Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 8 de julho de 2014

O ESOTERISMO NÃO PRECISA DOS ESOTERISTAS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC




Mais uma vez compareço, como testemunha e ao mesmo tempo participante, à um ritual de posse de um Venerável Mestre da Maçonaria, dessa vez em minha própria Loja.
Contemplo as pessoas se deslocando e as falas protocolares e penso comigo que esses homens ali presentes julgam-se membros de uma escola esotérica.
Digo "julgam-se", porque o próprio conceito de "escola esotérica" muda com o indivíduo, de acordo com seu grau de conhecimento e cultura, quanto mais a noção do "esotérico" em si.
Uso, como sabem, e repito aqui , mais uma vez, para fixar bem, que esoterismo, misticismo e ocultismo são coisas absolutamente diferentes, embora relacionadas: ocultismo, um exercício voltado para fora, englobando o conjunto de práticas mágicas ou teúrgicas com o intuito de interferir na realidade cotidiana e nos relacionamentos humanos.Entram neste grupo rituais de invocação de espíritos terrenos, palavras mágicas, encantamentos, etc.; misticismo, o conjunto de práticas que visam a comunhão com o Divino em nós, um exercício voltado para dentro, de natureza eminentemente psicológica e espiritual (palavra que eu uso como sinônimo de psíquico). Por exemplo, a Oração é uma técnica Ocultista, teúrgica, aplicável a prática Mística. Nem todas as práticas ocultistas visam objetivos místicos, no entanto.
Por fim, entendo o esoterismo como a instituição do segredo sobre as todos os estudos acima descritos ou ainda a característica de difícil compreensão e interpretação dos muitos textos considerados sagrados e que fazem parte de um campo de saber específico do conhecimento humano conhecido como Tradição.
A Ordem Maçônica tem, segundos estes critérios acima, quase nenhum Misticismo, nenhum Ocultismo, e muito menos pode ser considerada uma instituição cercada pelo Esoterismo, já que todos os seus textos e segredos são encontrados expostos em os mais variados livros que podem ser comprados por iniciados, mas principalmente por profanos, em quaisquer livrarias comerciais.
Como todos sabem, muitos irmãos de Maçonaria, que juraram guardar segredo de tudo que ocorre dentro de uma loja, vivem hoje de vender estes segredos e símbolos e suas significações em inúmeras publicações.
Existem mesmo editoras inteiras dedicadas ao que, ao pé da letra e da lei pode ser classificado exercício organizado e sistemático de profanação.
Muitos perguntar-se-ão, agora, porque alguém teria interesse de pertencer a uma instituição que se diz esotérica, secreta, que na verdade não é nem uma nem outra coisa.
A resposta e explicação deste fenômeno é que textos são muralhas a serem escaladas e alguns tem mais vigor que outros e muito poucos tem o vigor e o interesse necessários, juntos em uma única pessoa, de forma a usar esses textos de forma sistemática para conhecer o que sucede por trás das colunas de um templo maçônico.
Muitos maçons, para tristeza de esoteristas verdadeiros, nada ou muito pouco sabem sobre a história da Maçonaria, seus símbolos e seus significados, fora aqueles que, tomados por um pseudo eruditismo, arrogantemente criam suas próprias e arbitrárias interpretações e as publicam como se fossem uma verdade universal.
Para estes pseudo pesquisadores, capazes de colocar de forma organizada seus delírios em textos e, além disso conseguir quem os publique, com capas e apresentação esmeradas, seus exercícios mentais fantasiosos transformam-se em fonte de lucro.
Não posso citar, por motivos legais e de prudência, títulos ou nomes, mas apenas para quem acompanha de certa forma o ritmo e o teor de algumas editoras de viés maçônico, dou o exemplo de um longo texto escrito a quatro mãos em que os autores atribuem a origem da Ordem Maçônica a seres extraterrestres que teriam visitado a Terra há milhares de anos atrás. E é tal a riqueza de detalhes estapafúrdios que derramam em cada página que me causou curiosidade saber quem compra estas tolices.
E alguém compra; não só compra, mas lê; lendo, crê sem questionamentos no que lê, como produto de um conhecimento profundo.
Mesmo assim, entre tantos títulos expondo e desnudando as entranhas simbólicas da Ordem Maçônica, que insiste na visão fantasiosa de ser uma organização secreta (ou discreta, como querem alguns), encontramos por vêzes textos eruditos, como os de Rizzardo del Camino ou de Nicolas Aslan, de quem me considero um aluno dedicado.
Lá, nas obras de Aslan, embora possam haver algumas poucas controvérsias, encontramos a base teórica e simbólica da maçonaria em geral, uma pesquisa ampla e detalhada de todos os graus maçônicos e seus significados, infelizmente hoje disponíveis apenas em sebos ou pela internet.
E não vendem, porque não possuem apelo publicitário. São textos de um pesquisador apaixonado, um incansável ordenador de informações alagoano, que nos deixou um tesouro literário esotérico inestimável.
Sim, esotérico como só textos verdadeiros profundos podem ser, já que a resposta para a questão acima formulada ("porque alguém teria interesse de pertencer a uma instituição que se diz esotérica, secreta, que na verdade não é nem uma nem outra coisa?") é esta: o esoterismo da maçonaria está na complexidade de sua história e cultura, o qual inibe aqueles que não tem músculos intelectuais de ler, ler e ler, dia após dia, os muitos textos disponíveis sobre a Ordem; mais que isso, inibe aqueles que não tem sequer o discernimento para separar as tolices e fantasias de verdadeiros textos esotéricos.
É esta preguiça intelectual que defende o esotérico do profano, não o esoterista, muito menos qualquer ato de tentativa prática de esconder os textos ou as informações próprias da maçonaria.
É por isso que, mesmo para iniciados na Maçonaria, a Maçonaria continua sendo um mistério. Ao entrar em um templo são incapazes de ler as paredes cheias de símbolos e referências a história da Tradição, ou aos símbolos pendurados nas colunas, ou atrás da cadeira do Venerável Mestre.
Todo templo maçônico é um livro feito de pedra, tinta e símbolos sólidos, mas sua linguagem é uma linguagem lida por poucos.
A grande maioria dos irmãos de Loja sofrem de analfabetismo simbólico e são incapazes de ler as paredes, o chão ou o teto do Templo, aonde nossa história está descrita em detalhes para quem quiser ler.
O Templo é esotérico até para aqueles que o frequentam uma vez por semana, porque o esoterismo não está em evitar que olhemos para alguma coisa, mas sim na dificuldade de entender aquilo que contemplamos.
Compreensão e contemplação são a mesma coisa. Só contempla adequadamente, só se vê , aquilo que se compreende. O que não compreendemos nos causa medo ou é invisível para nós.
Textos e símbolos esotéricos são esotéricos de per si, sem necessidade de que alguém precise zelar pelo seu segredo.
O esoterismo dos textos e dos templos não precisa de esoteristas. É apenas uma característica de tudo que é profundo e que necessita de diferenciação intelectual e espiritual para ser adequadamente compreendido.
Essa é a única razão porque mesmo exposta da forma que tem sido, a Maçonaria ainda consegue vender a idéia de que abriga em seu seio algum segredo que ainda não tenha sido publicado ou exposto no Youtube.
Por isso é certo que as Ordens conhecidas como esotéricas extinguir-se-ão, pouco a pouco, por pura perda de função, mas o Esoterismo em si sobreviverá a elas e provavelmente será base de novos tipos de associações em torno de seus ensinamentos, menos secretas e mais produtivas que as atuais. Pelo menos assim espero.