Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PAPEL DO MAL

por Mario Sales,FRC,SI,CRC



No século IV AC, Agostinho em suas confissões cria o mais brilhante e mais popular argumento filosófico já construído: o do livre arbítrio.
Na intenção de eximir a Deus da responsabilidade sobre o Mal, que ele afirmava não ser harmônico com a noção de um Deus Amoroso, estabelece que a origem do mal são as más escolhas que fazemos, no gozo de nossa liberdade de decidir. E que se possuímos esta liberdade, ela nos foi dada pelo próprio Deus.
Portanto, Agostinho convenceu seus contemporâneos que um ser Onisciente tinha dado as suas criaturas a capacidade de fazer opções impossíveis de antecipar, de saber. De maneira enviesada, dizia, e todos aceitaram, que um Deus que sabe tudo, não saberia qual seria a escolha de seus seres. Mais: que um Deus que pode tudo, Onipotente, nada poderia fazer para impedir o erro de seus filhos.
Deus, segundo Agostinho, agiria contra sua própria natureza. O Deus de Agostinho, enfim, é um Deus incoerente.
A noção de Individualidade que vinha da cultura grega, base da cultura latina e de toda cultura ocidental, impregnou o pensamento deste bispo sagaz. A Individualidade, o fenômeno de um ser humano único, in-diviso (não dividido), independente do meio e diferenciado por uma personalidade e um modo de pensar, para os Europeus daquele século IV era, sociológica e filosoficamente, um avanço. Enquanto o Oriente milenar buscava a União entre Deus e o homem, a Fusão, a Yoga entre Criador e criatura, o Ocidente julgava avanço separa-los, de tal modo que Deus estivesse lá, alto no Céu, enquanto a Terra, seria o aqui-em-baixo, território do profano, da vida mundana.
Tudo, para ser compreendido e explicado, deveria ser decomposto e separado, e Agostinho começa por separar o Mal e principalmente, o homem que opta pelo Mal, de Deus.

A IMPOSSIBILIDADE DO LIVRE ARBÍTRIO

Agostinho, no entanto, passou ao largo de certas questões.
Uma delas, a não percepção de que o homem comum tem importantes limitações de compreensão e percepção.
Entender um processo é conhecê-lo em todas as fases de sua execução e desenvolvimento.
A Vida é um processo altamente complexo, que não se resume a fecundação, nascimento, crescimento, envelhecimento e morte, mas também a interação com o meio material e humano que cerca e acompanha este indivíduo que percorre a existência no eixo do tempo.
Viver bem é compreender a Vida em todos ou quase todas as suas nuances. E quem pode dizer que é capaz dessa compreensão? Quem pode com segurança dizer que está de posse do segredo da existência? E por que não podemos dizer isso? Pela enorme quantidade de variáveis, a falta de estabilidade dos acontecimentos e dos relacionamentos sociais.
Descartes, no séc XV, onze séculos depois, percebeu esta impossibilidade lógica de saber tudo sobre tudo para qualquer ser humano por mais brilhante que fosse, e criou a noção de erro em substituição ao pesado conceito do pecado. Homens, disse ele, não pecam, porém erram, e o erro é reversível a partir do conhecimento. Não haveria necessidade de punição pelo erro, mas sim de correção. E corrigir era descobrir a forma certa de fazer aquilo em que antes havíamos falhado.
Mas isto é uma tautologia.
Vejam, é como a piada mística:
"Mestre, como fazer boas escolhas?"-"Experiência"
"E como conseguir experiência?"-"Más escolhas".
Sim, o erro , como a morte, são as únicas certezas.
Agostinho alegando que possuíamos liberdade de decidir sobre o certo e o errado, afirmava de forma paralela que o homem que escolhe sabe exatamente o que faz, que está a par de todas as consequências de seus atos. Que a sua educação, que seus traumas e inseguranças, não interferirão em suas decisões, as quais sempre serão uma opção clara entre o que é certo e o que é errado. Para Agostinho, ao contrário de Descartes, o homem não é uma vítima do erro, mas seu senhor. Ele , Agostinho, que teve uma vida pessoal desregrada, que casou com uma mulher que morreria jovem, em função de uma doença desconhecida, que teve um filho que também morreria jovem, aos 20 anos, por causa de uma febre; ele Agostinho, homem mundano que só tardiamente viria a se dedicar a vida monástica, achava que seus erros e sofrimentos foram causados por suas más escolhas, e que a morte de sua esposa e de seu filho, que lhe trouxeram dor e sofrimento, também foram uma opção sua, e não da Natureza.
Digo isso, porque só um ser tomado de uma impressionante soberba e orgulho, pode-se supor capaz de manter controle sobre todos os acontecimentos a sua volta.
