Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 24 de abril de 2016

A PERSPECTIVA DA TÁVOLA


Por Mario Sales, FRC,SI,MM


Existe uma lenda hindu muito conhecida que fala de quatro cegos e do Elefante que apalpam.
Como todos sabem, relata as dificuldades de nossa percepção do real, sempre incompleta, sempre parcial, e da sensação de certeza que as vezes exibimos em nossos discursos, muitas vezes apoiados em convicções que nascem da experiência.
Um cego acha que o elefante é a tromba, outro a perna, outro o rabo, e ao mesmo tempo que todos estão certos, todos permanecem errados.
Isso retornou a minha memória ao conversar com um irmão de Ordem, que ocupa no momento um cargo administrativo na nossa fraternidade. Dizia ele que coordenar esforços era basicamente compreender que na pirâmide, da base para o topo, sobem informações e descem decisões.







Parece algo tão óbvio, compatível com o pensamento do Egito dos Faraós, que em princípio não entendi minha perplexidade e desconforto com esta afirmação. 

Só depois quando lembrei da lenda entendi aonde eu discordava.
Mesmo em empresas complexas, aonde existe alguma hierarquia, já não se pensa apenas assim, de modo vertical.
Os adeptos da verticalidade, (seja fixa em que os de cima mandam e os de baixo obedecem sem discussão como no ambiente militar, seja dinâmica, como em empresas que seguem a fala daquele Frater, onde os de cima colhem informações dos de baixo, deliberam e devolvem instruções e normas para os de baixo), em nenhum momento questionam a verticalidade em si.
O modelo vertical é outra cicatriz cultural da poderosa influência dos gregos sobre nós.
É em Aristóteles, o organizador, que vamos encontrar as primeiras formulações da compreensão vertical, que até hoje marca nossas falas e concepções.
É dele que tiramos a ideia de que as coisas boas ficam em cima e as ruins em baixo. Que o alto é a Terra dos Deuses e o baixo, ou In-ferno, é a Terra dos Demônios.

Esta concepção encontra eco na Cabala, no modelo da Árvore da Vida; nas descrições da Organização Espiritual do Cosmos, na Doutrina Secreta; ou nos textos bíblicos, do Novo Testamento, quando o Cristo se refere a Deus como "Pai Nosso que estás nos Céus".
Tudo que é digno e espiritual tem caráter "elevado" e aquilo que é vil e desprezível é caracterizado como de baixo nível.
Hierarquias (de hieros - sagrado e arkhein – princípio, início), são disposições que pressupões uma escala de importância para os diferentes ocupantes de seus diferentes níveis, a exemplo da Hierarquia dos Anjos de Dioniso, o pseudo-areopagita, onde os Anjos mais nobres estão mais perto de Deus.
Hierarquia é uma palavra que se refere mais a Poder do que a modelo administrativo. Manda quem pode. 

E quem pode é quem está em um nível mais alto.
O mundo mudou muito e uma das características desta sociedade líquida, como chama lindamente Bauman, é a pulverização das informações e das intervenções.
As empresas de tecnologia de ponta entenderam isso e o ambiente de trabalho reflete esta compreensão.
Não há, nestes ambientes mais avançados, nada mais valioso que o capital humano e sua capacidade de fornecer ideias que modifiquem a qualidade da vida e acelerem o desempenho da instituição.
E se existe alguma coisa que sufoca a capacidade de oferecer contribuições intelectuais ao processo decisório é a verticalidade administrativa, a hierarquia.
De modo simbólico, é como se o peso das muitas camadas acima espremesse as camadas mais baixas, que as sustentam.
Pirâmides, pois, como na imagem do meu Frater, anos atrás, não são uma imagem que satisfaça modernos perfis administrativos, seja em uma empresa de alta tecnologia, seja em uma fraternidade esotérica, como AMORC.
Ao invés, pois, do pensamento administrativo vertical, eu sugeriria, refletindo a visão contemporânea digital e a própria lenda dos cegos e do elefante, a perspectiva horizontal, que chamarei de A Perspectiva da Távola.
Mas porque Távola? Trata-se de uma alusão a Távola Redonda e a lenda do Rei Artur.
Reza a lenda que o rei e seus cavaleiros sentavam-se em uma távola ou mesa redonda, de forma que a ninguém fosse dada a condição de superioridade que na época era atributo dos reis e nobres. A lenda é, do ponto de vista histórico e social, uma visão extremamente avançada para a sua época e até para a nossa, pelo discurso do meu Frater.
Por que uma loja Maçônica tem um formato retangular, com um trono ao fundo, em um patamar mais alto?
Porque irmãos tem que ser separados em um ambiente que reproduz e representa o mundo, a Loja, em patamares diferentes, aonde os que ocuparam cargos administrativos são colocados três degraus acima daqueles que não passaram por essas situações administrativas?
Existe, apenas na disposição geométrica da Loja Maçônica, uma insinuação de desigualdade, que eu reconheço, é real, mas do jeito que a visão vertical pleiteia.
Por esta, o desigual manifesta-se entre inferiores e superiores, entre Mestres e os outros, teoricamente não dotados da mesma maestria ou conhecimento.
Qualquer pessoa que conheça a realidade de uma Loja Maçônica sabe que isto é um desatino. Recém iniciados as vezes manifestam um conhecimento e uma sensibilidade que não pode ser encontrada em irmãos mais antigos, impregnados de uma soberba e de uma arrogância já descrita no Eclesiastes (Vaidade, vaidade, tudo é vaidade).
A verdadeira autoridade, qualquer iniciado sabe, não vem dos homens, mas do Eterno. E ele dá, a quem lhe aprouver, a inspiração.



