Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 28 de setembro de 2013

AINDA A DOUTRINA SECRETA

por Mario Sales, FRC,SI,CRC





A edição da Editora Pensamento e a tradução de Raymundo Mendes Sobral, da Doutrina Secreta de Madame (a pedido de Amadeu) Helena Petrovna Blavatsky, feita em 1973, (mesmo considerando a generosidade e a falta de interesse comercial do tradutor, que, segundo consta, doou os direitos a Editora em questão), é uma das piores elaborações que eu já tive acesso. O descuido está presente em quase todas as páginas, e o tradutor, justiça seja feita, não tem responsabilidade por todas as falhas. Nota-se, muitas vezes, a falta de um revisor competente para que a impressão não saísse cheia de equívocos e deslizes.
Em um esforço tipico de rosacruzes em todos os séculos, lemos , eu e Flavio, ontem a noite, o capítulo XI, aqui chamado seção, que tem o título de "Demon est Deus Inversus" do segundo volume, denominado "Simbolismo Arcaico e Universal", (um sonho de outro contemporâneo de HPB, Jung, na sua intenção de estabelecer as bases planetárias do arcabouço simbólico humano, sintetizado na obra, hoje rara, "O Homem e seus Símbolos", se bem que com intenções terapêuticas e antropológicas e não esotéricas).



