se envolver pelo enredo e pela historia narrada, como se real fosse. Em nenhum momento pode supor que está participando realmente de uma guerra, de uma batalha, de uma exploração no fundo do mar ou no pico do Everest. Sabe que não está viajando em uma nave espacial pelo espaço e muito menos que seja protagonista de uma trama de espionagem internacional.

É apenas cinema, arte, ilusão para nosso deleite e divertimento.

E uma hora, as luzes se acendem e tudo termina, e voltamos a nossa “outra realidade”, fora da sala de projeção.

Portanto, não é estar em um meio ilusório ou não que faz de Maya um problema ou uma solução, mas sim confundi-la com realidade, se bem que até hoje não sei bem o que é isto, o real, a não ser sob o ponto de vista do consenso de muitas pessoas que compartilham percepções semelhantes, o mesmo sol, a mesma lua, a mesma cidade, essas coisas.

Aí eu pergunto: em uma sala de cinema, não compartilhamos com a audiência que está na sala, simultaneamente, a mesma ilusão cinematográfica?

Por acaso isso a torna real?

Algo a pensar.

Não falemos mal de Maya. Usemo-la a nosso favor.

Esta é a sua função.


domingo, 24 de janeiro de 2021

NÃO SOU NADA

 

Por Mario Sales

 

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Fernando Pessoa in “Tabacaria”




 

Sempre achei curiosa além de infantilmente arrogante o hábito maçônico de conferir o título de mestres aos que atingem o terceiro grau de loja.

A palavra deveria ser reservada àqueles que realmente tem algo a ensinar, ou que se dedicam a esta nobre arte de passar, de modo compreensível, o conhecimento das eras, nem que seja para evitar que cresçamos para ter medo de vacinas ou achar que a Terra é plana.

Tal comportamento anticientífico deveria ter desaparecido da face de um planeta que se supõe tecnologicamente avançado, mas bem sabemos que estes não são os fatos. Carl Sagan já tinha previsto esta combinação nefasta de muita tecnologia nas mãos de quem não consegue compreendê-la, e que supõe, de modo ingênuo, que nossas conquistas cientificas foram simples e fáceis e realizadas em uma década, ou menos até.

Tal como crianças pequenas que não sabem os esforços e o cansaço envolvidos em mantê-los aquecidos, saudáveis e alimentados, grande parte da humanidade se comporta, nas palavras de um pensador contemporâneo, como se tivesse apenas direitos e não deveres.

Voltando ao tema, muitos querem da mesma forma ser mestres sem ter o que ensinar a alguém, sem estarem prontos para assumir a responsabilidade por um ou muitos discípulos. Esta relação, que configura um laço, um envolvimento que ata professor e aluno, torna esse exercício difícil, às vezes angustiante. Pode ser, entretanto, extremamente gratificante, se redunda em algum tipo de retorno, se o mestre divisa na face do aluno aquele lampejo que denuncia ter ele compreendido e absorvido o conceito estudado, fato em si suficiente para fazer o dia ou a semana de qualquer professor.

A maestria é, pois, um serviço, uma função social e humana, uma profissão. Não deveria ser um instrumento de vaidade, algo para aumentar o ego de quem não tem um conteúdo solido sobre nada.

Hoje, após seis décadas nessa encarnação, sei como é bom ser discípulo, como é confortante ter alguém que nos auxilie e inicie nos conhecimentos ainda desconhecidos. Sei também, com absoluta clareza, que não tenho merecimento nem para ser discípulo, e quando falo em merecimento não me refiro a aspectos éticos ou morais, mas à um conjunto de condições neurológicas que me permita absorver de modo rápido e eficiente os ensinamentos necessários acerca de qualquer assunto estudado.

Essas condições são docilidade ao receber a informação, capacidade de concentração suficiente, uma mente pragmática, uma memória privilegiada, energia e determinação para reler os textos e rever os conceitos ainda não totalmente compreendidos.

Sempre fui um analítico nato, e embora isso me confira um caráter reflexivo me faz, da mesma forma, um argumentador incontrolável, que, pelo menos no passado colocava em estado dialético cada ideia, cada informação. A docilidade citada acima permitiria que primeiro a informação fosse absorvida para depois ser analisada, como a comida só pode ser digerida depois de ser deglutida.

