Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

AS TRÊS CABALAS

por Mario Sales, FRC, SI,CRC




Todos que me conhecem sabem que separo, para finalidades didáticas, as práticas herméticas em três partes: esotérica, ocultista e mística. Nesta perspectiva, misticismo, seja em que tradição se fundamente, refere-se a busca do divino e a tentativa através de orações, preces e êxtases conseguidos pela meditação de fundir-se ao Todo Poderoso; Ocultismo ao conjunto de práticas chamadas mágicas ( coisas da terra) ou teúrgicas (coisas do céu, leia-se Anjos), cuja finalidade é a intervenção na realidade modificando-a de forma a atender a nossa vontade e intenções; e por último, o Esoterismo, que se dedica ao estudo de textos sagrados e herméticos, narrando aspectos de culturas e civilizações as mais variadas geralmente do passado distante, estudo dos símbolos propositadamente velados dos tempos do iluminismo, ou seja uma atividade sigilosa e intelectual, caracterizada pelo segredo.
Nesta ótica, mesmo que um grupo possua dentro de sua estrutura estes três aspectos, é fácil entender que existam algumas Ordens que sejam mais místicas, outras mais Ocultistas e outras, essencialmente, Esotéricas.
Como exemplo, dizemos que a Ordem Maçônica é moderadamente Esotérica, pouco Ocultista e nada Mística; o Martinismo de Papus muito esotérico, com pretensões Ocultista e moderadamente Místico; o Martinezismo dos Ellus Cohen muito Ocultista, muito Esotérico e , a meu ver, moderadamente Místico; e a Rosa Cruz, muito Mística, e, em um período do séculos XIV ao XVIII muito Ocultista e Esotérica; já no período pós Spencer Lewis, ainda altamente Mística, mas já moderadamente Esotérica e quase nada Ocultista.
Portanto, dessa forma, desfazendo a aparente sinonímia entre estes três termos, caracterizamos melhor a prática esotérica e podemos por exemplo entender as mudanças históricas deste saber, o Esoterismo, que corre nas veias da humanidade, entre Religião e Ciência, resistindo à passagem das épocas e das eras no imaginário humano.
A tradição hebraica, a Cabalá, com tônica na última sílaba, também pode se beneficiar dos efeitos didáticos desta classificação. Ela tem um período protocabalístico, o misticismo Merkabah, a carruagem de Deus, como na visão de Ezequiel, (cap 1 - vers.1,28) que foi interpretada como uma viagem, indo e voltando através de sete palácios (hekhalot) de plenitude, sendo o sétimo o mais elevado em realização e que permitiria o contato direto com Deus. Ainda seguindo minha postulação acima, esta tradição é essencialmente Mística, algo Esotérica e em nada Ocultista, pois não visa controle da realidade, mas o seu próprio abandono ao mergulhar o praticante em um estado de êxtase, primeiro parcial e depois definitivo.
Esta tradição dura entre os dois últimos séculos AC até o século III DC, quando o Sepher Yetzirah vem a luz, já representando um esforço de codificação das práticas místicas e iniciando a fase literária, esotérica e interpretativa, da Cabalá. Nesta época, lembramos, a palavra Cabalá ainda não era usada, sendo datada de um período em torno do século XII, graças a enunciação de Isaac, o Cego.[1]
De toda forma, o surgimento de um texto , o Sepher Yetzirah, em alguma data entre o séc. II e o séc.VI da era cristã, marca o início de um misticismo baseado em um material escrito, entre os judeus, o que eu costumo chamar esoterismo literário.
Como todos já sabem, a história da Cabalá avança com a publicação, em torno do século XII, do Sepher Bahir, o livro da Iluminação, atribuído a Isaac, o Cego, e , em seguida, do Sepher Zohar, no século XIII, uma extensa narrativa das andanças do Rabi Shimon Bar Yochai, no século II, publicada e provavelmente compilada por Moshe (Moisés) de León (Moshe bem Shen-Tov). Digo compilada porque o Zohar não é um livro, mas, a exemplo da própria Bíblia, um conjunto de livros.
Isto não significa que a história da Cabalá seja linear. Estes três livros são fundamentais para estudar Cabalá mas o conjunto de conhecimento deste saber ainda não é totalmente mapeado, estando disperso em manuscritos espalhados por bibliotecas, em Tel Aviv e nos EUA.
Como todo saber, embora como teóricos nos sentiríamos mais acomodados com uma história monodirecionada, capaz de ser açambarcada por um único título, Cabalá é um conjunto de temas e práticas que poderia se dizer, tem um núcleo duro, seus textos de referência, e uma periferia mais instável, que são estes manuscritos ainda não traduzidos e de trabalhosa consulta.
Temos, juntamente com os Sepher Yetzirah, Bhair e Zohar, entre os textos do chamado núcleo duro, o Sepher Raza Rabba, ou "Livro do Grande Mistério", comentado brevemente entre martinistas modernos, mas não estudado, nem disponível em português, aonde estão descritos estudos de angelologia e demonologia, conhecimentos ligados a Teurgia.
Vemos, assim, que a Unidade tão preconizada em todos os textos místicos, jamais é encontrada no dia a dia. Ela é mais uma ligação aparente, mas invisível, entre um sem número de elementos diferentes. Assim acontece com o Cabalá. Cada momento que produz um texto (seja o Yetzirah, seja o Bahir, seja uma compilação extensa como o Zohar) remete a um período da história e a um contexto geográfico diferente.
