Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 26 de outubro de 2013

TRADIÇÕES E MODELOS INTERPRETATIVOS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC

Existe um fenômeno curioso quando nos deparamos com um dado conjunto de idéias. É da natureza da mente que tentemos apreender aquele conjunto através de nossos próprios modelos intelectuais e os conceitos que já dominamos surgem como elementos de comparação imediatos. Isto acontece até entre rosacruzes. Por não conhecerem devidamente o jargçao rosacruciano de AMORC bem como o elenco de conceitos próprios do rosacrucianismo moderno, preenchem os vazios com valores e conceitos de suas próprias escolas e religiões (espirtismo kardecista, catolicismo, denominações religiosas bíblicas fundamentalistas, etc ).
O que a história do pensamento mostrou, entretanto, que embora, senso comum, esta seja a atitude intelectual mais adequada, ela pode nos levar a erros de interpretação e a supor iguais duas grandezas diferentes.
Como se comparássemos um par determinado de frutas diversas, mas em mesmo número.
Apesar da singeleza da imagem, imaginemos 20 melancias e 20 laranjas. Óbvio que se tratam de 20 unidades de coisas diversas, em número igual, mas com proporções absolutamente distintas.
Nem sempre entretanto, o tamanho nos auxilia. Ou a cor. Como no caso de 20 tangerinas e 20 laranjas. Ambas amarelas, ambas com esfericidade, se bem que uma mais esférica que a outra. Temos assim duas contagens de objetos diferentes, de mesmo número, aproximadamente mesma aparência, cuja diferença íntima só será percebida quando provarmos uma e outra fruta. Tradições diferentes são mais ou menos assim.
Quando partimos do pressuposto de que , sim, todas as tradições esotéricas ou místicas têm uma origem comum, ao lermos os textos próprios de cada uma, buscamos, ato contínuo e quase automático, as semelhanças entre elas e, após esta buscas, comparamos as semelhanças encontradas e supomos que, ao encontrá-las, encontramos também o que está por trás de ambas.
Na verdade, isto não funciona assim, e embora seja correto supor que os galhos de uma árvore tem a mesma raiz, nem um galho é o outro, e nenhum dêles tem a mesma forma da raiz que lhes garantiu e garante existência.
Compreender e conhecer aquele galho é tocá-lo, olhá-lo, estudar como sua forma se projeta peculiarmente, no espaço em volta do tronco.
Mesmo que estejam na mesma direção em lados opostos do tronco, um galho vai em um sentido e o outro no sentido inverso.
É preciso, pois, conhecer cada galho para visualizar a árvore. Este tipo de raciocínio é o mais antigo da humanidade, e em lógica é chamado de raciocínio indutivo, que parte do particular para o geral.
Não que estejamos totalmente errados em nossas ilações a partir das informações que trabalhamos, mas elas, com certeza, não nos darão um quadro fiel do objeto estudado, e as distorções podem ser cumulativas e, lá na frente, podem gerar deformações bem mais robustas.
Para evitar tais deformações, os pensadores que se dedicaram aos métodos de bem interpretar textos ou experiências se voltaram, não só para os textos em si, mas principalmente, para a atitude mental de quem os lê e os estuda.
Estas considerações me vem à cabeça agora que estudo às quartas a noite, com Flávio, a Doutrina Esotérica como entendida pela Sociedade Teosófica e , na sexta, lemos, eu Falvio e Wilson Hackmey, todos dois da Heptada Martinista Guarulhos, o "Tratado da Reintegração dos Seres", de Martinez de Pasqually.
São dois textos diferentes, claro, mas além disto, são produtos de dois contextos de época diversos e bem peculiares. Não só abordam a tradição esotérica sob pontos de vista de duas épocas diversas como utilizam uma estratégia de narração própria de cada um.
O projeto de Blavatsky, agora já posso comentar, tem a ambição de ser uma narrativa de, no seu entender, fatos, desconhecidos do público em geral, que dizem respeito a épocas que a ciência, seja na Antropologia, seja na Arqueologia, ainda não mapeou. Fala de realidades invisíveis à grande maioria das pessoas comuns, de um livro que ninguém viu, que ninguém leu, e o interpreta com a seriedade de um exegeta ortodoxo. O curioso é que, sem o apoio da nona sephira, Yesod, a Fundação, Blavatsky todo o tempo ataca a ciência da época chamando-a de falha, imprecisa e incompleta. Isto tudo no final do século XIX.
O outro texto diz respeito ao ambiente simbólico. Não se narram fatos, mas sim mitos com forte conteúdo simbólico, de tal forma que é difícil destrinchar o que é apenas representação e o que refere-se a, se podemos chamar assim, "fatos históricos". Não existe inclusive a preocupação de fazer a devida separação entre uma coisa e outra. Marttinez é impiedoso, o que torna seu texto impiedosamente obscuro, só perdendo para os textos de Jacob Boheme.