Irmandades, para fazer jus a este título, tinham que ser vivenciadas em templos circulares, e todos sentar-se-iam em uma mesa redonda, como os cavaleiros de Artur, de forma a que a Geometria fosse harmonizada com os valores fraternos.
Não porque somos bons ou generosos, mas porque faz sentido, como no caso do elefante e dos cegos. Não somos capazes de decidir sozinhos nada de grandioso se não tivermos múltiplas colaborações de várias mentes ao mesmo tempo, juntas em um esforço de compartilhamento de idéias e percepções.
É assim que se faz em ciência e em administração contemporânea.
Somos todos cegos. E o elefante é imenso.
De quantos cegos precisamos para apalpar o gigantesco elefante? De todos que pudermos arregimentar.
Supor que alguém tem o dom de nos liderar e dizer a nós, os seguidores, o melhor caminho, obedece apenas ao princípio da verticalidade, disfarçado de horizontal quando se manifesta na forma da fila indiana. Um líder, vários liderados.
Tal perspectiva já não e mais aceitável ou adequada.
Precisamos de mais colaboração e menos liderança.
Menos ordens e mais co-ordenação.
E para isso, precisamos da perspectiva da Távola Redonda, todos juntos contra o desafio de definir qual é a real forma do elefante da realidade.


O Bhagavad Gita narra que a pedido de Arjuna, Deus revela sua forma Cósmica. E a narração é de que “Arjuna viu naquela forma universal bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas. ” (Capitulo 11; versículo 10)
Sim, Deus fala por milhares de bocas, e não ouvir uma que seja é perder parte da fala de Deus. Este verdadeiro desafio logístico é possível na perspectiva da Távola.


Todos podem e devem opinar, e a tecnologia moderna permite isso e cabe àquele que serve na função de administrador facilitar a chegada das diferentes informações dos muitos “cegos” que apalpam o “elefante”
com seus relatos, suas impressões a quem possa interessar.
Só assim é possível a montagem de um modelo tridimensional mais fiel do que está a nossa volta, acima, abaixo, a direita e à esquerda.


Só assim é possível deitar a cruz do Cristo, já que, física e metaforicamente, elevá-lo acima do solo tortura-o e afasta-o de nós.
Deitemos, pois, a cruz e permitamos que os braços apontem para quatro direções no plano, um X, como no início da palavra grega para Cristo, “Χριστός”.


Se todos somos cegos, não podemos permitir que um cego guie outros cegos.
Não é seguro.
Isto vale para empresas, para a política e para, principalmente, Ordens que se dizem fraternidades, como a Maçonaria e AMORC.


Daí a frase que marca a vida de um artesão rosacruz, os irmãos mais antigos. Servir é a única coisa que importa.
E que maior serviço pode existir senão o compartilhar de ideias e sensações, a doação de nossas percepções particulares, que não são nossas, mas que chegam através de nós, como de outros?
Deus tem muitas bocas, diz o Gita.
O homem apenas dois ouvidos.
Não somos apenas cegos, mas também surdos. 

Reconheçamos nossas limitações e compartilhemos nossas possibilidades limitadas em um mosaico de almas e mentes.
Só uma Távola Redonda que nos coloque frente a frente, uns com os outros, e permita que troquemos informações permanentemente, pode nos dar percepção mais fidedigna dos desígnios e inspirações do Eterno.
Além de tudo, a perspectiva da távola já é tecnologicamente possível e realizável. Falta a coragem para abdicar do poder e sair da zona de conforto.
Ao menos dentro do que chamamos Fraternidades.
Faria muito mais sentido.