Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

INTERNET E ESOTERISMO


por Mario Sales, FRC.:, C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)


Para usar uma palavra em voga, o Tsunami da Internet já nos atingiu.
Não há ninguém que, consciente ou inconscientemente, não esteja na rede, participando, se expondo ou sendo exposto neste novo ambiente de relacionamento humano. Com o aditivo de ser um fenomeno internacional.
As ordens esotéricas, todas, estão perplexas e inseguras com esta situação. Se já era difícil manter o sigilo dos textos considerados décadas atrás "secretos", hoje é praticamente impossível.
Vejamos por exemplo a maçonaria. Todo maçon jura segredo do que se passa em Templo e das informações que lhe são repassadas nas reuniões.
Já há décadas, tornou-se um hábito, entretanto, a demonstração de erudição através da publicação destes mesmos segredos, de forma ampla, geral e irrestrita, acompanhados de detalhadas explicações.
Agora, com o advento da Internet e dos inúmeros meios de registro eletrônico, tornou-se banal a idéia de sigilo que alguns irmãos ingenuamente ainda crêem existir.
É no mínimo constrangedor ver, todas as noites de reunião, homens adultos jurando manter um segredo que não existe mais. Até hoje, quando levanto o tema, existe um certo desconforto, como se as pessoas fossem despertadas aos solavancos de um sono profundo.
Na Internet encontramos filmes, vários, mostrando ao vivo momentos de rituais maçônicos. Fotos, com paramentos, os mais variados, são em número infinito.
A conhecida vaidade maçônica transcende qualquer cuidado de sigilo. Baixei do facebook, semana passada, 50 fotos postadas de uma reunião em uma loja sul americana.
Até práticas consideradas altamente secretas foram devidamente fotografadas e postadas em uma rede de profanos, sem nenhum pudor.
A Maçonaria, hoje, ou melhor, há anos, vive de ilusões. E uma dessas ilusões é de que ainda seja uma Ordem Secreta. São muitas potências. E o que uma esconde e oculta, a outra revela e publica.
A AMORC, pelo que converso com amigos que ocupam cargos administrativos, Monitores Regionais ou Grandes Conselheiros, passa por problema semelhante.
E pelo que escuto está totalmente despreparada para lidar com estes novos tempos, em que uma foto de celular pode atravessar o planeta em segundos.
Para ilustrar, narrarei um episódio pessoal.
Há alguns anos atrás eu era Monitor Cultural da minha Região, a SP2. Havia um consenso de que as atividades dos corpos afiliados deveriam ser planejadas em conjunto para que o evento de um Organismo Afiliado próximo não prejudicasse outro Organismo. Como no caso de churrascos ou almoços beneficentes feitos por dois pronaoi, em cidades vizinhas, na mesma hora, o que consequentemente esvaziaria o quórum de ambos os eventos.
Com essa preocupação criei, com recursos gratuitos do Google, um calendário on line de eventos e tentei durante meses convencer a todos que publicassem neste mural da Internet seus eventos, ao mesmo tempo que o usassem para consultar os eventos de terceiros, antes de marcar seus próprios eventos. Com isso, ninguém poderia dizer que não sabia do outro evento ou lamentar dois eventos simultâneos por falta de informação.
Levei meses fazendo intervenções e palestras sobre isso e em determinado momento , passei uma circular avisando da existência do Calendário Google da Região. Como o email foi para todo mundo, no meio dos emails devia haver o email da Grande Loja de Língua Portuguesa da AMORC, (AMORC-GLP) porque para minha surpresa recebi um email de uma funcionária ou sóror, não sei, que me orientava que em princípio, havia uma determinação do Grande Mestre de que todos os procedimentos de AMORC no Brasil deveriam estar no domínio do site da Grande Loja, mas que excepcionalmente, eu poderia continuar o que estava fazendo.
Não entendi nada, uma vez que não havia pedido permissão para ninguém para fazer o Calendário da Região, que não era um site rosacruz, mas uma ferramenta administrativa, de domínio público, com a única finalidade de organizar eventos.

