Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

COISAS LEGAIS NO GLOSSÁRIO TEOSÓFICO


     
Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Quero compartilhar com vocês um achado delicioso que fiz no Glossário Teosófico hoje pela manhã. A minha é a 2ª edição traduzida por Silvia Sarzana, da Editora Ground, sob a supervisão de Murillo Nunes de Azevedo, 1991.
Folheando ao acaso este tomo , parei na página 330, na definição do verbete “Luz”. Lá está escrito: “A conexão entre luz e entonação (svara) dos Vedas é um dos mais profundos segredos do esoterismo. (T.Suba Row)
A Luz é a Mansão de Ormuzd(1), segundo os Parsis; para apagar uma luz, abanam com a mão ou com um leque e, quando se trata de uma vela, cortam a ponta acesa umas três ou quatro linhas abaixo do pavio, levam para casa e deixam que se consuma perto do fogo.(Zend Avesta II, pág.567)”


Espero que por solidariedade, sintam-se tão perplexos como eu. Ler o Glossário Teosófico de Blavatsky é tão duro quanto ler a Doutrina Secreta. A expressão "a Mansão de Ormuzd" eu nem vou comentar. Ninguém pode acusar Blavatsky de ser didática e o sem número de informações que praticamente se derramam em nossos olhos engasga o mais persistente estudante.
Às vezes me lembra as classificações de Borges. Michel Foucault, filósofo francês, diz no prefácio de seu livro mais fascinante, “As Palavras e as Coisas”, que o mesmo nasceu de um texto de Borges, “do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento.”

Jorge Luis Borges

O texto de Borges a que Foucault se refere, fala de “uma certa enciclopédia chinesa, onde está escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões ; e)sereias ; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera; m) que acabam de quebrar a bilha; n)que de longe parecem moscas.”
Ler Blavatsky, muitas vezes, me parece o mesmo.
Primeiro temos o verbete, Luz, simplesmente, e então, em vez da definição de Luz, passa-se a falar da “conexão entre Luz e Entonação (Svara) (?).
O que me chamou a atenção, no entanto, em meio a este Caos intelectual blavatskyano foi a referência ao fato que esses Parsis (que no mesmo glossário descobri serem os seguidores do Zoroastrismo, religião do Antigo Irã) “ao apagar uma luz, abanam com a mão ou com um leque”, ou seja, não sopram.
Grupo de Parsis, em Mumbai, Índia

Este, imediatamente reconheci, é um hábito e um ensinamento rosacruz. Desde os primórdios de minha afiliação nesta encarnação, em 1975, me diziam que “um rosacruz jamais assopra uma vela, mas sempre a apaga com os dedos, ou abanando ou com o abafador.” Como a Ordem Rosacruz não é uma escola de supersticiosos, logo indaguei por que se fazia desse modo, ao que recebi a seguinte resposta: “Porque considera-se desrespeitoso.” Não me satisfez, mas engoli e deixei passar. Afinal não era um grande problema.
Agora entendo a razão. A Luz, do verbete do Glossário, não é apenas a Luz em si, mas o símbolo da Luz espiritual, a Luz Divina.
Zororastro
A Vela e sua luz representam simbolicamente essa Grande Luz. Lendo sobre “Svara”, o termo sânscrito usado para definir “entonação”, na explicação do verbete, ainda no Glossário, na página 665, vejo que pode ser traduzido por “A corrente da Onda da Vida; O Grande Alento; o Alento Humano.” Ou em termos rosacruzes, Nous. E continua a explicação: “Svara, O Grande Alento, em qualquer plano de vida, tem cinco modificações, ou seja, os Tattwas, (Râma Prasad). Svara significa também: tom, entonação; acento, nota musical.” Ou seja, a tradução do verbete de Luz não foi feliz, pois deveria em vez de “entonação” ter falado em “O Grande Alento”, já que assim configuraria a imagem: o Sopro que normalmente usamos para apagar uma chama de vela.
Vi intuitivamente que O Grande Alento, manifestação do Sagrado em nós, O Espírito de Deus em Nós, não pode ser usado para fazer cessar a Luz ou qualquer um dos seus símbolos.
É muito significativa a imagem e agora fica clara. Como detentora da condição de preservadora da Tradição Mística, a Cultura Rosacruz absorveu uma prática dos seguidores do Zoroastrismo, belíssima, que representa o respeito à Luz e ao Grande Alento presente no Sopro, o mesmo sopro que Deus usou para dar vida ao Homem, no Gênesis.

Lindo.
Só que como explicado no Glossário Teosófico, Borginiano [como na classificação: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d)leitões; e)sereias].
Seria divertido se não fosse tão intelectualmente angustiante. Foram três verbetes para entender um. 
Mesmo assim, que bonito.


(1) Ormuzd é o mestre e criador do mundo. Ele é soberano, onisciente, deus da ordem. O Sol é seu olho, o céu suas vestes bordadas de estrelas. Atar o relâmpago, é seu cílio. Apô, as águas, são suas esposas. Ahura Mazda é o criador de outras sete divindades supremas, os Amesha Spenta, que reinam, cada um, sobre uma parte da criação e que parecem ser desdobramentos de Ahura Mazda. Sob Ahura Mazda e os seis Amesha Spenta a mitologia persa coloca, como divindades benéficas: "Mitra", o mestre do espaço livre; Tistrya, o deus das trovoadas; Verethraghna, o deus da vitória; ela admitia, além disso, um grande número de deuses do mesmo elemento, os Izeds: fonte.http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_persa