Dois ambientes tão diversos não deveriam ser comparados impunemente, mas noto em todos, inclusive em mim mesmo, uma ânsia comparativa, uma tentativa de ver semelhanças nas informações díspares de um e outro ambiente.
Embora eu entenda esta ansiedade, penso que seja temerária. Por puro treinamento filosófico, sei a imensa capacidade da mente desarmada de pregar peças no exegeta, de forma que procuro ser mais prudente em relação a tentativa de compreender uma ou outra tradição a partir da lente de um ou de outro ambiente.
O mais prudente, já diziam os Hermeneutas[1] alemãs, uma área que teve grande destaque na filosofia do século XX, Hans Gadamer e Jürgen Habbermas, é tentar compreender cada texto, cada ambiente, a partir dos pressupostos e postulados de cada uma.
Manda a boa ciência interpretativa que, se formos fazer comparações entre ambos os domínios, tenhamos mais conhecimento de um e de outro, tenhamos provado a tangerina e a laranja tantas vêzes que já reconheçamos com facilidade seu sabor.
Não há como interpretar com fidelidade um texto se tentamos lê-lo segundo aquilo que sabemos do mundo e das coisas. Para cada texto existe um con-texto, que deve ser conhecido e levado em conta durante a leitura e a interpretação que desenvolvemos.
Nos textos de Pasqually, alguns conceitos são recorrentes: a queda adâmica, a noção de pecado original, de confissões de culpa libertadoras, e do chamado "livre arbítrio", conceito criado por Agostinho de Hipona. Fala-se de anjos rebeldes, de crimes contra Deus e das punições a partir de prisões, que lembram as práticas da cavalaria do século XVIII, da Justiça do século XVIII, com corpos que são prisões, e de uma outra enorme prisão, o EIXO FOGO CENTRAL INCRIADO, que retém dentro de si homens e anjos, ambos caídos.
Fala muito também sobre o Cristo, tanto na pessoa de Jesus como na de Helly, um personagem trazido a luz por ele. Centra muito de suas reflexões neste personagem, entendido por ele como o ponto central da ampulheta da criação, ponto mais estreito por onde flui a areia da vida, de cima para baixo ou de baixo para cima quando invertida.
Blavatsky por sua vez toca no Cristo de modo eventual e concentra seu trabalho em comparações de tradições as mais variadas, na defesa de sua tese de que a Tradição tem origem comum. Compara as mitologias, os deuses de cada panteão, foca em textos da Tradição Hindu, os Vedas, principalmente Rig e Atharva Veda, os Upanishad, o Gita. Se citou a queda ou os Anjos, foi "en passant". Concentra-se mais na tentativa de dar caráter de cientificidade aos seus escritos, ora clamando pela Ciência da época, já superada, para apoiá-la em suas afirmações, ora atacando esta mesma ciência como incapaz de ver o que ela vê.
Embora eu seja um esoterista e estudante das tradições, não me atreveria, repito, devido ao meu treinamento intelectual, a tentar validar qualquer discurso simbólico ou mitológico cientificamente. Simplesmente porque Mito não é Ciência, o que não o torna um saber menor , mas apenas diferente.
São frutas diferentes, aqui, particularmente, muito diferentes.
Da mesma forma, TEOSOFIA não é MARTINISMO.
É preciso ler TEOSOFIA em um contexto teosófico, E DEPOIS ler MARTINISMO, de Marttinez de Pasqually, em um contexto Martinista, dos Ellus Cohen, e nunca, nunca ceder a tentação em que Blavatsky caiu, de tentar encontrar na Ciência algo que respalde seu discurso e sua narrativa, ou de tentar entender a TEOSOFIA pelo MARTINISMO, ou vice versa.
Não há ciência, aliás, no seu significado contemporâneo mais ortodoxo, em nenhuma das tradições. São narrativas, muito envolventes e simbólicas, mas carecem de demonstrações ou de fatos na acepção verdadeira do termo, que as corroborem.
Mesmo o invisível, em Ciência, é mensurável ou previsível matematicamente. O que não acontece nem com as afirmações de Pasqually e muito menos com as de Blavatsky.
Deixemos portanto a cada território as suas leis e seus costumes. Seria um desrespeito a um cientista profissional, ou mesmo a um ser humano cético e racional, tentar convencê-lo da veracidade dos fatos narrados em uma ou outra tradição. Da mesma forma que a Ciência não explica ou fundamenta a Tradição Esotérica, também não podemos explicar o Martinismo pela Teosofia, nem a Teosofia pelo Martinismo. Na minha opinião, que divido com Flavio e com Wilson Hackmey neste post, devemos resistir corajosamente a vontade de tentar validar um contexto por outro.
