Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O SALMO, O DESEJO E O FATO

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



É idéia comum entre esoteristas que a realidade é produto da qualidade de nosso pensamento.


Como ondas de materialização que incessantemente batem na praia da chamada realidade, modificando-a, os tipos de pensamentos que alimentamos produzem seus reflexos em nossa vida pessoal e na vida social que nos cerca.


É diferente de simplesmente querer que as coisas sejam de algum modo que elas não são. Trata-se das convicções profundas, aquelas concepções às vezes tão radicais em nós que residem no subconscientes e que determinam nossa idéia de mundo.


Valores como crer na miséria como sinônimo de santidade, ou vice versa; na existência de culpa ou pecado em nós quando cometemos erros que poderiam ser atribuídos apenas à ignorância; em se sentir infeliz pela perda de certas condições materiais como se situações transitórias como poder social, reputação e relacionamentos pudessem ser sustentação segura para um estado de bem estar emocional duradouro, e outros possíveis exemplos.


Convicções são coisas muito sérias e podem levar as pessoas a supor reais e transformar em verdadeiramente reais coisas que são apenas ( se é que posso usar essa palavra) concepções pessoais do real.


São, para ser mais didático, nas palavras do Monge Dom, responsável no passado pelo mosteiro budista de Santa Teresa, um Bairro tradicional do Rio de Janeiro, como as lentes coloridas de um par de óculos.


Olhamos o mundo dessas lentes coloridas: nossas mentes. Se as lentes são vermelhas, o mundo nos parecerá banhado em sangue; se azuis, o mundo nos parecerá absolutamente azul. Se cinza, tudo nos parecerá sombrio.


Davi, o salmista, tinha suas próprias lentes, suas próprias crenças, e passou adiante suas imagens de acordo com aquilo que via, ou que acreditava enxergar. Muitos, por identificação cultural religiosa, judeus por exemplo, ou cristãos, que forma criados lendo seus salmos, passaram a exercitar suas mentes para ver o mundo como ele, Davi, via, de forma que suas concepções foram copiadas e reproduzidas.


Convencer pessoas é fazer com que elas vejam as coisas como nós vemos, fazer com que usem os óculos que nós usamos e além disso, usarem estes óculos sem perceber que os estão usando.


Davi com o lirismo e a força de suas palavras em seus salmos, passou muitas concepções adiante e séculos depois existem pessoas que procuram seguir suas orientações visuais-psicológicas, digamos assim.


Uma delas está no salmo 91( ou 92) , versículo, versículos 10 e 11, aonde ele vaticina que “Aquele que habita no esconderijo do altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” e conclui nos versículos citados que “ nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda; porque dará ordem aos seus anjos a teu respeito para te guardarem em todos os teus caminhos.”


Todos nós gostaríamos de crer nestas palavras. Talvez conscientemente creiamos, mas inconscientemente não. O certo é que, mesmo aqueles que procuram viver com justiça, que dedicam sua vida a pregação da palavra, que estão compromissados com uma melhoria espiritual, não estão a salvo da dor ou do infortúnio, e muitos menos pairam sobre eles uma redoma invisível que evita que sofram qualquer dano pessoal, seja direta ou indiretamente, através de seus familiares.


Todos nós, pessoas comuns, passamos por problemas, e “algum mal”, sempre nos sucede, ao longo de uma vida, ou sucede àqueles que amamos. As pragas, às vezes chegam às nossas “tendas”, e precisamos lidar, via de regra, com a doença ou com a morte em nosso ambiente familiar. Mesmo assim, muitas pessoas lêem as palavras do salmista como uma espécie de mantra do medo, como se sua leitura repetida realmente pudesse exercer algum tipo de magia sobre a vida material e suspender imediatamente todos os inevitáveis infortúnios da existência.


Só que não é assim.


E aquêles que aspiram a ser Magos, sabem o quanto é importante evitarem o “Pensamento Mágico”, que significa ver o mundo de forma infantil, e acreditar em soluções de natureza fantasiosa, mesmo admitindo como admito, a força de uma fantasia sobre nossas vidas.


Realismo não é amargura, mas evita a amargura. Quando nossas expectativas são realistas, quando não alimentamos ilusões de uma falsa indestrutibilidade diante da Vida, não sofremos desilusões.


Isso evita a decepção e a revolta, e aumenta a nossa aceitação dos problemas, mobilizando-nos na busca de soluções mais objetivas, de forma mais objetiva, sem tergiversações.


O problema das crença sem fundamentação, o chamado “Pensamento Mágico”, é exatamente este: ele rouba nossa objetividade, torna a Existência exageradamente subjetiva e , por conseqüência, confusa.


Baseia-se apenas em um desejo superficial, calcado em convicções profundas e irrealistas. Daí as diversas lentes coloridas com que revestimos a nossa visão de mundo, a nossa concepção de realidade.


Místicos, Magos, não podem ser vítimas do “Pensamento Mágico”, e devem ser tão objetivos ou mais objetivos até do que aqueles que não são iniciados.


Bom senso e falta de bom senso também separa os verdadeiros Magos dos falsos.


E toda vez que usarmos o poder de nossas mentes para mudar o real, recomenda-se que tenhamos estas linhas de raciocínio à mão, para que não confundamos nossos desejos com os fatos que nos cercam, e possamos, efetivamente, mudar a realidade a nossa volta.


Não será pela repetição de um texto que transformaremos a realidade, mas pela modificação de nossas convicções íntimas, e este trabalho é feito num nível bem mais profundo do que a linguagem.


Precisa tempo, sentimento, oração, calma e persistência.


Fomos convencidos de muitas idéias, numa palavra, demoníacas, acerca da vida e necessitamos de anos para nos desintoxicarmos deste envenenamento mental social.


Não basta repetirmos várias vezes por dia que estamos felizes. É preciso sentirmos esta felicidade dentro de nós.


Não basta repetirmos centenas de vezes que cremos em Deus; é preciso sentir sua presença em nós.


Pois como todos sabem é possível falar sem crer em nada do que se fala.


Aquele que tem o verdadeiro poder fala com o coração, é assim que se diz, suas palavras não sabem de sua boca, mas de sua alma, de seu espírito.


Esta palavra que vem do coração, dita por uma língua cardíaca, é rara e poderosa.


E isto é muito mais profundo que um simples desejo.


Este poder é um poder de fato.


Mais forte que uma oração. Mais forte do que um simples desejo.