Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A TÉCNICA DO SILÊNCIO

por Mario Sales
  


Minha esposa me ensinou o silencio.
Ela tem o habito de não responder as minhas perguntas, a não ser que eu insista ou clame de forma intensa por sua atenção.
É distraída, uma idiossincrasia.
Não é que não escute. 
Este, o surdo em potencial da casa sou eu, organicamente falando.
Não. É mais uma preguiça mental e psicológica de responder, uma lentidão no pensar e no agir, que às vezes pode ser uma vantagem e sempre é exasperante.
Como eu disse, um jeito de ser.
O que aconteceu é que, com o tempo, eu, que era notoriamente um incontinente verbal, aprendi a me calar mais e a reter mais as palavras. Não quer dizer que fale pouco, mas falo bem menos do que falava no passado pela convivência por uma mestra do silêncio como a minha esposa.
Uma característica, aliás, muito útil em negociações comerciais.
De todo modo, é uma habilidade: ficar quieto, não responder a tudo que nos perguntam, a não ser com um sorriso, que nos faz parecer mais sábios, mais misteriosos e interessantes.
Quem tudo fala, tudo revela sobre assuntos que domine, deixando pouco espaço ao outro para investigar, fornecendo à terceiros, de certa forma, um poder sobre nós que faz rapidamente que nos tornemos desinteressantes, e frágeis.
Por outro lado, os que silenciam inibem seu interlocutor, pois ao ocultarem o que não sabem, parecem saber mais do que sabem, deixam aberto o espaço da imaginação do outro, que constrói deuses e demônios onde existem apenas seres humanos comuns.
E ao contrário do revelado, do exposto, o implícito e o sugerido, porém não enunciado, projeta flashes de luzes que mimetizam sombras e contornos irreais em si, mas suficientemente capazes de gerar receios e controvérsia em mentes mais impressionáveis.
O que parecemos ser é sempre uma imagem mais poderosa do que aquilo que realmente somos.
Não devemos sofrer com isso, mas ao invés disso, devemos usar esta característica da mente humana em relacionamento a nosso favor, aplicando nos diálogos momentos voluntários de silêncio, estratégicos silêncios, espaços nos quais o outro possa se encaixar, nos construindo com sua imaginação.
Parecerá ao outro que somos exatamente aquilo que ele sempre esperou de um ser humano, mas apenas porque seremos uma construção feita a quatro mãos, ou melhor, a duas mentes, e parte de nossa simpatia será baseada em uma afinidade imaginada pelo outro no ato de nos construir de acordo com as suas concepções de mundo, argamassa mental que ele colocará nos espaços que deixaremos para que ele preencha. Enquanto isso, devemos observar, com muita atenção, serenos, quem está a nossa frente.
Por que sempre que nos afastamos, o outro assume o palco, e se revela em seu drama. E aí seremos nós a termos a informação privilegiada, seremos nós a ter o poder de conhecer melhor o outro do que ele a nós.
Prudência implica discrição.
E silencio.

Um estratégico e planejado silencio.