Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 4 de junho de 2011

ARISTÓTELES E A SERPENTE


por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:;M.:M.:







Coloquei no título do blog a imagem de Shiva, deus da renovação e princípio da transformação de tudo que existe.
Chama atenção a serpente enrodilhada em seu pescoço. Nathalia, minha filha, percebeu e perguntou.
"Porque uma serpente?",quis saber.
Respondi que a serpente na cultura indiana representava a energia Kundalini que dorme na base da espinha dorsal, para mim no gânglio ímpar do cordão do sistema nervoso simpático ou autônomo.

Na tradição do Yoga esta energia uma vez desperta, sobe até o chakra da coroa e desce abrindo este e os outros abaixo dele, um a um, transformando o indivíduo em um semideus.
Concluí a conversa dizendo que isto significa que a energia que nos transforma em semideuses vem de baixo e a serpente é um animal da terra, telúrico, e que por isso serve bem para representar o conceito de Kundalini.
Foi neste momento que caí em mim.
Havia dito uma verdade bombástica de modo descuidado.

A energia que nos liberta da servidão e da doença, que nos eleva fisicamente a uma condição de força mental e vigor físico indescritíveis, vem da terra, não do céu.
Talvez por isso havia e ainda há tanta precaução na iniciação desses ensinamentos se bem que não creio em monstros desde que me tornei adulto e creio que nem um fósforo é riscado sem que Deus permita.

Se alguém modernamente conseguir este tipo de iluminação kundalínica, isto não ocorrerá apenas graças a sua vontade e esforço, sempre fundamentais, mas também a autorização do Alto.
De qualquer forma, esse comentário, lembrando que aquilo que nos transforma em deuses vem da terra, vem de baixo, para só depois ascender e tornar a descer nos libertando-nos da dor e da morte física é, filosoficamente, instigante.
Deste lado do planeta, onde se vive sob a égide do discurso Paulino, da recomendação religiosa de ser manso e frágil, para ser digno da graça, é nítido o contraste com a doutrina védica onde o poder vem das energias telúricas, onde mais importante que uma vida moral é a combinação de aspectos mentais e físicos, e eu vou repetir para enfatizar, físicos, como o domínio da respiração, os pranayamas; o domínio da digestão, com os bhandas; enfim o domínio sobre o corpo, com a Hatha Yoga.



Abraham Maslow, modernamente, em psicologia, reforçou esta perspectiva com sua pirâmide de necessidades.





Sim, a mente também será objeto de atenção, mas não apenas de modo filosófico especulativo, não através da doutrinação com discursos morais e repressivos, mas através de práticas respiratórias, principalmente por inibição do processo de respiração inconsciente disciplinando-o com khumbakas (apnéia) em rechaka (expiração) ou puraka (inspiração), sempre seguindo o protocolo de que a respiração e o pensamento são a mesma coisa e a velocidade do pensamento e da respiração também.

É no domínio do corpo, o telúrico corpo que carregamos, que melhoramos nosso desempenho espiritual e mental. Esta é uma perspectiva absolutamente anti aristotélica. A evolução não vem do alto, mas de baixo, como a serpente no pescoço de Shiva, na imagem. Para quem acha que mistcismo é apenas discurso e teoria esta é uma lição preciosa. Uma lição que vem do Oriente. Mais uma.
Por isso se diz que "a luz vem do Leste".