Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 29 de setembro de 2013

PALAVRAS

por Mario Sales,FRC, SI, CRC



Falamos para descrever o que pensamos. A fala representa, através de símbolos compostos de letras e palavras de uma língua, as idéias que a mente produz em seu exercício de imaginação, linear, encadeado, ou não.
A imaginação, como o nome diz, não produz palavras, mas imagens. Todo escritor é um descritor.
E o que ele tenta descrever é uma imagem, dinâmica como um filme, ou estática, como uma fotografia.
A palavra desencadeia vibrações no ar em volta daquele que a profere.
Estas vibrações, quando chegam aos ouvidos de outras pessoas e são devidamente decodificadas, desencadeiam por sua vez reações emocionais.
Os Magos acreditavam poder desencadear  os mesmo efeitos emocionais em seres invisíveis, através de palavras especiais, que representavam idéias e convicções conhecidas em conjunto pelo nome de Ocultismo.
A palavra, naquela época, no período entre o século XV e XVIII, era o mais importante instrumento do Mago.
Ele a usava de modo especial, em orações, invocações, instruções ao mundo invisível que, em sua concepção, conseguiriam mobilizar energias e seres que, em contra partida àqueles estímulos, materializar-se-iam em cerimônias complexas e confusas, às vêzes solitárias, às vêzes coletivas, com resultados nem sempre satisfatórios ou confiáveis.
Acreditava-se que quanto mais espetacular fosse a manifestação do invocado, mas confiáveis e poderosas seriam as suas declarações, e uma vez que alguém estivesse de posse destas, teria em suas mãos um conhecimento diferenciado que lhe daria uma visão da vida ou do Universo mais completa e mais profunda.
Considerando a qualidade de vida daqueles que enveredaram por este caminho e que deixaram registros pesquisáveis, na verdade nem sempre, ou melhor, frequentemente , as coisas não eram bem assim.
É como entrar num espetáculo de Ilusionismo ou num balé de dezenas de participantes e supor que após maravilhar-se com as cenas e os truques ou com a música e o desempenho dos dançarinos, sairíamos dali, necessariamente, seres humanos mais místicos ou mais maduros.
Não, a grandeza de um espetáculo não representa sua importância pessoal para cada um que o assiste.
E assim as palavras foram aos pouco emudecendo para dar lugar as imagens que elas representavam. Houve um inversão de sentido e se antes os Magos se esmeravam para comentar em voz alta seus presságios e invocações, na virada do século entenderam aquilo que o Oriente já sabia: é cuidando do Interior que se produz poder e sabedoria, é ouvindo a voz que vem do coração para a cabeça, a mesma cabeça que, através da mente, produz imagens captadas pela sensibilidade, que realmente alteramos a realidade que nos cerca.
Assim, o Ocultismo, baseado em fórmulas e palavras, exteriorizado como um espetáculo grandioso, de luzes e cores, de símbolos, transformou-se no exercício interno e silencioso do auto aperfeiçoamento, da busca pela construção íntima de uma consciência, de si mesmo e de tudo que nos cerca, mais ampla e mais profunda.
Li uma frase atribuída a Jung, que independente da autoria, é muito bela. Diz que "quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta."
Nenhuma síntese poderia ser mais bem feita do que hoje chamamos de O Trabalho Místico.
A Palavra, hoje, ainda tem, entretanto, poder. Ela revelou-se como instrumento mágico por outros modos, na indução política das massas, na indução comportamental de um indivíduo, na expressão da Fé dos religiosos.
A Palavra é o conceito congelado, o pensamento audível.
A Palavra desencadeia reações físicas, arrepios, lágrimas, palpitações. Ela é um instrumento de poetas, cantores, filósofos, professores e religiosos.
A Palavra ainda é, portanto, Mágica, embora não seja mais a base da Magia. Hoje, a Magia é A Arte do Silêncio, da Imaginação.
Mesmo assim, reconhecendo sua importância, nós, seus devedores, já que sem a Palavra não existiria a Cultura ou mesmo a Sociedade como a conhecemos, agradecemos, comovidos, pelo seu suporte e cumplicidade.