Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 13 de março de 2017

OS PLANOS DA ÁRVORE DA VIDA E O ANTIGO PROJETOR DE CINEMA

Por Mario Sales FRC, SI






Um dos conceitos mais abstratos presente na estrutura simbólica da Árvore da Vida no Cabalá é a noção de mundos e suas características.
Entender o primeiro e mais alto mundo, Atziluth, com sua condição não-não (não temporal e não espacial) é relativamente fácil.
Considerado um plano altamente metafísico, no plano das idéias, não necessitaria nem de uma nem de outra condição.
Da mesma forma, no plano de Assiah, (aonde está Malkuth, O Reino, aonde estamos nós, na Terra), também é relativamente simples, já que aqui temos uma combinação sim-sim (sim para espaço e para tempo), o que intelectualmente não oferece nenhum problema em ser compreendido.
O nó górdio está nos planos intermediários, Briah e Yetzirah, o primeiro Temporal e Não Espacial, e o segundo Não Temporal, mas Espacial.
Durante a conversa do Grupo de Estudos Cabalísticos, aonde estamos encerrando a leitura do Sepher Yetzirah, por alguma razão que já não me recordo, caímos neste debate.
Recorri a duas imagens para digerir a questão e dar-lhes contornos mais palpáveis.
Primeiro, comparei o Elemento Tempo ao conceito de Movimento.
Tempo, neste caso, seria o movimento dos instantes, o devir como diz a filosofia, ou as durações, como chama Henry Bérgson, se bem que no conceito deste filosofo francês, não existem instantes, mas um todo indivisível e impossível de ser medido, um tecido único, ao contrário do tempo dos segundos, minutos e horas.
De qualquer maneira, tempo é o mesmo que movimento. E é assim que a vida começa o que chamamos existência.
A comparação mais fácil é com o projetor de cinema antigo, ao qual novamente recorro.


Nos antigos projetores , o filme só podia ser projetado se corresse, ou melhor, se movimentasse, em grande velocidade, na frente da lâmpada do projetor.
Mesmo em havendo filme no projetor, duas condições deveriam ser preenchidas para que o filme fosse projetado: primeiro, a lâmpada do projetor, a Luz, deveria ser acesa e segundo, o filme deveria movimentar-se diante dela.
São essas duas coisas que fazem o milagre do cinema, a sensação de que a nossa frente, uma realidade se descortina, com sensação de profundidade, com a vivencia de sentimentos, provocando em nós, espectadores passivos do que ocorre emoções fortes de amor, ódio, medo ou carinho.
Como já disse, é de Richard Bach esta idéia de reproduzir as noções da Doutrina Vedântica Hinduísta, de Maya, comparando-a com uma sala de cinema.
Nossa vida é Ilusão, diz o Hinduísmo. Como um filme, ele acontece com a única finalidade de desencadear em nós aprendizado emocional. Mestre é aquele que percebendo isso, torna-se um observador mais atento e não se confunde com o que ocorre na tela de projeção, cônscio todo o tempo de que trata-se de uma ilusão, mesmo que concedamos temporariamente em aceita-la como real, pelo menos pelo tempo de uma encarnação ou de uma sessão de cinema.
Portanto, partindo do princípio de que “a Luz é um atributo do Ser”, o projetor lança sua luz através do filme reservado para aquela sessão, para aquela encarnação, e a fantasia, a ilusão, se inicia, para nosso aprendizado e diversão.
Voltando aos mundos da Árvore da Vida, usando o modelo do projetor, o espaço sem tempo seria o momento em que a extensão com o filme, (espaço) está posta no projetor, mas o mesmo ainda não foi ligado. No nosso recurso comparativo, é o momento antes do tempo e do espaço estarem atuando juntos.
Em que momento existe tempo (movimento do filme) e espaço (o filme em si no projetor)? Segundo a árvore, em Assiah, aonde está Malkuth.
E aonde temos espaço sem tempo (filme parado ainda sem se movimentar)? Em Yetzirah, antes de Assiah.
Perfeito até aqui.
Nosso modelo começa a fazer água quando tentamos usá-lo para descrever o Tempo sem espaço, o Movimento sem filme no projetor.
E isto acontece porque consideramos Espaço como referindo-se sempre a fita de acetato do filme, já no rolo, e Tempo sempre como o Movimento desta fita.
Foi aqui que percebi que o Espaço e o Tempo de Yetzirah não são os mesmos de Briah.
Temos que sair do projetor para entender isso.
Em Briah tudo está sendo idealizado para ser projetado depois em Assiah, nossa tela de projeção da vida, a Maya de todos nós.
Portanto, o Tempo de Briah é Movimento na cabeça do Diretor, por isso não necessita de Espaço, embora depois vá se materializar na fita de acetato daquelas eras pré cinema digital. Existe Movimento sim, mas o movimento das idéias e das imagens que o Diretor elabora e que depois vai descrever para seus atores, recorrendo até a um story board (esboço sequencial) para que eles vejam o que ele vê em sua própria cabeça.
Só que realmente não há ainda o filme material, se bem que as ideias já se movimentam (Tempo).


Story board de uma cena mostrando um casal que vai ao cinema quadro a quadro


Em Briah existe Movimento, mas apenas mental, sem fita de acetato, sem projetor, ainda. Tempo, pois, sem espaço.

O diretor James Cameron ao lado de um dos personagens de Avatar


Acho que assim estes conceitos extremamente abstratos ganham uma clareza didática maior.