Hoje posso dizer que graças ao amadurecimento já não discuto tanto com as informações como antes, já mastigo mais as ideias e as engulo com calma, sem desconfianças ou rejeições automáticas, sistemáticas.

Embora não possa dizer que dominei a arte de escutar, hoje escuto mais do que falo. Tenho sincero desejo de compreender o interlocutor, quando a sua fala me causa interesse ou curiosidade. No caso de nem  uma coisa nem outra, aprendi a ser polido e não contra argumentar.

Isso já foi um grande alívio, psicológico e emocional.

Repito, estou me esforçando para aprender a arte de ser discípulo, não mestre. Querer ser mestre é uma bobagem. Ser um bom aluno, isso sim é uma meta factível, sensata.

“Não sou nada, nunca serei nada…” lembrava brilhantemente Pessoa. E completava que “à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Sim, todos temos em nós a natureza da água do oceano, gotas que somos, mesmo assim somos apenas gotas, aprendendo a manifestar a água em nós, libertando-nos da impressão falsa de que somos algo mais que água ou diferente da água.

A capacidade de se concentrar é outro aspecto delicado. Principalmente quando a emoção mostra seus dentes, manter-se focado é difícil. Como agora em que escrevo enquanto no quarto ao lado meu idoso pai, doente, parece ter desistido de lutar e piora dia após dia, o que embora não me surpreenda, me entristece. Não é a morte física, a saída de um corpo já inadequado, que me aborrece, mas o desconforto logo antes disso.

Aos 96 anos ninguém deveria sentir dor ou falta de ar. A vida física deveria extinguir-se lenta e delicadamente, sem sofrimento. Nem sempre no entanto é assim. Nestes dias de peste, muitos amigos nos deixaram sufocando nos leitos de hospitais. Notícias chegam a todo momento de pais de amigos internados, desencarnando. Meu pai não tem COVID, mas está triste, diabético, com o coração fraco, e triste pela morte de minha mãe mês passado, ela sim de complicações tardias do COVID.

É um período difícil, como são todos os períodos no corpo.

Dentro desse contexto, escrever esse artigo exige capacidade de manter o foco independente de outros acontecimentos como monitorar as necessidades de um pai doente.

A mente pragmática, terceira condição do discipulado, é aquela que sabe das dificuldades e dos problemas a serem enfrentados, mas enfrenta-os um de cada vez dentro de suas possibilidades, dividindo as tarefas cartesianamente em partes para depois ir eliminando uma a uma. Se for interrompida, deixa marcada a fase em que parou de onde poderá retomar o trabalho quando puder.

Esse tipo de comportamento não pressupõe apenas capacidade intelectual, mas antes de tudo serenidade interior para seguir os passos um a um, independente das já citadas distrações que a vida nos traz.

Nem todo discípulo aceito pelos mestres da Fraternidade Branca eram portadores dessa serenidade. Quem ler Cartas dos Mahatmas, livro teosófico que narra os primórdios da Sociedade Teosófica, verá que Blavatsky teve serias crises emocionais em função das falsas acusações de que foi vítima e que caíram por terra apenas 100 anos depois de terem sido feitas, por intermédio da mesma instituição que as tinha feito.

Mesmo assim era ela uma das discipulas aceitas por Morya porque sua lealdade e determinação eram indiscutíveis e ao que tudo indica, estas eram as mais importantes qualidades para eles naquela época.

É claro que em um cenário ideal não deveria ser assim, mas devemos ter em mente que somos seres humanos, não conceitos.

Nossa vida e nosso karma, via de regra, não são uma linha reta, mas um traçado instável, oscilante, em que equilibrado é aquele que oscila menos e não aquele que não oscila.

Quanto a memória, quando a classifico em privilegiada, não me refiro a característica comum de reter dados e evocá-los quando necessários.

Por privilegiada refiro-me a qualidade de não repetir erros de natureza emocional e psicológica uma vez que tenhamos sofrido com eles.