Queria primeiro declarar que este capítulo, bem como o anterior, o X, intitulado, "O Culto da Árvore, da Serpente e do Crocodilo", foram, até agora, sem comparação, os mais bem traduzidos, e os que mais sentido fizeram, deixando transparecer um raciocínio linear e encadeado na maioria dos parágrafos. É possível inclusive ver a tão propalada variação de estilos que os estudiosos atribuem, não ao caos de informações da cabeça de Mme (sempre atento ao pedido de Amadeu) Blavatsky, mas sim à interferência simultânea de três mentes , Morya, Saint Germain e Ku-Thu-Mi na escrita da esoterista. Antes , pelas dificuldades de leitura provenientes de uma tradução feita de maneira pouco criteriosa, era impossível, em certos trechos, entender como a autora tinha chegado a certas conclusões ou porque mudara de assunto bruscamente.
Nos capítulos (seções) X e XI isto não acontece. 
Conseguimos ler 13 ou 14 páginas sem grande esforço, e com um grau de compreensão satisfatório, tanto que esgotamos em cada reunião, primeiro na quarta e depois ontem, sexta feira, um capítulo por noite.
O que salta aos olhos nestes capítulos são os erros de revisão, como na página 121, quando ela comenta:
"Em toda parte as especulações dos cabalistas conceituam o Mal como uma Força que é contrária, mas ao mesmo tempo necessária e essencial ao Bem, dando-lhe existência e vitalidade, que de outro modo não poderia ter."
E continua ela:
"Não haveria Vida (assim mesmo, em maiúscula)[1]possível (no sentido mayávico) sem a Morte; regeneração e reconstrução sem a destruição. As plantas (prestem atenção agora) pareceriam sob um a luz solar eterna, e o mesmo aconteceria ao homem...".
Entendemos imediatamente que em vez de pareceriam, o revisor deveria ter colocado pereceriam, mas aqui ainda foi fácil perceber este deslize.
Mais a frente, na página 123, no primeiro parágrafo, lemos o seguinte trecho:
"Pulastya, diz nosso Abade, mora em Kedara, palavra que significa "um sítio cavalo"(!?), uma "mina", e a tradição e a Bíblia ensinam que Caim foi o primeiro trabalhador em metais, isto é, mineiro!"
"Sítio cavalo"? Alguns segundos de perplexidade e compreendemos que tratava-se de "sítio cavado", aonde um L substituía o D. 
E fez-se o Caos na cabeça de dois pobres e dedicados leitores noturnos.
Pode parecer uma crítica banal, mas considerando a complexidade da leitura, o cansaço mental que estas idas e vindas do discurso blavatskyano causam, erros como estes ganham uma dimensão mais significativa, pois confundem o estudo e o raciocínio de modo mentalmente doloroso.
Na mesma página, mais abaixo, citando o Vishnu Purana, -I, págs 7-8, lê-se:
"...Os... sábios evitam a cólera; não te deixes, filho meu, dominar por ela. Não permitas que esses inofensivos (grifado no texto em itálico, o sublinhado é meu) espíritos das trevas sejam molestados ( sublinhado por mim) ; que o teu sacrifício cesse. A misericórdia é o poder dos justos"
Ora, se a intenção de Vasishta, avô e conselheiro de Parâshara, é livrar seu neto da preocupação com a influência maligna e encolerizadora de espíritos inferiores, mais sentido faria se dissesse " Não permitas que esses inofensivos espíritos das trevas o molestem..." e não "sejam molestados", como se, ao contrário, protegesse os inimigos de seu neto, Parashâra, que queria vingar seu pai, devorado por aqueles demônios chamados pelo avô "inofensivos espíritos".
Mas isto aparece no texto de forma discreta e se não fosse a seriedade com que fazemos a leitura, a dois, não perceberíamos.
Repito, estes dois capítulos, X e XI, são os mais bem traduzidos e revisados dos dois volumes, a meu ver, até agora. E ainda assim temos que lidar com estes pequenos percalços, que embora pequenos, são chatos e incômodos para quem lê interessado em entender.
Como mais a frente , na página 126, aonde, no alto da página lê-se:
"(Cronos, com sua foice, corta até mesmo os ciclos mais longos, que para nós são como se não) tivessem fim, mas que , não obstante, são limitados na Eternidade; e com a mesma foice destrói os rebeldes mais aguerridos. Sim, não há um só que escape a foice do Templo!"(???)
Não era "Templo" a palavra correta, mas "Tempo", mas este L intruso, e não revisto, foi parar no meio da palavra correta, mudando todo o sentido da frase.
Recebi emails aqui no blog de Teósofos e estudantes de Teosofia que dizem que está em processo uma nova tradução, revista. E que o texto base desta tradução que estamos lendo, a única em português, não é aceito nem mais em Adyar, sede da Sociedade Teosófica, por conter intromissões inadequadas (SIC) de Annie Besant. Essas informações estão mais detalhadas no site http://lua-em-escorpiao.blogspot.com.br/2012/12/doutrina-secreta-resumida-e-anotada.html.
Ali, em artigo publicado em dezembro de 2012 fala-se que "...Em novembro último, a editora brasileira Pensamento lançou no mercado a tradução da versão resumida e anotada d’ “A Doutrina Secreta”, a magnum opus de Helena Blavatsky. Originalmente lançada nos EUA em 2009, esta versão é da responsabilidade do historiador Michael Gomes." 

Michael Gomes

Boa notícia. Comprarei o livro ainda hoje. E paciência. Até aqui, existe mais lucro que prejuízo em nosso esforço, já que a maioria dos esoteristas comentam livros e conceitos sobre os quais nunca leram, e isto prejudica a qualidade do debate. É preciso mais seriedade nos eruditos esotéricos, até para realizar um esforço didático de síntese desses conceitos, que há muito precisam de novas roupagens, para serem compreendidos pelas novas gerações, seja para serem rejeitados como descabidos, seja para serem aceitos com visões extremamente profundas e diferentes de nossa realidade.
Não importa. Para aceitar ou recusar, antes é preciso entender o que foi dito. Com textos confusos e mal revistos isto é muito difícil, exige paciência e uma disponibilidade psicológica que a maioria das pessoas não tem e não quer ter, nessa época de imediatismos e superficialidade. E isto afasta muitos que poderiam contribuir e acelerar as revisões de textos, bons ou maus, fundamentais para se entender a história do esoterismo, como a Doutrina Secreta de Madame (como Amadeu pede) HBP.
nota: recomendo, para quem lê francês : http://www.esoteric-philosophy.com/2011/01/extracts-from-private-letters.html


[1] comentário meu.