Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 27 de outubro de 2013

ESPIRITUALIDADE E HUMANIDADE

por Mario Sales, FRC,SI,CRC

"Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor."
Machado de Assis, em "Memórias Póstumas de Braz Cubas", capítulo 11.





Desconfio da sinceridade dos autoproclamados santos ou daqueles que vivem em estado de graça, como se seu alheamento ao mundo comum fosse prova de sua enorme sensibilidade. Já vi charlatães demais para não reconhecer um Mago Simão querendo passar-se por apóstolo ou tentando comprar a técnica do Pentecostes.
Mesmo o charlatão, no entanto, é consciente de sua charlatanice, embora suponha correto o ilusionismo que procura praticar. Pior não são os charlatães, mas aqueles que, supondo-se verdadeiramente pessoas iluminadas, creem-se para além do mundo comum, num exercício de delírio psiquiátrico, que demanda psicofarmacoterapia e não respeito.
Isto me incomoda porque as escolas esotéricas são vítimas deste tipo de frequentadores há muitos anos, aonde são tolerados, acolhidos, num misto de piedade e altruísmo. Só que as práticas esotéricas, mesmo livres dos procedimentos teatrais ocultistas, ainda se baseiam na transformação do mundo psicológico daquele que atravessa seus portais, e para isso recorre à técnica de Iniciação, a qual implica em burilar crenças e sentimentos pessoais, desconstruindo convicções, refazendo perspectivas, mexendo enfim com áreas profundas do subconsciente.
Se bem que hoje exista menor risco à sanidade das pessoas, estas abordagens são delicadas, devem ser prudentes, para que aquele que já não está adequadamente equilibrado não seja prejudicado psicologicamente por esta intervenção.
Alguns poderiam argumentar que não existe este risco, que os tempos são outros, que o ser humano moderno é mais culto e menos impressionável. Só que isso depende de qual ser humano estejamos falando.


Por isso, se alguém passa pelas primeiras iniciações, não quer dizer que passará pelas próximas. Se atravessa as colunas da maçonaria ou os portais simbólicos de AMORC ou do Martinismo, não quer dizer que está aprovado psiquiatricamente. Pode apenas ter atravessado a iniciação e mais nada, sem ter sido tocado em seu coração pelas transformações que se esperam de um iniciado, ao mesmo tempo que sua mente, já patologicamente alterada, não consegue se aperceber do que verdadeiramente ocorreu naquela cerimônia.
Outro problema dentro das escolas iniciáticas é o viés religioso. Alguns membros não conseguem distinguir o religioso do esotérico e místico.
Acreditam que para o místico, questões morais estão postas da mesma maneira que para aquele que faz parte de uma religião.
Por exemplo o místico, enquanto místico equilibrado, verdadeiramente tocado pela espiritualidade, não vê com nojo o seu corpo material, não crê que o macacão seja responsável pelos erros do operário, aliás sabe que não é assim. O moralismo anti material das religiões às vêzes atravessa os portões das três Ordens, junto com aqueles que os trazem em seu íntimo. Os maçons se reúnem em Loja, via de regra, para "combater a ignorância, os preconceitos e os erros", mas quão difícil é este combate. Rosacruzes se reúnem em Loja em busca da Paz Profunda, mas que paz é possível quando os olhos do chamado místico ou mística, vagam pelo ambiente do Corpo Afiliado criticando comportamentos como carolas em uma sacristia católica, ou preocupado com a vestimenta daquela irmã ou com a libido daquele irmão?
Esses são comportamentos que já acompanhei como oficial administrativo ou ritualístico ou ambos, como no caso do Mestrado, e que dizem respeito a idiosincrasias e valores de cada membro de AMORC e nada tem a ver com a AMORC em si. Não é nossa função julgar o comportamento de nenhum de nossos frateres e sorores fora do templo e nossa moralidade está determinada por nossa geografia, época e os costumes de nosso grupo social. Não são Universais, não são expressões de uma verdade internacional e transtemporal, são hábitos e crenças pessoais que não podem e não devem ser impostas à ninguém em um ambiente tolerante e democrático, se bem que até certo ponto, como deveriam ser os capítulos e Lojas Rosacruzes e as Heptadas Martinistas da TOM. Só a consciência de cada um é guardiã de sua dignidade e pode avaliar a retidão de seus atos. Entre as Lojas Maçônicas o fenômeno diminui pela inexistência de mulheres em ambientes ortodoxos, mas em Lojas Mistas, ainda não aceitas pela comunidade maçônica internacional, mas que são um fato em muitas regiões do mundo, o problema deve voltar a baila, se bem que sem o mesmo apelo pseudo religioso de Lojas muito mais místicas como as Lojas rosacruzes.
O que diferencia o bom místico do mau místico é a sensibilidade e a evolução espiritual, que se expressam não por uma atitude de superioridade fantasiosa, nem pela fantasia de uma santidade inexistente, que rompe os laços com o social, que isola o indivíduo do convívio, (o mais importante sinal da doença mental). Da mesma forma, misticismo não é a repulsa por aquilo que é mais sagrado em nós, como lembrava Spencer Lewis, nossos instintos, que por fazerem parte de nossa estrutura mais primitiva são produtos genuínamente divinos em sua natureza, e portanto, santos.
O ser humano normal, equilibrado, e com alguma chance de alcançar a santidade pode, como Noé após o dilúvio, embebedar-se, ou como Moisés, por insegurança e machismo, mandar aprisionar sua irmã, Miriam, amada por todos no Sinai; ou destruir, num acesso de ira, as barracas dos vendilhões do templo, como o Cristo, Jesus, o mesmo cujo primeiro milagre não foi em uma caverna, mas em uma festa de casamento, transformando água em vinho.
Seres humanos normais, santos ou não, são assim, como Machado de Assis tão bem colocou em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", ou como o Lótus Oriental representa no conjunto simbólico do Esoterismo:"Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor." Toda flor verdadeira e humana vem daí. Como os instintos, uma terra e um estrume santos, origem e fonte de toda Força, Sabedoria e Beleza do Universo.
Quem negar estas origens ou mente ou perdeu o senso da razão. Nenhuma das duas alternativas é boa e nenhuma recomenda um ser humano, um verdadeiro ser, humano.