Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 15 de maio de 2011

A QUESTÃO DO BEM E DO MAL



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:




Esta é uma questão espinhosa porque perpassa crenças e valores. E como a maioria dos cérebros tende a raciocinar pela lei de menor esforço, é difícil às vezes demonstrar que certas dualidades e oposições são enganosas e produto apenas da limitação de compreensão que nos caracteriza neste plano de manifestação.
A questão do Bem e do Mal é tradicional e atávica.
Todos têm alguma teoria sobre o tema.
No ensaio anterior (“NÃO EXISTE LIVRE ARBÍTRIO”), especulei sobre as concepções de Santo Agostinho, bispo de Hipona, que no seu trabalho intelectual tentou livrar Deus da acusação de ser responsável pelas coisas ruins da Vida.
O Homem, em sua imensa Vaidade, supõe que o Todo Poderoso necessita de sua proteção e não ao contrário, que nós precisemos de Deus em nossas vidas de maneira mais intensa e marcante.
Ora, meus amigos conhecem minha opinião sobre o assunto: Deus não é bom ou mal: Deus é Deus. Nesse aspecto, capaz de todas as coisas, responsável por tudo que existe, mesmo as coisas que achamos ruins, tanto quanto aquelas que achamos boas.



Sim, porque antes de discutirmos se Deus é o responsável pelo Mal é preciso discutir nossa particular idéia de Mal e de Bem. Nada é tão óbvio quanto parece.
A Demência Orgânica nas pessoas idosas é meu modelo filosófico.
Quem contempla um portador de Alzheimer, essa moléstia devastadora e frustrante para qualquer médico, julga ver um indivíduo em grande sofrimento. Na verdade, a Demência protege o Demente, de forma que quanto mais inconsciente ele estiver de sua situação, menos sofrimento experimentará.



É a consciência do mundo que possuímos (nós, pessoas não portadoras da mesma doença, capazes de emitir juízo de valor), que nos causa desconforto pela situação daquele que antes era uma pianista, ou um advogado e empresário bem sucedido e que agora não conseguem tomar banho ou alimentar-se sozinhos.
Aquele que não sabe o que está acontecendo não pode experimentar nenhum sofrimento pelo que não vê.
Portanto, como eu disse, a Demência protege o Demente. 
E o poupa da dor de se contemplar naquele estado. Sabe-se que o paciente em estado de Demência Orgânica, Alzheimer ou não, experimenta breves períodos de lucidez, as chamadas janelas de consciência, que progressivamente vão diminuindo até desaparecerem.
Nestes momentos, suponho, existe sofrimento. Mas então vem de novo o estado de incapacidade de compreensão e a dor desaparece, como em uma anestesia, que retira, em segundos, a dor.
Isto explica a subjetividade daquilo que chamamos de Mal quando testemunhamos um evento que julgamos ser nefasto.
Outra possibilidade, no entanto, é quando passamos por situações devastadoras, que testam nossa resistência moral e nosso equilíbrio psicológico, para usar um termo psiquiátrico, nosso grau de resiliência.
Aí, a bagagem filosófica e mesmo religiosa de um indivíduo é fundamental para que ele atravesse esses períodos difíceis com integridade.
Sofreremos, pois somos apenas homens e mulheres comuns. Só que se tivermos no íntimo a convicção de que o Universo não nos é hostil, que nada, por mais assustador que seja, visa o nosso prejuízo, talvez possamos atravessar nossas vicissitudes com mais resignação, se necessário, e com mais compreensão, se possível.
Ao contrário, aquele que se vê despido de qualquer formação interior para lidar com os dissabores, que supõe que a vida boa é aquela em que tudo é azul e indolor, e que o Universo bom é aquele que não nos causa nenhum desconforto, este está em uma situação no mínimo, psicologicamente desvantajosa.
Tudo acontece a todos, em toda a parte, e nenhum de nós tem alguma proteção mágica contra a Vida, em si.
Temos apenas nossa compreensão e nossos valores conosco e, em certas horas serão estas coisas tudo que teremos para nos sustentar.
E mais uma vez, o Invisível definirá o Visível.
Veremos o Mundo pela lente colorida que possuirmos.
Se vermelha, tudo será vermelho; se azul, tudo será azul; e se não tiver cor, veremos as coisas como elas são, sem cor, sem fundo musical, apenas coisas que acontecem, nada mais.
Existe um vídeo humorístico no You Tube chamado “O Pastor Ateu”, que como o nome diz, apresenta um culto com traços protestantes e fundamentalistas tão comuns nos EUA, onde o Pastor prega valores do ateísmo, sem nenhum pudor, para seus seguidores.
A parte mais divertida e mais filosófica do vídeo, no entanto é quando ele cita em sua pregação:
“As pessoas me perguntam por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? E eu respondo dizendo que coisas boas também acontecem com pessoas ruins, e pessoas boas acontecem para coisas ruins, e às vezes, nada acontece às pessoas.”
É isso. As coisas, como Deus, não são boas ou más: são apenas coisas, fatos da vida. 
E creio, embora às vezes seja difícil saber por que, que todas têm apenas uma função: melhorar nossa consciência e ampliar nossa compreensão do mundo. 
Nada mais.