Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 19 de janeiro de 2014

MISTICISMO ROSACRUZ E PROPAGANDA

Por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,C.:R.:C.:



Em 13 de setembro de 2010 publiquei aqui no blog um artigo com o título "O Misticismo necessariamente não traz felicidade" em que abordava a falácia de vender o rosacrucianismo e a filiação a Ordem Rosacruz como uma opção simples e fácil pelo domínio da existência e da prosperidade física, emocional e espiritual.
Os problemas de compreensão de certos conceitos entre fratres e sorores são imensos e persistentes e é da natureza humana que assim seja, mas certas omissões em esclarecer alguns conceitos começam às vêzes, no discurso institucional.
Não vejo má fé necessariamente nisso. Não é este o ponto.
Estamos partindo do pressuposto de que todos, aos poucos, perceberão, sem que seja explicitado, que a consecução dos mais elevados graus de harmonia espirituais e materiais são produto de esforço continuado e ininterrupto, e não de um simples passe de mágica.
Lembro-me, eu que sou um dinossauro da Ordem , de uma campanha muito interessante em que alguns folhetos foram distribuídos com pessoas sorridentes e saudáveis em suas capas, na maioria jovens, curiosamente, nos quais propagava-se a idéia de que haviam muitos benefícios na filiação rosacruz.
Quanto a isso não há dúvida. Mas uma propaganda tem sempre algumas afirmações subliminares, com as quais o publicitário conta, embora ninguém possa acusá-lo de tê-las feito. E isto gera equívocos óbvios.
O primeiro era de que a propaganda em questão lembrava, eu me recordo de ter dito isto na época, uma propaganda de um banco, aonde a harmonia e a beleza dos traços físicos e a juventude que exalavam estimulavam a crença de quem tinha o folheto em mãos de que, ao se filiar a AMORC tornar-se-ia também alguém jovem, saudável e com dentes brancos e brilhantes.
Ao contemplar as nossas confrarias, heterogêneas como só os agrupamentos humanos podem ser, vemos em primeiro lugar que na média, o estudante rosacruz é um indivíduo discreto e extremamente comum, sem atributos físicos especiais, e se algo o distingue é aquilo que sai por sua boca, e a vontade de escutar certas coisas das bocas de outros seres humanos. Muitos são adultos e idosos.
Uma representação física, portanto, de um estudante ou de um postulante rosacruz como alguém jovem, bonito e exuberante fisicamente, foi no mínimo infeliz, superficial e pouco fidedigna.
Muitos dirão que tal comentário é descabido, já que tratava-se apenas de um folheto de propaganda, um "folder" como se convencionou chamar, e que é ser severo em excesso criticá-lo dessa forma; que a propaganda não é necessariamente fiel ao produto, mas sim busca vendê-lo, torná-lo atraente para produzir resultados de mercado com aumento de vendas daquele produto ( ou das filiações a Ordem, no caso).
Muito bem, concedo .
Só que, na minha humilde opinião, uma propaganda mística mais eficaz seria exatamente aquela que apelasse a uma sinceridade absolutamente inusitada em propaganda , e que exatamente por isso, destacar-se-ia entre outras que seguem o padrão comum.
Explico. Se ao invés de, senso comum, propagar-se a idéia, falsa, de que a simples filiação a Rosacruz nos livra da velhice (juventude), da feiura (beleza física dos modelos da propaganda) e da doença (todos são saudáveis e parecem felizes, sugerindo saúde mental) propagássemos com franqueza a idéia de que a única e mais marcante vantagem da filiação rosacruz fosse, como a meu ver é, o aumento da consciência espiritual, do grau de clareza na compreensão das razões do sofrimento e da alegria humanas, do verdadeiro sentido de estar vivos, independente das muitas vestes (ou corpos) com que desempenhemos esta vida, esta existência, independente das circunstâncias sociais, econômicas e psicológicas nas quais estejamos mergulhados, acredito que teríamos um diferencial de publicidade marcante, que seria mais fiel aquilo que a filiação rosacruz é e conseguiríamos atrair muito mais pessoas realmente afins com nossas intenções e não apenas curiosos bem intencionados, mas desprovidos da determinação necessária para continuar os estudos em uma Ordem que é composta de, pelo menos no meu caso, de 3 graus de neófito, 1 de postulante, 12 de templo e 7 de plano, ou seja 23 graus de estudo, alguns com centenas de apostilas ou monografias, coisa para uma vida inteira.
A idéia de que se trata, à semelhança daquela propagada por grupos religiosos neo pentecostais, de uma Ordem que fornecerá técnicas para que todos que a ela se filiem consigam saúde física e mental e riqueza material e intelectual, independente de seu karma particular ou de seu esforço, além de falsa e descabida, é um estelionato psicológico. E se desde o princípio nos preocupássemos em deixar claro estes detalhes com uma propaganda diferenciada em que ficasse claro a mais importante das informações, aquela que diz que toda felicidade de um ser humano é produto de seu próprio esforço espiritual e da qualidade de suas opções ao longo da existência, e não de palavras mágicas ou de técnicas secretas, estaríamos sendo fiéis aquilo que acreditamos, como rosacruzes, e nos afastando, em termos de publicidade, da vala comum onde campanhas de outras tendências espiritualistas se encontram.



