Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 10 de março de 2014

CAMPO DE ESTRELAS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC


Praça das Pratarias, Santiago de Compostela


É verdade que a viagem foi primeiramente para Portugal, mas admito que a vibração de Santiago me magnetizou.
Fiquei fascinado ao saber dos aspectos etimológicos do seu nome, tanto quanto com o ambiente de devoção que compartilhei por lá.



O Autor na Praça das Pratarias, Santiago de Compostela



Santiago é o mesmo que São Tiago, apóstolo. 
Já Compostela tem dois significados: o primeiro, é a corruptela de Campo de Estrelas, pois conta-se a história, as relíquias de São Tiago, que estão guardadas na Catedral de São Tiago, só foram encontradas por causa dos sonhos proféticos de um eremita, que sonhava todas as noites com um campo aonde havia constantemente a manifestação de estrelas cadentes.



O segundo significado é que Compostela é o nome do documento que cada peregrino recebe, comprovando sua condição de peregrino, após apresentar uma caderneta que ele consegue em sua paróquia, caderneta essa que é carimbada em cada posto de repouso e parada ao longo da peregrinação, que no mínimo deve percorrer 100 km.
Existem vários caminhos para Santiago, o caminho Português, o Espanhol, o Francês. A condição acima permanece, entretanto, para todos eles.



Peregrinar é um ato físico, mas pode ser entendido também como um ato psicológico. Símbolo disto são as pilhas de pedras pelo caminho. Existe a noção de que aquelas pilhas de pedras são deixadas por alguns peregrinos para marcar o caminho para outros peregrinos que vem depois mas que também representam uma superação alcançada ao longo do trajeto, uma mágoa transcendida, uma tristeza ou angústia dissipada por este exercício de fé.
Pedras como marcas, pedras como referencias de estágios da evolução de cada um.



Existe ainda esta poética característica do caminho de Santiago: os indicadores feitos de conchas[1]. Junto com as setas existem conchas para a direita, para cima ( que significa em frente), e para a esquerda.





Conchas aonde se recolhia a água para beber, a comida a se comer, durante a peregrinação. Conchas que são de cálcio, como de cálcio são os nossos ossos, sustentação de nosso corpo, veículo de nosso espírito.
Concluímos, pois, que só podemos nos alimentar da experiência através deste corpo que nos carrega e ao qual damos vida por nossa presença.
É neste corpo, aonde recebemos a água e o pão de todos os dias, que conseguimos trilhar esta vida em direção a nossa própria catedral.

É dele, corpo e espírito, que retiramos, trecho a trecho do caminho, uma pedra aqui, outra ali, de nossa bagagem, deixando para trás, pouco a pouco, os erros e desventuras inevitáveis do trajeto.

Mais leves, mais sóbrios, mais lúcidos, estamos também mais aptos a perceber a espiritualidade deste corpo e desta jornada, tão espiritual quanto física, aonde esses dois aspectos se fundem de modo a não se perceber distinção entre um e outro.
Se fica uma lição da viagem é que por caminhos tão longos, é impossível que cocheiro e passageiro da carruagem não acabem por conversar e que , em determinado momento, não viagem juntos, lado a lado, na frente da carruagem, irmanados pelo destino comum.
Corpo e alma são cocheiro e passageiro da mesma carruagem. Ou procedemos o casamento alquímico de ambos, ou pereceremos na ignorância do sentido sagrado de tudo que existe , desde a mais simples concha, ao mais glorioso ritual.
O mesmo Deus glorioso está em toda a parte.
O mesmo Deus.
Sem separações, sem distinções, sem possibilidade de diferença.
Existem muitas lições a se tirar da peregrinação.
Uma delas é a noção de Unidade de todas as coisas.
Como sucede com os peregrinos na Espanha, roguemos a Deus que nosso suor batize nossa iniciação, água abençoada do esforço do corpo na busca pela sua própria alma na Catedral Interior.
Que assim seja.


[1] Primeira versão: Depois da morte de Santiago os seus discípulos levaram o corpo de barco para a península ibérica, para ser enterrado no que é hoje Santiago de Compostela. Ao largo da costa ibérica, uma violenta tempestade atingiu o navio e o corpo caiu ao mar tendo-se perdido. Contudo, depois de algum tempo, deu à costa sem estragos, coberto por vieiras.
Segunda versão: Depois da morte de Santiago o seu corpo foi misteriosamente transportado por um navio sem tripulação para a península Ibérica, para ser enterrado no que é hoje Santiago de Compostela. Quando o navio se aproximou de terra, estava a decorrer um casamento na costa. O jovem noivo estava montado num cavalo e ao ver o navio aproximar-se o cavalo assustou-se e cavaleiro e montada mergulharam no mar. Através de uma intervenção miraculosa, o cavaleiro e o seu cavalo emergiram da água vivos, cobertos de conchas. A concha de vieira também é uma metáfora. Os sulcos radiantes na concha, que se juntam num só ponto, representam as várias rotas usadas pelos peregrinos, que acabavam por chegar todos ao mesmo destino — o sepulcro de Santiago em Compostela. A concha além disso uma metáfora do peregrino: como as ondas do oceano arrastam conchas de vieira para as costas da Galiza, a mão de Deus guia os peregrinos para Santiago. A concha tinha também utilidade prática para os peregrinos, pois tem o tamanho adequado para tirar e beber água das fontes e para servir como tigela de comida. Tradicionalmente, a vieira é pendurada no chapéu, outro artefato típico do peregrino, ou então na roupa. No passado, os peregrinos apresentavam-se em igrejas, castelos, mosteiros, etc. Ao longo do Caminho e podiam contar com oferta da comida que conseguissem recolher com uma colherada da concha. Provavelmente davam-lhes aveia, cevada e talvez cerveja ou vinho. Dessa forma, até as casas mais humildes podiam ser caridosas com os peregrinos sem risco de serem sobrecarregadas. (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caminhos_de_Santiago)