Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 1 de dezembro de 2012

ESOTERISMO ÍNTIMO



por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)


“O gato, que nunca leu Kant, é talvez um animal metafísico.”
Machado de Assis
em “Quincas Borba”


Anie Besant e Leadbeater


Continuamos, eu e Flavio, às quartas feiras a noite, a singrar as águas turvas e agitadas, em clima de neblina cerrada, do Oceano Teosófico, com a leitura de COSMOGÊNESE, 1º volume de A DOUTRINA SECRETA, na clássica edição da Ed. Pensamento, dos anos ‘70.
São miríades de informações, em terminologia do final do século XIX, com forte participação do jargão da cultura filosófica e mitológica clássica hindu, com citações do Sânscrito, alusões à cultura tibetana e a aspectos do budismo, que desanimariam a maioria das pessoas que se atrevessem a ler tais passagens.
Nós, no entanto, por motivos não tão esotéricos, continuamos nesta jornada, picados que fomos pela mosca violeta, aquela que transforma dois homens comuns e maduros em esforçados interpretadores de textos feitos para não serem compreendidos.
Sim, com certeza a DOUTRINA SECRETA não tem um tratamento didático adequado para outros tempos, este período contemporâneo, que abriga obras de rara profundidade aliada a grande beleza artística, como CONTATO, livro do falecido astrofísico Carl Sagan, que discute, através de um romance apaixonante, temas como a difícil convivência dentro de nós de questões como razão fundamentada em fatos e fé.
Para HPB, tal convivência não era aceitável. Ela se debate em boa parte do texto a defender-se de possíveis ataques científicos e, contraditoriamente, a buscar fundamentação nesta mesma ciência que às vezes ironiza para apoiar suas assombrosas e infundadas afirmações.
Sem nenhum juízo de valor, já que também eu mesmo sou um esoterista, Blavatsky constrói todo um sistema de informações e dados baseados em um texto que jamais foi encontrado, que jamais foi visto, salvo engano de minha parte, conhecido pelo nome de Estâncias de Dzyan , “pergaminhos antigos de origem tibetana” os quais “alegava ... teria tido acesso e estudado ... em sua estada no Tibete. Segundo Blavatsky, as "Estâncias de Dzyan" seriam um manuscrito arcaico, escrito em uma coleção de folhas de palma, resistentes à água, ao fogo e ao ar, devido a um processo de fabricação desconhecido, e que conteriam registros de toda a evolução da humanidade, em uma língua desconhecida pelos filólogos denominada Senzar.”
E é este texto que eu e Flavio tentamos aos poucos destrinchar, mesmo percebendo que para compreender o primeiro volume necessário se faz que leiamos todos os seis volumes, para os quais a autora nos remete, a todo o momento, durante sua narração.
A DOUTRINA ESOTÉRICA, é, em última instância, sem trocadilho, um texto que demanda um esforço de fé, de quem o estuda.
Porque aceitar que são fatos, os fatos que HPB nos propõe, por mais séria que ela nos pareça em suas declarações?
Em que bases entender como expressões da realidade ideias baseadas em um texto jamais visto, escrito em uma língua desconhecida, jamais suspeita ou estudada?
Fé. Apenas isto. Cremos, sem o apoio de nenhuma prova que o sustente, que as declarações desta nobre esoterista são expressões de verdade.
Aceitamos tal coisa antes de começarmos a ler seus textos, já que a leitura em si não nos traz nenhuma informação palpável, nenhum elemento em que possamos nos apoiar, nenhum elemento palidamente passível de ser caracterizado de sólido.
É pura fumaça sobre fumaça, como se conversássemos com um habitante de outro mundo, de outro Universo, a nos falar das suas estranhas e peculiares percepções acerca desta mesma Criação.
É como se usássemos óculos diferentes, de cores diferentes, e enquanto a nossa lente fosse marron, obscurecendo as cores do que contemplamos, HPB usasse lentes azuis, e visse uma paisagem completamente diferente da nossa, e ao mesmo tempo tentasse nos descrever essa paisagem como se óculos azuis tivéssemos; pior, chamando o seu Universo Azul de Real, e o nosso marrom de fantasioso, sem nenhuma piedade.
Só escutamos estas ofensas à nossa percepção com humildade, eu e Flavio, sem contestá-las, porque ambos fomos picados pela mosca violeta, a mosca do esoterismo. Não lemos estes estranhos relatos para nos tornarmos esoteristas. Já o somos. Mesmo que nunca tivéssemos estudado nada de Teosofia, seríamos , da mesma forma. Porque ambos nascemos assim. É a nossa natureza ter uma forte impressão de que existem outras formas de percepção, e crer que alguns seres humanos, homens e mulheres, podem por motivos misteriosos, ter acesso a estas percepções, e serem forçados pela força e pela peculiaridade de suas experiências a compartilharem conosco estas mesmas visões, descrevendo-nos mundos estranhos e desconhecidos.
Não é através de raciocínios encadeados, nem pela elaboração diante de certas manifestações palpáveis, que estabelecemos estar diante de um texto importante e rico. É mais como se algo de dentro de nós falasse ao nosso ouvido, um Daimon, como dizia Platão pela boca de Sócrates, e nos assegurasse a legitimidade destas páginas confusas e às vezes desconexas.
É de dentro que percebemos as coisas ao nosso redor, e não fosse este esoterismo íntimo a priori em nós, nem nos daríamos ao trabalho de ler e estudar estas estranhas páginas, aparentemente eruditas, mas que para o comum dos mortais pareceria mais com uma coleção de fantasias temperadas com delírios de uma infeliz russa, divorciada em uma época extremamente machista, desorientada pela solidão afetiva.
Todas estas coisas se assemelham aos milagres do Cristo. Cremos nos relatos que nos chegam sem que tenhamos testemunhado. Sentimos, ante de crermos, que estamos diante de relatos verídicos, de fatos que realmente ocorreram.
E assim seguimos fascinados com a informação que uma pessoa capaz de tais prodígios tenha passado sobre a terra.
Ao contrário do que possam pensar os céticos, místicos, ao contrário de religiosos, não creem em determinados relatos sem um fundamento.
Mas ao contrário do homem comum, o fundamento do místico é interno, algo que ele não consegue contrariar ou negar, uma certeza tão inabalável como a percepção tátil de meus dedos batendo neste teclado agora.
Por isso continuamos a ler, eu e meu irmão em três Ordens, estes estranhos relatos da Cosmogênese, certos de que em algum ponto deste estranho relato, tudo começará a fazer sentido. E não importa sua verossimilhança exterior, pois toda comprovação que precisamos para aceitar este esotérico discurso já está dentro de nosso coração, desde que reencarnamos, e lá permanecerá pelas nossas próximas existências.
Ser o que somos não é escolha apenas, mas também destino, um modo de ser que não podemos recusar e que constitui a natureza mais profunda de todo aquele que se diz esoterista.