Aliás, o sofrimento, este sim é um grande mestre, pois fixa em nossos engramas os eventos que nos causaram dor e desconforto para que instintivamente fujamos de episódios semelhantes. O que sucede é que muitos, por não aprofundarem suas avaliações íntimas, por não, digamos assim, fazerem o dever de casa, acabam se enredando em situações afetivas semelhantes seja no relacionamento com terceiros, seja no relacionamento consigo mesmo. Essa pessoa não terá a tal serenidade citada antes por não ter resolvido questões de caráter íntimo e não por lhe faltarem qualidades intelectuais.

É privilegiada a memória daqueles que erram uma única vez, já que a “desgraça dos homens é esquecer”.

Já energia e determinação no estudo são qualidades que andam lado a lado, já que uma depende da outra.

Lembro-me quando era uma criança no subúrbio que ficava fascinado com pessoas que tinham bicicletas com um dínamo atrelado ao pneu da frente. O movimento do pneu fazia com que a borracha roçasse o dínamo que então girava levando energia elétrica para o farol da bicicleta.

A energia e a determinação em pedalar andavam juntas e sem um movimento contínuo do ciclista o pneu não rodava e o dínamo não funcionava, mas se fosse o contrário a luz do farol ia bem longe e o caminho era mais seguro.

Textos esotéricos, como todo texto obscuro, demandam paciência e calma em sua interpretação. Sem energia a luz sobre estes textos não brilhará. Só pela leitura repetitiva e contínua conseguimos gerar condições de compreensão. Muitas vezes, uma repetição monótona, mas absolutamente necessária, como o movimento dos pedais da bicicleta.

Docilidade, capacidade de concentração , pragmátismo, memória, energia e determinação , somados, levam inevitavelmente à discrição e à humildade. Discrição porque são tantas e tão especificas as informações que poucos serão aqueles com quem o discípulo poderá dialogar satisfatoriamente e humildade porque qualquer um que se dedique de maneira sincera ao estudo perceberá eventualmente o tamanho de sua ignorância. Por mais que leia, por mais que estude, jamais imaginará este disparate de que se tornou um mestre ou coisa que o valha mesmo que muitos possam considerá-lo como tal.

Todas as pessoas sensatas conhecem a armadilha psicológica por trás dos elogios e dos títulos e talvez o de mestre seja um dos mais perigosos, já que o tolo se supõe no direito de exigir daquele que ele considera um mestre um comportamento e uma infalibilidade inexistente entre seres humanos, mesmo entre os altos iniciados, os Devan Choan.

A Adulação precede a cobrança e a cobrança, não satisfeita, leva à frustração e ao ódio. Lembrem-se, o ser humano infantil, como disse, é alguém que acha que tem apenas direitos e não deveres.

Por isso a discrição. Não se trata de querer esconder o que em si não pode ser ocultado. Trata-se de fugir dos equívocos e das armadilhas dos relacionamentos humanos, talvez a pior delas aquelas em que milhares de pessoas querem um mestre pra chamar de seu e para ele transferir a responsabilidade de viver por eles aquilo que é obrigação de cada um passar.

Todos temos nossa dor, mas é exatamente ela que nos ensina e nos motiva, que nos empurra para a frente e nos aperfeiçoa. Em silencio, sem drama, o desconforto vai nos manipulando e moldando nossa personalidade, tornando-nos mais e mais flexíveis. Como a água que se adapta a diferentes recipientes.

Não somos nada a não ser água, uma mera gota d’água com a presunção de ser independente da massa do oceano da qual salta e para a qual retorna.

Não sou nada, nunca serei nada. Contentar-me-ia entretanto em ser um bom discípulo, um dia, quando assim for possível.

Paciência.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A INVEJA DA CIÊNCIA

 

Por Mario Sales

 

"Acreditar é mais fácil do que pensar. Daí existem muito mais crentes do que pensadores."

 Bruce Calvert

 

 




Estava assistindo há pouco um vídeo de Luiz Felipe Pondé, publicado hoje no YouTube, que pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=Gop0glAD_AA

quando lá pelas tantas, ele traz a reflexão de que em função do mal estar da civilização “quer se associar física quântica em espiritualidade”.

Embora repetitivo, trata-se de um tema que não me parece ter ainda atingido o núcleo das mentes envolvidas, seja como espectadoras de um discurso equivocado de associação arbitraria entre ambas as coisas, seja como enunciador desse discurso.

