Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 9 de dezembro de 2012

UM TESTE DE LEALDADE


por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD) 



"O lema que muitos amorquianos bradam batendo no peito "A mais ampla tolerância na mais irrestrita independência" é puramente teórico, pois em toda história da AMORC ela nunca aceitou qualquer tipo de movimento ou grupos de membros que pudessem tirar o poder centralizador das Grandes Lojas. Você preferiu abdicar do espírito incansável de busca rosacruz e acatar a ordem, eu me afastei e busco cada vez mais o espírito rosacruz que encontramos nos 3 manifestos R+C como nas Cartas Rosacruzes. O verdadeiro rosacrucianismo está muito além de uma organização que dita o que os membros podem ou não fazer... FRATER AEC"

"Não tentes estudar a mais elevada de todas as ciências se, de antemão, não resolvestes entrar na via da virtude; os incapazes de sentir a verdade não compreenderão minhas palavras. Só os que entram no reino de Deus podem compreender os mistérios divinos e aprender a verdade e sabedoria, na medida da sua capacidade para receber a luz divina da verdade. Aqueles que se guiam unicamente pela luz da inteligência não compreendem os mistérios divinos da natureza; as suas almas não podem ouvir as palavras que a luz pronuncia. Mas aquele que abandona o próprio eu pessoal pode conhecer a verdade. "  In Cartas Rosacruzes, Carta I, SABEDORIA DIVINA http://www.fraternidaderosacruz.org/cartasrc1.htm