É preciso lembrar a todos os nossos membros que a Ordem não pode e não assume responsabilidade pelas limitações pessoais de cada um, (para citar o último capítulo do livro "Princípios Rosacruzes para o Lar e para os Negócios", da edição da Coleção Renes da Biblioteca Rosacruz, estranhamente desaparecido desta nova edição), como lembrado em um livro de Lewis no capítulo chamado "O Esqueleto no Armário", aonde ele alertava que todos os métodos que haviam sido descrito ali, como o uso da visualização criativa, a aplicação de técnicas psicológicas de reforço positivo nos relacionamentos humanos e outras, não poderiam ter sucesso desde de que o estudante não resolvesse questões íntimas , que ele chamou à época, usando uma expressão típica da cultura americana de "o esqueleto no armário", nossas inseguranças pessoais, nossas pequenas deficiências de auto estima, nossos defeitos morais quanto a falta de determinação, constância, de fé nos desígnios divinos, etc.
Talvez na época de Spencer, os anos 20 do século passado, não houvesse tanta consciência da importância destas coisas na qualidade da vida de cada um e o quanto elas são mais importantes que obstáculos externos ou dificuldades materiais. Fazendo coro com o pensamento budista, tudo sempre esteve e está na mente, e se não melhoramos a nossa condição mental, sáude, juventude, beleza e sucesso são impossíveis.
Além disso, saúde, juventude, beleza e sucesso também não são, normalmente, ininterruptos. O mundo e a vida são "duais em natureza e trinos em manifestação", como diz um antigo axioma da AMORC.
O que resultará na alteração, de tempos em tempos, das condições de nossa existência material, com o surgimento de problemas pessoais, seguidos de sucessos, seguidos de novos problemas e, às vêzes, de perdas pessoais.
Não existe, e qualquer pessoa sensata sabe, esta estabilidade proposta em cartazes de propaganda, onde todos são flexíveis, ou musculosos, ou belos fisicamente.
Tudo é processo e nesse caso, tudo é passageiro.
O único lucro verdadeiro de um treinamento místico é desenvolver serenidade e capacidade de encarar com equilíbrio períodos bons e os aparentemente maus e inevitáveis, de forma a que não sejamos reféns do desespero, e depois, da revolta e da amargura.
Fazer, desde o início, para o interessado em se tornar neófito, um propaganda honesta, afirmando com todas as letras que afiliar-se a AMORC não é afiliar-se a uma religião, mas sim à um grupo de homens e mulheres dedicados a conhecer-se melhor interiormente e, a partir deste conhecimento, conseguir encarar com equanimidade as inevitáveis oscilações da existência, é dizer, com franqueza, nossas intenções , que são, eu creio, as melhores possíveis.
Não precisamos equivocadamente dizer, ou mesmo de maneira velada sugerir, que a afiliação trará sucesso comercial ou psicológico no meio social.
Seria um diferencial até publicitário, isto sim, se concentrássemos nossos esforços de divulgação em uma descrição fiel do que os 23 graus rosacrucianos provocarão naqueles que se afiliarem e que forem perseverantes  na sua afiliação.
Pelo menos seria um grande avanço se conseguíssemos deixar claro que a Ordem procura pessoas dispostas a servir e não pessoas dispostas a se servir do rosacrucianismo.
Desde o início já estaríamos selecionando um grupo de seres humanos de grande qualidade espiritual e, quem sabe, nosso recrutamento melhoraria em qualidade e força.
Precisamos sim de novos membros, mas que sejam capazes de ultrapassar o 4° lote de monografias, a grande muralha em que muitos esbarram e abandonam a senda do rosacrucianismo, segundo estatísticas internas.