Não vou dizer que quem ouve e crê em tal disparate tenha má-fé. Sofre apenas da proverbial ingenuidade crítica acerca do papel da ciência.

O autor do discurso, sejam os que veiculam via internet este conceito absurdo, sejam aqueles que lucram financeiramente em encontros de fim de semana com títulos pomposos onde a palavra “quântica” assume o papel de adjetivo polivalente de coisas etéreas e pouco claras, qualquer um que use tal interpretação, nada tem de ingênuo. Talvez não conte nem pra si mesmo que está apenas trabalhando sua habilidade com as palavras para iludir a boa fé de incautos disponíveis, mas o fato, a rigor, é que se trata de um charlatão, de um canalha se me permitem o termo, que sabe muito bem como manipular a ignorância ou a fé alheia.

Não existe nada que proíba o uso da interpretação de conceitos de forma livre e plural. É da natureza da consciência humana atribuir sentido as coisas do mundo, como lembrava Edmund Husserl.

O que me aborrece profundamente é ver, por um lado, pessoas mal intencionadas iludindo pessoas de pensamento pouco crítico, e por outro, pessoas de boa índole sendo iludidas por estes charlatães.

Existe, desde há muito, uma certa impaciência entre pessoas de pensamento pouco elaborado.

Elas querem, como todos queremos, respostas. Mas a diferença entre mentes cientificamente educadas e outras mentes não é, como alguns crêem, a cultura específica, não é a erudição, mas sim a capacidade de suportar a própria ignorância e a perseverança em buscar fatos que sustentem de modo indiscutível, suas suposições.

Um cientista, digno desse nome, precisa de duas qualidades fundamentais para exercer sua profissão: determinação na busca por informações e paciência para suportar o tempo da busca.

Um homem ou mulher de ciência não pode ser uma pessoa precipitada, alguém que aceita com rapidez e docilidade quaisquer ideias como expressões da verdade. O pensamento crítico não é uma barreira contra o conhecimento, mas a peneira que separa o ouro da areia nas águas da informação.

Os místicos não estão isentos da responsabilidade de pensar. Os místicos não podem se permitir uma tal irresponsabilidade.

Dócil deve ser o espirito apenas à vontade do altíssimo, não às afirmações arbitrárias de quem quer que seja, principalmente daqueles que tem habilidades discursivas, que falam bem e aparentemente possuem encadeamento de idéias.

A língua se movimenta como a serpente, de forma as vezes rápida, as vezes lenta, mas em oscilações constantes. Essa, a meu ver, deveria ser a associação simbólica com a serpente do éden, no mito judaico da criação no Éden.

A palavra é a verdadeira manifestação da magia. Encantamentos, feitiços, na história do ocultismo, sempre foram pronunciados, falados, e a associação, do ponto de vista representativo, é perfeita.

Contra o poder mágico da palavra surge a verificação experimental, a paciente busca por comprovações práticas ou ao menos matemáticas das afirmações que saem, sem esforço, pela boca.

É por isso que bons e maus ocultistas têm essa conhecida inveja da ciência. Atacam-na permanentemente, chamam-na de lenta, demasiadamente cética, acusam-na de ateísmo e de falta de flexibilidade. Partem do princípio, ingênuo, de que a natureza humana permite que olhemos o mundo sem cuidado, que não verifiquemos todas as informações que nos chegam, na maioria das vezes como produto de crenças pessoais descritas com beleza as vezes, com elegância linguística, o que necessariamente não significa que tragam em si a verdade.

E por ser a promotora da melhoria da qualidade de vida social com a tecnologia e os procedimentos médicos que geram saúde e a maior quantidade de seres humanos vivos simultaneamente na historia conhecida, graças aos antibióticos e os avanços da higiene, a ciência, esta paciente senhora, é atacada mas também invejada, a ponto de que, sabedores da importância que ela transfere às suas informações e afirmações, todos, ocultistas sérios e charlatães, querem dar as suas próprias elaborações aspecto científico, seja afirmando que tem “provas” do que afirmam, seja atribuindo aos seus delírios nomes oriundos do trabalho cientifico, como “relatividade”, “quântica”, e outros.

Mais: é comum vermos uma vitimização dos místicos em relação aos cientistas, alegando que esses “seres insensíveis” não crêem em suas informações apenas por falta de compreensão. Às vezes mesmo alegam que são perseguidos por suas crenças.