Este comentário me chegou agora há pouco, referindo-se ao cancelamento e desativação por instrução do Grande Mestre da iniciativa e do site da Teia de Indra, proposta como um canal para contato direto entre os artesãos e o próprio GM. A pessoa que se identifica por este pseudônimo é um velho colaborador do blog, leitor atento e crítico, como é de se esperar de uma pessoa inteligente. Tivemos um interessante e instigante debate há um ano atrás, se bem me lembro, que foi uma das mais estimulantes momentos do blog, pelo que agradeço ao irmão esoterista. 
E agradeço também por me mandar este comentário de forma que, ao respondê-lo, eu possa elaborar meu luto pela minha idéia, e minhas reflexões sobre meu relacionamento com a Instituição Rosacruz através de sua manifestação organizacional mais difundida, a AMORC. 
Eu não sei quanto ao frater, mas eu tenho dificuldade em reagir a golpes muito fortes no momento em que eles acontecem. Por isso estes dias imediatamente após o acontecido, eu tenho estado recluso e pensativo, ouvindo conselhos de pessoas que eu respeito, como minha esposa, que é uma alma particularmente diferenciada e de uma bondade intensa, e relembrando com tristeza a ausência de meu mestre de Cabala e de Rosacrucianismo, Frater Reginaldo, que nos deixou subitamente este ano, que comungava comigo suas queixas e com quem eu dividia as minhas, sobre os rumos que AMORC tem tomado ao longo dos anos. Ele também se revoltava com o que considerava "lentidão de decisões", conservadorismo administrativo, e outros aspectos como a deficiência de conhecimento rosacruciano que detectava em membros da hierarquia da Ordem. Quanto a isto, sua solidão devia ser imensa e homens como ele tinham a autoridade necessária para manifestar esta insatisfação, já que em matéria de esoterismo e de conhecimento sobre o rosacrucianismo, de todas as épocas, nem eu, nem muitos entre nós, com certeza a maioria, não era digno de desatar-lhe as sandálias, sem exagero. E o que nos unia não era nossa equivalência em conhecimento, porque como já disse, tratava-se de um gigante, mas o afeto. Mestre Reginaldo tinha por mim grande carinho e amizade, que era em tudo e por tudo retribuída, e no fundo do meu coração eu o considerava muito mais que meu mestre, meu irmão rosacruciano. Havia, frater AEC, um relacionamento de confiança entre nós, que fazia com que ele tivesse me apelidado de "seu fiel depositário", aquele que guardaria, como guardo, uma cópia de seus arquivos, caso acontecesse, dizia ele em tom profético, alguma intercorrência. 
Quando Frater Helio me pediu que desativasse o site a sensação que tive foi de solidão e desalento, e por isso senti mais forte a falta que a amizade presente de Reginaldo de faz. 
Cumpri a solicitação do GM sem discutir porque penso como oficial e não como membro, e como ex mestre de Capítulo, ex-Mestre da Heptada Martinista da Região e ex-Monitor Regional comporto-me até hoje da mesma maneira como me comportaria caso ainda exercesse um cargo dessa natureza. É como se aqueles que foram tenentes jamais pudessem voltar a ser soldados, pensar como soldados, agir como soldados. 
Não cumprir a solicitação de meu Grande Mestre seria como um ato de rebeldia adolescente, como alguém que não entendesse a necessidade da Hierarquia e da Existência da Autoridade, a mesma Autoridade que não é dada a ninguém por acidente, seja em que aspecto analisemos este fato. 
Hoje mesmo eu refletia sobre o acontecido e concluía que, embora continue achando que os Artesãos necessitam de um canal direto com o Grande Mestre, e que o próprio Grande Mestre se beneficiaria deste contato podendo com isso sentir o pulso da Ordem de modo mais preciso do que através apenas do relatório de seus Grandes Conselheiros; embora continue achando que estamos léguas atrasados em termos de utilização da informática como meio de aumentar os vínculos da fraternidade; embora achando ainda que a Internet não é uma potencial inimiga do esoterismo, mas sua aliada, e que tentar controlar as manifestações dos rosacruzes de AMORC na Internet e restringi-los a um único site é como tentar segurar o vento com as mãos; minha tristeza pela dissolução do site da Teia de Indra tem em parte algo a ver com minha própria vaidade pessoal, com minha noção particular de EGO, e não apenas com o encerramento de um grande projeto ainda no nascedouro. 
Eu ficaria imensamente feliz, mas também envaidecido que uma idéia minha fosse tomada a cabo pela Ordem e transformada em um projeto global. A Internet permite, a meu ver que os Artesãos cumpram sua missão de serem conselheiros em tempo real de seu Grande Mestre, criando uma mente coletiva que se bem administrada aceleraria o acesso a uma sem número de intuições que chegam a cada um desses homens e mulheres pertencentes a Elite da AMORC. 
Mas a idéia foi desautorizada e senti, mal comparando, como se fosse o próprio Abraão, recebendo ordem de seu Deus de matar o próprio e único filho, como prova de sua fé. Só que neste episódio, não houve anjo algum que viesse segurar a mão do devoto enlouquecido por tamanha lealdade à fonte de sua fé e de seu comportamento. Nada aconteceu que impedisse tal fato, o qual foi para mim que o elaborei e nele me empenhei por tantos meses, desastroso. 
