Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

QUASE 20000 DIAS



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

“Para mim a espiritualidade só tem significado
quando tem a ver com a vida concretamente vivida.”

Lorenz Marti[1], in “Como um místico amarra os seus sapatos”

Lorenz Marti

Tenho em mãos um livro pequeno e com uma capa quase infantil. Seu título é “Como um místico amarra os seus sapatos”.
Seu autor, um suíço com graduação em Filosofia da História de Ciências políticas, no entanto, escreveu uma pequena obra prima.
Este livro tem passeado pela minha pasta e depois no meu carro, sempre na ilusão de que naquele dia, um tempo vago, que nunca vem, permitirá a leitura de algumas páginas, de alguns capítulos, talvez. Hoje deu tempo. 12 graus, muita gente faltou. Aproveitei.
São capítulos pequenos, objetivos, ricos de uma espiritualidade não ideológica, preocupada exatamente com o sentido do misticismo no mundo.



E o misticismo, eu concordo, só tem sentido, quando está relacionado à existência real.
E ele diz mais acerca da espiritualidade. Diz ele “A partir de suas raízes hebraicas, a palavra espiritualidade agrega os conceitos de espírito, amplitude e vento. O vento sopra onde quer. Não se deixa planejar, organizar, dominar. Sua força movimenta, derruba ordens estabelecidas, abre espaço para o novo.”
O novo. Como o místico e o misticismo precisam do novo.
Não mudar as tradições, mas a expressão lingüística destas tradições. É preciso atualizar a linguagem, é preciso modernizar a didáticas destes ensinamentos.
E embora as palavras do Mestre para os pescadores ainda sirvam muito bem em nossos dias, nem todos os textos místicos são parábolas. E quando são, na maioria das vezes não são tão boas.
Didática é inovação.
É preciso soprar as narinas da tradição com o sopro da vida para que não seja casca morta e sem valor.
O texto de Marti é um desses sopros.
No capítulo " Do não saber ao não saber", Marti fala sobre a sua vida e o tempo. Cita que "hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. O primeiro dia! E pensar que já se passaram quase 20000 dias."
Parei pra fazer as contas. Também eu me aproximo dos meus 20000 dias neste corpo atual. Mais 25 dias terei completado minhas duas dezenas de milhares de dias errando, acertando, vivendo enfim.
O primeiro dia. Espero que eu possa absorver o espírito da novo, sentir-me recomeçando a encarnação como Marti sugere. 
Talvez este senso de renovação seja a iniciação mais importante da existência.



[1] Lorenz Marti nasceu em 1952. Formado em Filosofia da História e Ciências Políticas, é colaborador de "Redação Religiosa" na Rádio Suíça e mora em Berna. É autor também de Wer hat dir ded Weg gezeigt? Ein Hund! (Quem mostrou o caminho? Um cachorro!), que será também publicado pela Editora Vozes