Essa tolice não se sustenta. Homens ligados ao ocultismo, mas com formação cientifica, como Papus, o medico Gerard Encause, já em 1900 lançava já por terra a noção de que, para a ciência contemporânea, interesse perseguir algum místico, como nas épocas de séculos atrás, da inquisição católica.

Dizia Papus: “Não importa que um não iniciado tenha acesso a textos esotéricos. Se os ler, não se interessará; se se interessar, não compreenderá o que está escrito; se compreender, não acreditará.”

Assim, embora a ideia de que alguma força real ameaça a prática e o estudo místico seja atraente e romântica, hoje a única coisa que nos cerca e, ao mesmo tempo que nos combate, nos protege, é o desprezo pelo discurso místico esotérico, considerado por alguns obsoleto e por outros totalmente descabido e absurdo.

Isto não quer dizer que não exista uma enorme multidão disposta a crer em qualquer coisa que pareça verossímil, desde que não implique muitos anos de estudo ou muitas leituras. De preferência explicações e soluções fáceis para problemas complexos, que pareçam retirar de nós o ônus de viver e assumir nossas responsabilidades kármicas, intelectuais e sociais.

Atacar a ciência, mas parecer científico, este é o lema.

Algumas nobres ordens buscaram romper com essa estratégia, mas aos poucos sucumbiram ao apelo fácil de vender crenças, não conhecimento.

Essa é a suprema iniciação, conseguir aliar em um só individuo capacidade reflexiva e docilidade espiritual, que não são como querem nos fazer crer os charlatães praticas incompatíveis.

Crer, por crer, sem qualquer critério analítico, é apenas ser ingênuo, um religioso, não um místico, o que não é em si certo ou errado, pois o verdadeiro religioso em êxtase na sua adoração ao Ser Divino, não procura iludir os outros pela palavra, mas vive o seu exemplo em sua própria vida, como Jesus, Paulo apóstolo, Lahiri Mahasaya, ou Ramana Maharishi.

O místico esoterista, entretanto, herdeiro dos alquimistas, dele se espera mais discernimento, mais seriedade, tanto no que fala como no que considera certo escutar e repassar adiante.

Discernimento é aliás exigido de todos, desde os tempos imemoriais do início da prática da Yoga, e tem inclusive um termo em sânscrito que o designa: Viveka.

Esta piada de mau gosto do “misticismo quântico” ou de que ciência e misticismo são inimigos, precisa acabar.

PS: Agradeço a contribuição de Flavio Bazzeggio que manda o link de comentário de Marcelo Gleiser pertinente ao assunto tratado: https://youtu.be/ckPQT6wLEf4

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

CLARICE


Por Mario Sales



 

“De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio. O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez”.

Clarice Lispector, in “O Ovo e a Galinha”

 

Foi por esse texto, “O Ovo”, que conheci Clarice, lá se vão 45 anos.

Sua relação peculiar com a percepção, essa forma estranha de olhar as coisas, imediatamente me encantou.

E aí qual seria o próximo passo? Mergulhar em seus textos, Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A Mação no Escuro (1961), A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), Um Sopro de Vida (1978).

Nestas quatro décadas, no entanto, tudo se resumiu aquele primeiro encontro, àquele primeiro impacto, e mais nada. Dialoguei com outros estudantes da percepção, principalmente da área psicológica e filosófica, Freud, Rogers, Alexander Lowen, Osho; Kant, Schopenhauer e Nietzsche.

Por algum motivo que so posso atribuir a minha habitual descontinuidade em projetos de médio e longo prazo, Clarice dormiu em uma prateleira por mais de 40 anos.

Mesmo na área poética outros ocuparam um lugar mais destacado, como Fernando Pessoa, Vinicius de Morais, Manoel de Barros, Cora Coralina e Adelia Prado. Clarice não.

E agora, como por acaso, a Rocco publica um volume denso com correspondências pessoais dessa ucraniana recifense, que até a sua morte carregou o sotaque típico pernambucano, como mostra em sua última entrevista gravada e disponível no YouTube. (https://www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU)

Neste livro, “Todas as Cartas”, pode-se testemunhar o carinho e a relação afetiva entre ela e suas irmãs, seu namorado, depois marido, seus amigos.