Pelo contrário, embora eu recebesse comentários solidários de membros da Ordem no Nordeste e no Sul, da Bahia e de Santa Catarina, passei pela experiência de ver uma sóror pela qual tenho grande carinho, artesã, como eu, "curtir" no facebook a notícia do final da "TEIA". 
É justamente diante da importância que dou ao ocorrido, meu caro Frater AEC, que considero agora este acontecimento um teste de lealdade. 
E acredito que eu tenha sido bem sucedido neste teste, como artesão e como rosacruz. 
Porque como eu disse ao Grande Mestre, frater, e repito a voce agora, o que importa verdadeiramente não sou eu e nem mesmo o Grande Mestre, enquanto indivíduo social, mas a Ordem. Só a vaidade poderia me levar a entrar em rota de colisão com a AMORC por causa deste evento. 
Se tenho minhas próprias opiniões acerca de como a AMORC deveria conduzir seus assuntos, se tenho sugestões a dar ao Grande Mestre como artesão, se tenho idéias que intuo e retransmito a ele sob a forma de cartas ou emails, não faço mais do que cumprir meu papel como Artesão. Apenas retransmito o que o Cósmico me dá e mesmo aqueles que acham, aqui na minha comunidade rosacruz local, que ao repassar e publicar minhas opiniões estou sendo inadequado ou indisciplinado ou mesmo artífice de uma conspiração respondo que, na verdade, conspira contra a Ordem aqueles que se acomodam e que se negam a contribuir com idéias para que as decisões do GM possam ser mais ricas e produtivas para AMORC. 
Em última instância, a responsabilidade das decisões administrativas da Grande Loja de Língua Portuguesa recaem sobre as suas costas e, cada decisão que ele toma não visa contemplar apenas a árvore, mas sim toda a floresta. É só a vaidade e o orgulho que fazem alguém supor que é mais importante que outros e quanto a isso não tenho ilusões. Eu sou apenas o 75939 PM, um membro a mais, entre milhares de outros, e todos precisariam ter a noção clara de que isso não implica ser menor do que ninguém, mas muito menos os torna melhor que qualquer um. 
Confesso que pensei em abandonar a Ordem depois do ocorrido. Só que como minha esposa lembrou, isso não é possível já que eu não estou na AMORC, mas é AMORC que está dentro de mim. 
Amo esta organização à qual pertenço há dezenas de anos, e talvez já tenha pertencido em outras existências. 
Sei exatamente o que fazer dentro dela, e não saberia o que fazer fora dela. 
Minhas opiniões são apenas isto, minhas posições entre centenas de posições, de centenas de pessoas que acham, como eu acho, que estão fazendo o melhor pela Ordem ao fazerem ou dizerem o que fazem ou dizem. 
Com certeza, meu bom frater, voce está certo ao questionar a validade deste lema "a mais perfeita liberdade na mais completa tolerância" que Parucker gostava de repetir quando ocupava o cargo de Grande Mestre. 
Tal situação é impraticável do ponto de vista administrativo ou mesmo social. Talvez o que falte seja acrescentar uma palavra singela, mais estratégica, ao lema. 
E esta palavra é a palavra "possível". 
Assim, teríamos algo muito mais realista, ao gosto do próprio Espinoza, com o qual concordo, que jamais acreditou na Liberdade, muito menos no livre arbítrio como fenômenos realizáveis em sua plenitude. 
Sempre existem restrições, Frater AEC, sempre existirão limitações a nossa vontade, quer queiramos ou não. E isto é assim mesmo, é assim que as forças sociais e psicológicas interagem, seja nas grandes guerras, seja nos grandes debates, seja nos embates político partidários, já que "vivemos num mundo tumultuoso, em constante transformação". 
Somos forças entre outras forças, dentro da visão mais realista "da mais perfeita liberdade possível na mais completa tolerância possível". 
E assim, se o Grande Mestre não acredita que a "Teia de Indra" pudesse lhe auxiliar a ter um contato mais pessoal com todos os artesãos daqui até a África e Portugal, paciência. 
Cumpri minha obrigação como artesão e lhe fiz uma proposta. Cabe a ele tomar a decisão de aceitá-la ou não. 
Esperemos que ele tenha tomado a decisão certa e que tenha um projeto muitas vêzes melhor para implantar nas anunciadas mudanças que estão prometidas para 2013. 
Pois como místico creio que ninguém está no lugar em que está sem que o Cósmico permita e determine. 
Desta forma, nosso Grande Mestre é o frater Helio de Moraes Marques e a ele, como ex-oficial de AMORC, como membro da Ordem e como artesão, eu devo lealdade. Devo além disso lealdade a mim mesmo, às minhas crenças pessoais e às coisas nas quais acredito e que jurei em templo defender, juramentos dos quais não me esqueci. 
Não há portanto em mim nenhuma intenção diferente daquela de servir a minha Ordem e a meu grande Mestre, embora alguns frateres e sorores, menos inquietos e menos participantes do que eu, pensem diferentemente. 
E continuarei servindo, dentro de minhas habilidades e possibilidades , como membro de AMORC e não fora dela já que não existe, a meu ver, Ordem mais bela e completa na face da Terra.