A minha sensação , lembro-me, foi de que alguém na Grande Loja tinha a impressão, equivocada claro, de que seria possível controlar os milhares de eventos que ocorrem por segundo na Internet, e discipliná-los de forma que não fossem contra diretrizes imaginadas por alguém em Curitiba.
A Internet é como um furacão, não pode ser engarrafada, e se alguém tentar fazer isso, terá que se preparar com uma quantia inimaginável de dinheiro e uma centena de advogados em vários países.
E isto porque, os próprios governos admitem, não há como controlar, em ambiente democrático, o fluxo das imagens ou das publicações que ocorrem em velocidade alucinante, a cada segundo.
É óbvio que haverá vazamentos. É óbvio que imagens que não deveriam aparecer, aparecerão. Mesmo aquelas que forem de autoria identificável, no entanto, nem sempre poderão ser barradas antes de causarem grande prejuízo a causa do sigilo.
É preciso repensar a idéia de segredo.
É preciso entender que o esotérico se defende sozinho, não precisa ser defendido, ocultado, escondido.
Coisas esotéricas o são por sua profundidade e especificidade, não porque nunca foram publicadas. Basta levar em consideração o seguinte exemplo: esta semana saiu o Nobel de Física, para um pesquisador americano e um francês, que desenvolveram métodos de medir atividade de partículas quânticas  Seu trabalho poderá levar num futuro de alguns anos, talvez duas décadas, à computação quântica, um sonho alimentado por todos. Seus nomes e seus rostos foram publicados em jornais de todo o mundo, estão na Internet e nas televisões. Eu mesmo li sobre ambos hoje pela manhã. E pasmem, já não me lembro seus nomes.
E amanhã, fora uma pequena parcela da humanidade, chamada comunidade científica, ninguém saberá seus nomes. Esses homens não só trabalham com algo esotérico, eles mesmos o são, porque dominam uma área de conhecimento tão específica que poucos, a despeito do esforço de jornais por todo o planeta em explicar didaticamente o que fizeram, entenderão o que aconteceu ou o porque de terem sido premiados.
Provavelmente, a vida de todos no planetas será afetada por suas descobertas. E quase ninguém, no entanto, os reconhecerá nas ruas. Poderão ir a mesma banca de jornal que sempre foram, comprarão seu pão ou tomarão seu café no mesmo local de sempre sem serem perturbados e ninguém, ninguém mesmo lhes pedirá autógrafos ou tentarão ser fotografados ao seu lado.
Eles vivem em outro mundo. Não no mundo comum.
Esta aliás, é uma lição de psicologia básica, que está no livro Ilusões, de Richard Bach, e que as escolas chamadas esotéricas deveriam compreender. Ninguém vive no mesmo mundo. Cada um vive no seu próprio mundo, com seus valores, angústias, convicções, e com muita pouca disposição para tentar compreender aquilo pelo que não seja naturalmente atraída.
Todos nós somos esotéricos uns para os outros.
Quanto as chamadas informações secretas, seja da AMORC ou da Maçonaria, poucos estão interessados em violar. Primeiro porque não tem nenhum interesse ou atração por esses assuntos; depois porque são coisas que demandam tempo, e neste mundo de aflitos, poucos tem tempo para se dedicar demoradamente a qualquer coisa.
Isto é triste, mas verdadeiro.
Só pelo fato de uma pessoa chegar aos portais de uma Ordem Esotérica já demonstra que não é uma pessoa comum. Mas aí começa uma jornada longa e cansativa. Será apenas um curioso? Será determinado? Suportará os anos e anos de leituras sem desanimar?
Existe uma estatística de que de 1000 neófitos que entram nos graus de ATRIUM, da AMORC, os primeiros graus, apenas um chegará ao 12°.
A Internet não vai mudar isso.
É melhor tê-la como aliada, não como inimiga. Ela pode ser a solução, não o problema.
Depende da perspectiva e da sabedoria ao usar esta poderosa ferramenta de nossos novos tempos.
E é sempre bom lembrar. Se Spencer Lewis não fizesse a atualização dos textos e esquemas que recebeu da Europa, a AMORC como a conhecemos hoje, não existiria. 

Precisamos continuar atualizando os meios de transmissão do conhecimento. O conhecimento tradicional não está ameaçado. A não ser pelo provincianismo administrativo de alguns ao lidar com novas tecnologias.