Cartas assim eram documentos perigosos. Elas eram reveladoras porque escritas a mão.

 


Havia na época pré teclados um vagar na elaboração da idéia que os textos digitais hoje às vezes nos roubam. 

As cartas eram redigidas com prazer e relaxamento, já que não havia a necessidade do rigor dos textos racionais, principalmente aquelas dirigidas aos nossos entes queridos. 

O afeto e o carinho nos deixam desarmados, sem defesas. Escrevemos com uma sinceridade inocente, principalmente quando escrevemos a mão. E então, cartas são exercícios de associação livre de ideias, bem ao estilo da psicanálise primitiva.

Passamos de uma ideia a outra, eventualmente tocando, como que sem querer,  no coração de nossas questões mais importantes, no centro de nosso amago.

Foi assim com este livro.

As cartas de Clarice revelam, sem o desejar, o lado mais profundo de seu ser, sua alma e corpo, sua região abissal.

E uma única linha perturbou-me demasiado.

Está na carta a Tania Kaufmann, escrita na Fazenda Vila Rica, no Estado do Rio, em 1942.

Começa de modo prosaico, com o habitual “Alô queridíssima”, e algumas linhas abaixo explode em uma constatação que para mim foi como “um tapa na testa”, como diria um leitor de Masaharu Taniguchi, o fundador da Seicho No Iê. 

Diz ela: “…Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor.”

Exato. É exatamente assim que sinto.

 

Estátua de Clarice no Recife

Tal identidade de intenções tem a característica dos pertencimentos, das especificidades que criam entre os seres humanos nichos em que grupos de pessoas que talvez nunca venham a se encontrar ou se conhecer, habitam, simultaneamente ou não.

É isso que chamamos Dharma no hinduísmo, a missão de nossa vida, aquilo que viemos fazer no mundo.

Não podemos trair o Dharma sem que isso nos traga dor, sofrimento. Existe outro nome para Dharma, desta vez na filosofia grega: physys. Diz, sobre este conceito, Miguel Spinelli: "tudo o que nasce está destinado a ser o que deve ser e não outra coisa.”

Isto é a natureza verdadeira da existência e de cada ser

Isto é Dharma. O caminho. Seu caminho. 

E existe um caminho determinado para cada indivíduo, cada espécie biológica, cada manifestação cósmica.

Para Clarice, o Dharma era escrever.

Eu entendo isso. 

Existem sim, coisas que dão sentido à existência e que, quando as fazemos, sentimos uma intima satisfação, certos de que estamos cumprindo nosso papel, explicitando aquilo que está em potencial dentro de nós.

Identifico-me com essa ideia. Meu Dharma é o mesmo. Parafraseando Elis Regina, a maravilhosa intérprete brasileira que desapareceu de modo tão precoce, “não vejo graça em mais nada na vida” senão em escrever.

É quando me sinto desarmado, calmo, sereno, produtivo, realizador, sem receios de críticas ou avaliações. 

Escrever, pra mim, seja sobre o que for, traz a atmosfera que descrevi no ato de redigir cartas a mão como Clarice em 1942, ou eu mesmo, até 30 anos atrás, antes destas modernidades informáticas, que me livraram do horror da minha caligrafia, mas, de forma sutil, tornaram, salvo equivoco, meus textos mais frios, menos emocionais.

Talvez seja coisa da idade essa falta que sinto do barulho dos tipos batendo no papel nas antigas máquinas de escrever, as mecânicas, claro, não as elétricas.

Teclados de computador são educados, polidos.

Não existem ruídos de impacto, não existe o som da campainha tão bem representado por Jerry Lewis em uma sátira famosa no cinema.

Escrever agora, é um ato silencioso, “clean”.

Clarice não viu essas contemporaneidades.

Morreu em 1977, quando eu estava no primeiro ano da faculdade de medicina, em Campos dos Goytacazes, no norte do Estado do Rio.

De repente, lendo suas cartas, e essa linha que destaquei, sinto sua falta, dessa companheira de Dharma e amiga querida que nunca conheci e cuja mão nunca apertei, mas que sabia, como eu sei, que “escrever é a coisa que mais desejo no mundo”.