Considerando que, no nível microscópico, os donos do planeta são os vírus e as bactérias, e que só nos últimos 100 anos começamos a ter alguma capacidade de resistir contra seus ataques com as vacinas e os antibióticos, é presunção e ignorância supor-se capaz de ser responsável por suas escolhas, quando muitas vezes, a natureza faz estas escolhas por nós.
Sim, fazemos escolhas, mas com certeza não são escolhas livres. Estamos sempre limitados aquilo que compreendemos e sabemos e que não é muito. Morcegos enxergam melhor que nós, cães ouvem melhor que nós, e um simples vírus invisível pode ser capaz de nos matar.
Nós, seres humanos, somos profundamente ignorantes de nosso meio ambiente, e por tabela, de nós mesmos. Nossa ignorância só é superada na maior parte do tempo, pela nossa estupidez em gerir as reservas de nosso mundo e as relações com nossos companheiros de planeta, sejam animais irracionais, sejam outros seres humanos.
Então como exigir de um ser que enxerga mal, ouve muito pouco, e quase nada compreende do seu meio ambiente, acurácia e capacidade de decisão consciente ilimitada?
Não, o ser humano ainda é um projeto em andamento, longe, muito longe da perfeição.
E de um ser imperfeito não se deve esperar decisões adequadas. Só o erro, repito, é a certeza de nossas existências. "Más escolhas, que geram experiência e, aí sim, após as más escolhas, boas escolhas."
Como Agostinho, todos nós cometemos enganos, exatamente porque não somos livres para decidir corretamente , já que estamos, todos, presos a nossa própria ignorância de momento, passível de ser diminuída com a experiência e o passar do tempo. O fato é que alguns sabem menos que outros, alguns ignoram mais que outros, mas todos ignoram muitas coisas sobre a vida e sobre si mesmos.
Somos todos ignorantes e o pouco que sabemos nos ajuda a viver com certa dignidade. Compartilhamos informações para que todos possam beneficiar-se das informações de todos. Precisamos uns dos outros para conseguirmos ser nós mesmos, e melhores a cada dia.
A Vida é complexa e cheia de percalços, mas ela e tudo que existe dentro dela, pertencem e foram criadas pelo mesmo Ser, pela mesma Inteligência. Só Ela detém todo o conhecimento, toda a sabedoria, de todas as coisas.
E um Ser de tamanho poder jamais poderia ser um tolo. E só um tolo suporia que seres limitados em todos os aspectos não cometeriam, involuntária e eventualmente, algum erro. 
Eis o que as pessoas chamam de Mal. 
Os erros involuntários e não os erros voluntários. 
Todos fazem o que quer que seja porque crêem , em sua limitada compreensão, que estão fazendo a coisa certa. 
O ambiente, a educação, a evolução espiritual de cada um determina suas escolhas e suas noções de Bem e de Mal, de Certo e Errado.
E assim como para um canibal é correto comer um inimigo que tenha demonstrado coragem na batalha, como forma de homenageá-lo, buscando ao devorá-lo, usufruir de sua nobreza e virilidade, da mesma forma o homem dito civilizado, olha com horror esta prática, e tem náuseas diante daquilo que outra cultura chama respeito.
Mas existe outra fonte do que chamamos Mal: o acaso desagradável. Outro conjunto de fatos imponderáveis e imprevisível, o acaso só pode ser antecipado pela Inteligência e Onisciência do Altíssimo. Nenhum de nós antecipa um acidente casual que nos mutile e nos cause dor e sofrimento. É diferente de, por exemplo, beber e dirigir de modo irresponsavelmente rápido em uma estrada e bater o carro solitariamente em uma árvore. Falo de um indivíduo que vem por uma estrada em baixa velocidade, dirigindo cuidadosamente e é vítima de uma motorista embriagado como o descrito. 
Qual a causa deste acontecimento trágico e imprevisível? O sofrimento que a vítima, dita inocente, da irresponsabilidade de outro, experimentará, não foi provocado voluntariamente por ela e mesmo assim ela deverá arcar com o peso deste acontecimento. Isto, com certeza, será considerado um mal. Pior: um mal inexplicável, com o qual este indivíduo e sua família deverão lidar. A irresponsabilidade do outro motorista nos dá a causa pela qual o evento ocorreu, mas não sua justificativa moral. A questão é: porque coisas ruins acontecem com pessoas boas? Existirá uma razão para isso? E se existir, devemos entender que o mesmo Deus que permite e implanta a beleza na Vida , permite e autoriza a existência do Mal nessa mesma Vida?
Foi isto que deixou Agostinho perplexo e o impeliu a achar uma justificativa lógica para a existência deste mal involuntário e incontrolável, tanto quanto imprevisível, fruto da ignorância e do acaso.
Mas, perguntaria eu ao orgulhoso Agostinho, quem somos nós para justificar os atos do Todo Poderoso? 