Não estudamos a Tradição porque ela é verossímil, mas sim porque cremos e nos identificamos com suas afirmações. Se vemos importância no estudo destes textos, vemos por que somos esoteristas e não porque são textos científicos ou comprovados ou passíveis de comprovação. 
Tal discussão , se o que ela (HPB) e ele (Marttinez) afirmam são fatos, é descabida neste trabalho. 
O que buscamos, e o que Blavatsky e os que a lêem bem como os que lêem Pasqually deveriam buscar, é inspiração espiritual e material de reflexão interior, e não fatos comprováveis.
Repito, Esoterismo não é ciência. É outra coisa, outra área de conhecimento, outro saber. Vive e respira com suas próprias leis e pulmões e não precisa de nenhum a validação externa científica, como parece ser a obsessão de muitos esoteristas inclusive Blavatsky.
Na minha opinião, a melhor estratégia é ler o texto, seja teosófico ou martinista, com a atitude chamada fenomenológica, de Edmund Husserl[2], mantendo entre aspas as coisas que supomos ser a interpretação correta, até que surjam novos e esclarecedores elementos históricos e bibliográficos. No caso de Blavatsky, ler a própria Doutrina Secreta, o resumo da Doutrina feito por Michael Gomes, os textos de Leadbeater e Annie Besant e de modernos teósofos que tenham feito esta transição de épocas e que nos facilitem a compreensão dos conceitos chaves do contexto teosófico.
E no caso de Pasqually, a mesma coisa, atentos a contribuição de modernos esoteristas como Robert Amadou e Robert Ambelain, do qual recomendo seu estudo sobre Martinismo disponível em português no endereço http://www.sca.org.br/news/438/57/O-Martinismo-Historia-e-Doutrina-Robert-Ambelain.html do site da Sociedade de Ciências Antigas. É maravilhosamente erudito e profundo, uma leitura embora densa, agradável e muito esclarecedora dos fundamentos do pensamento Martinezista.
Portanto, a partir deste reforço, estudemos cada ambiente com suas características, tangerinas com tangerinas, laranjas com laranjas. E deixemos a melancia da ciência de lado, já que nada, mais nada pode ser mais contraproducente e inadequado do que tentar achar provas do que é im-provável, já que habita no mundo do Mito e do Invisível para a maioria dos seres comuns, não iluminados, como nós três.





[1] Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional - que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito. A hermenêutica moderna, ou contemporânea, engloba não somente textos escritos, mas também tudo que há no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não-verbais de comunicação, assim como aspectos que afetam a comunicação, como proposições, pressupostos, o significado e a filosofia da linguagem, e a semiótica. A hermenêutica filosófica refere-se principalmente à teoria do conhecimento de Hans-Georg Gadamer como desenvolvida em sua obra "Verdade e Método" (Wahrheit und Methode), e algumas vezes a Paul Ricoeur. Consistência hermenêutica refere-se à análise de textos para explicação coerente. Uma hermenêutica (singular) refere-se a um método ou vertente de interpretação.
[2] Fenomenologia (do grego phainesthai - aquilo que se apresenta ou que se mostra - e logos - explicação, estudo) afirma a importância dos fenômenos da consciência, os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua "significação". Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema).
Edmund Husserl (1859-1938) - filósofo, matemático e lógico – o fundador desse método de investigação filosófica e estabeleceu os principais conceitos e métodos que seriam amplamente usados pelos filósofos desta tradição. Ele, influenciado por Franz Bretano - seu mestre - lutou contra o historicismo e o psicologismo. Idealizou um recomeço para a filosofia como uma investigação subjetiva e rigorosa que se iniciaria com os estudos dos fenômenos como aparentam a mente para encontrar as verdades da razão. Suas investigações lógicas influenciaram até mesmo os filósofos e matemáticos da mais forte corrente oposta, o empirismo lógico. A Fenomenologia representou uma reação à eliminação da metafísica, pretensão de grande parte dos filósofos e cientistas do século XIX.
Husserl foi professor em Gotinga e Friburgo em Brisgóvia, e autor de “Ficar Sem Estudar" em 1906 . Contrariamente a todas as tendências no mundo intelectual de sua época, quis que a filosofia tivesse as bases e condições de uma ciência rigorosa. Porém, como dar rigor ao raciocínio filosófico em relação a coisas tão variáveis como as coisas do mundo real?
O êxito do método científico está no estabelecimento de uma "verdade provisória" útil, que será verdade até que um fato novo mostre outra realidade. Para evitar que a verdade filosófica também fosse provisória Husserl propõe que ela deveria referir-se às coisas como se apresentam na experiência de consciência, estudadas em suas essências, em seus verdadeiros significados, de um modo livre de teorias e pressuposições, despidas dos acidentes próprios do mundo real, do mundo empírico objeto da ciência.