Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 14 de maio de 2011

NÃO EXISTE LIVRE ARBÍTRIO

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Seguindo pensadores que não sabia à época que pensavam como eu, entre eles Espinosa e Schopenhauer, defendo esta tese para angústia de muitos de meus amigos que não suportam a idéia de falta de liberdade em suas decisões.
Esses amigos sempre me opõem o fato de que o Determinismo (que eles imaginam é a única opção ao Livre Arbítrio), tornaria a vida sem sentido e insípida. Não é bem assim. Estudo o assunto há alguns anos. Sei de outras alternativas a oposição Livre Arbítrio X Determinismo, como por exemplo o Compatibilismo[1], que como o nome diz tenta compatibilizar ambas as idéias. O Compatibilista pensa a liberdade como a ausência de coação externa e não a presença ou ausência de relação causa e efeito na decisão tomada. Até admitem que exista interligação entre tudo que acontece, mas  desde que no momento de tomar a decisão ninguém constranja o indivíduo, ela foi tomada livremente.
Interessante recurso intelectual mas não passa de um contorno da questão em si: pode existir uma decisão realmente livre?
Em minha humilde opinião, não.
Só que o Determinismo como foi proposto no passado é também uma definição insatisfatória.
No fundo minha teoria não é nenhuma das três citadas.
Minha tese pode ser chamada de Arbítrio Ponderado por Retroalimentação da Experiência (APRE), pois acredito na capacidade de arbítrio, embora não na sua liberdade.
É como na natureza, no funcionamento das glândulas e dos hormônios, só que aplicado ao fenômeno da escolha.


Nossas escolhas não podem prescindir da experiência, ou seja, da participação neurológica da memória e da evocação das informações que nos auxiliarão nas escolhas que faremos.
São estas lembranças, com as quais os fatos da existência nos alimentam, que tornam a nossa liberdade impossível, graças a Deus, pois elas nos permitem fazer a melhor escolha diante de nossas informações.
Quanto maior o nosso conhecimento e experiência mais prudente será nossa escolha, mas acertada nossa decisão, porque a memória nos trará a mente dados e mais dados que impedirão que repitamos, perdoem a vulgaridade da colocação, as mesmas bobagens do passado.

Não pode haver liberdade porque senão não haveria Evolução.
Justamente porque evoluímos e melhoramos nossa bagagem cultural, nossas decisões mudam, atreladas que são à nossas novas e antigas informações.
A cada informação, a cada conhecimento novo, somos retroalimentados com perspectivas que fundamentarão e direcionarão as nossas opções futuras.
Assim o futuro é bastante complexo pois está atrelado diretamente as decisões presentes, que irão nos direcionando, mais à esquerda, mais à direita, de acordo com a postura que tomemos no aqui e no agora.


Santo Agostinho


A idéia de liberdade está ligada a tentativa de Santo Agostinho de salvar a reputação do Todo Poderoso diante dos ataques dos Maniqueus, que argumentavam que existia o Mal e existia o Bem, e que o Universo era governado por duas forças antagônicas , duas divindades opostas que rivalizavam em poder.
Agostinho queria provar que: 1. Deus era Uno e 2. Deus não era e não poderia ser o autor do Mal já que Deus é só bondade.
Daí esta estratégia filosófica brilhante para a época, século IV, dizendo que Deus criou o Homem e lhe deu o Livre Arbítrio para que ele escolhesse e amadurecesse, e permitiu que escolhesse livremente entre o bem e o mal porque uma vez que lhe havia outorgado a Liberdade não a poderia retirar, tornando-se assim um Deus, paradoxalmente, não Onipotente.
A idéia de Agostinho era de que o erro era pecado sempre, e que o acerto era produto da graça de Deus.


Descartes


Tivemos que esperar 12 séculos, até que Renée Descartes dissesse que não havia pecado, mas Erro, e que o Erro não demandava perdão, mas correção.
Errar é normal. Repetir o erro é possível, já que às vezes o conhecimento não foi absorvido plenamente da primeira vez. Eventualmente, entretanto, o indivíduo perceberá, pelo desconforto ou pelo sofrimento, que suas opções estão incorretas e fará novas opções, que o colocarão em um novo rumo de causa e efeito.
Descartes disse certa vez que tudo que fazemos é em busca da felicidade. Também acho, só que poderia se dizer que mesmo nossos erros buscam esta mesma felicidade. Ao percebermos nosso equívoco, recuamos e enveredamos por outra via, que agora nos parece mais adequada e capaz de nos dar uma melhor qualidade de vida.
Agir, às vezes Errar, perceber o Erro, corrigir o Erro e Aperfeiçoar a Ação.
Esta é a equação da Evolução humana, que graças a Deus, não é livre, mas escrava de nosso Conhecimento pregresso e absolutamente determinada por nossa Cultura.



[1] O compatibilismo nada mais é que uma versão soft do determinismo, pois aceita a hipótese de que eventos (mentais e fisicos) são causados de modo necesssário e suficiente. No entanto, a noção de liberdade adotada é de ausencia de restrições ou coações e não de determinação causal. Compatibilistas podem definir o livre-arbítrio como emergindo de uma causa interior, por exemplo os pensamentos, as crenças e os desejos” 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Livre-arb%C3%ADtrio#Teorias_compatibilistas_e_o_princ.C3.ADpio_poderia-ter-agido-de-outra-maneira