Como, em nossa já famosa ignorância, conseguiríamos entender as razões ocultas dos dissabores que todos nós, sem exceção, atravessamos? 
Mais ainda: e se o que julgamos serem coisas ruins e maléficas forem apenas os movimentos aleatórios de forças que não nos conhecem e que não nos escolhem, mas que, eventualmente, nos encontrarão e nos causarão algum impacto? 
Da mesma forma que o vento não conhece as árvores que arranca com sua força, ou o mar não se dá conta dos peixes que dizima em seus maremotos, ou a Terra não se dá conta das cidades que destrói em seus terremotos, a Vida não para diante de seres com os quais não se identifica e que são apenas parte de um conjunto de outros seres, e não seres especiais como eles mesmos (nós mesmos) se designam, mais uma vez, cheios de empáfia. Somos seres cheios de orgulho e egocentrismo. Temos-nos em alta conta, mas nossa fragilidade e limitações são patentes. E considerando a Imensidade de Deus, só a arrogância pode nos fazer querer explicá-lo ou adjetivá-lo, de Bom ou de Mal.
Deus não é Bom ou Mal. Deus é Deus. O Todo Poderoso, o Onisciente, Onipotente, Onipresente. Seus desígnios são e sempre serão misteriosos, mas se tornam mais claros quando retiramos nossa carga humana de sua avaliação. Se nos relacionarmos com os fatos da vida tentando classificá-los em Bons e Maus , nosso conhecimento não valerá uma rúpia.
Só começaremos a nos aproximar da Verdade quando não tentarmos fazer juízo de valor sobre o que nos acontece, não pensar em punição e recompensa, e como os budistas, acreditar que só o fato de estarmos vivos e experimentando a possibilidade de existir conscientes já é, em si, uma grande bênção; cada experiência é uma bênção, cada dia é uma bênção, cada problema nos abençoa com mais informações que imediatamente são repassadas ao Criador, na consumação do mais importante motivo de estarmos nessa Vida Terrena, a coleta de dados acerca de todas as coisas, de emoções ao odor das rosas, da noção de apego aos que amamos até o cheiro de terra molhada em uma manhã fria e enevoada na floresta.
Todas as impressões, sejam agradáveis ou desagradáveis, tragam-nos dor ou prazer, são informações importantes e como tal devem ser tratadas, dados que compartilhados e somados com todos os dados colhidos por todos os nossos semelhantes criam uma massa crítica de informações realmente precioso para uma Inteligência permanentemente sedenta de informações.
E o que somos? Seres energéticos mergulhados neste ambiente denso, protegidos por nossos escafandros de carne que nos permitem estar aqui, viver aqui, mesmo com todas as limitações que uma roupa tão pesada e uma densidade tão grande nos causa, nós, seres de energia pura,que brincamos e estudamos nos campos de Nosso Senhor.
Não podemos morrer ou ser feridos realmente neste campo de provas artificial, mas a experiência não seria satisfatória se o aquilo que nos acontece não parecesse real. Sem esse realismo, mesmo que cinematográfico, não conseguiríamos experimentar as emoções ligadas a esta peça de teatro, a este drama que chamamos "vida na carne".
Quanto ao Mal, sem o viés classificacionista, não saberemos dizer com certeza o que é.
O médico com o bisturi que se aproxima de um furúnculo infeccionado na pele de uma criança, deve parecer assustador e maléfico para o pobre menino. Em sua ignorância, não sabe que este é o procedimento que garantirá sua recuperação.
Sim, a informação e a cultura, às vêzes, aliás sempre, mudam nossa classificação das coisas. E o que antes nos parecia maléfico, é entendido como parte de um plano de aperfeiçoamento brilhante e muito bem amarrado.
Hoje não temos, como lembrava Steve Jobs em Stanford, como ligar os pontos de nossa existência. Só depois, mais a frente , compreenderemos as razões de certos acontecimentos que, à primeira vista, realmente nos parecem absolutamente perversos e sem sentido.
Para ver o desenho completo é preciso ligar os pontos, todos os pontos. E só quando tivermos todos os pontos poderemos fazê-lo. É preciso ter a certeza íntima que uma bela forma se esconde no final. E aguardar pacientemente, até que todos, absolutamente todos os pontos sejam reunidos.
Paciência e fé em um propósito universal não impedirão nosso sofrimento, mas com certeza, retirarão de nós qualquer chance de revolta ou desespero. E assim até o Mal terá seu papel na construção de determinado objetivo oculto, como a última cena de "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint Exuperie, quando o principezinho convoca a cobra para que o pique, condição para que ele se liberte do corpo e retorne ao seu asteróide natal.
Tudo tem seu papel, esta é a lição. Mesmo que não entendamos de início qual seja.
Paciência.