É oportuno lembrar que tanto quanto a cultura rosacruciana que começa no Egito Antigo, mas se enriquece ao longo dos séculos com a contribuição de tradições de diferentes partes do planeta, a cultura judaica e suas chamadas tradições são também um somatório de conceitos e idéias colhidas ao longo de seu movimento como nação nômade ou escravizada por diferentes povos. É da Babilônia que vem o conceito de Anjos, mensageiros de Deus; é do Egito que vem o conceito de Shekinah, a "Presença Divina", cultuada em templos rosacruzes, mas também descrita no Sepher Ha Bahir, do século XII, o segundo livro da bibliografia básica cabalista.
Portanto, falar de uma tradição eminentemente judaica quanto ao Cabala é uma impropriedade, como aliás também para qualquer tradição mística ou religiosa.
A visão destas contribuições e a forma que elas recebem, essa sim é genuinamente judaica e adaptada a realidade do povo judeu.
O que quero dizer é que dentro da evolução do pensamento cabalístico, (desde os movimentos místicos da Tradição Mercabah, da Carruagem, até Isaac Luria, morto precocemente aos 38 anos, conhecido como o Leão, em Safed, formulador da moderna concepção do Cabalá, e seu compilador, Hayim Vital, que escreve o "Ets Hayim", ou "Árvore da Vida" , transformando em um texto todos os ensinamentos apenas orais de Luria) muitos movimentos internos ocorreram e muitas leituras foram feitas da mesma tradição.
E estas leituras, essas escolas, não foram necessariamente conflitantes, porém cumulativas e geraram o que hoje se chama de o Corpo Teórico da tradição Calística.
Dessa forma entendemos que o que hoje chamamos de Cabalá não é um sistema que nasceu pronto, mas que foi construído ao longo de séculos, compilando e concentrando contribuições de diversas culturas e tecendo as vestes de um conhecimento atualmente entendido como originalmente judaico.
Considerando isso, não passou de um equívoco absurdo supor que impunemente, alguém de outra tradição, a tradição cristã, como Pico Della Mirandola, pudesse tentar fazer uma síntese entre o pensamento cabalístico e a religião de Roma. Por vários motivos.
Primeiro: uma síntese é a fusão de duas partes definidas. A Cabalá da época de Pico ainda era um processo em andamento. As maravilhosas contribuições conceituais de Luria, retratadas nos textos de Hayyim ben Joseph Vital, não tinham sido publicadas. Pico Della Mirandola morre aos 31 anos, em 1494. Luria nasce em Jerusalém em 1534, de forma que Pico não teve acesso a suas contribuições.
É Luria com sua genialidade de síntese conceitual que enriquece e define contornos internacionalmente palatáveis para a Cabalá. Antes dele, a Cabalá era muito mais obscura e esotérica e tudo que é muito esotérico permite interpretações equivocadas e imprecisas.
Criar uma nova visão da Cabalá, de cunho cristão, é não só um contrasenso teórico, mas, antes de qualquer coisa, uma perversão do sentido primitivo desta tradição.
Pois a Cabalá, embora contenha em suas reflexões a mesma ânsia pelo divino presente em místicos Hindus, Egípcios e mesmo Árabes, tem uma assinatura própria da história de sofrimento e êxodo que só o povo judaico conheceu. E para o judeu, em função desta perseguição, das muitas ameaças de extermínio que conheceu, manter-se como nação foi uma forma de preservar a própria sanidade, e para tal a contribuição da tradição religiosa e mística foram fundamentais.
Pico tinha outras intenções com sua segunda versão da Cabalá, travestida em um conjunto de valores do cristianismo. Se para o judeu, a Tradição existia para fortalecer o Judaísmo, para Pico, Cabalá seria uma forma de enfraquecê-lo e mostrar o quanto o cristianismo era superior.
E isto em si é um absurdo. O que explica que, embora fosse cultuado como homem culto e letrado, na verdade carecia de discernimento intelectual e era muito mais levado por um intelectualismo engajado a favor de um catolicismo cristão do que uma visão capaz de perceber as profundas implicações histórico culturais da prática e da teoria da Cabalá.
Sua força vem do fato de ser um autor profícuo. Na maioria das vêzes, quem escreve muito, não importa sobre o que ou a qualidade de seu argumento, é respeitado como grande erudito. As letras eram prerrogativas de poucos naquela época e a erudição de muito menos gente ainda. O tamanho de seu trabalho, embora amálgama imperfeito, combinando em um mesmo bloco o ferro, o zinco e o ouro, digamos assim, influenciou o pensamento de muitos. Seu mestre, Marsilio Ficino, (operoso tradutor, que trouxe, em um esforço intelectual meritório, a luz do Latim, que era o inglês daquela época, textos que muitos não poderiam ler em outras circunstancias), tem a seu favor o fato de que jamais fez qualquer  juízo de valor sobre os textos que popularizava.
Já Pico della Mirandola, num arroubo de vaidade, supôs que poderia usar uma tradição como o Cabalá para finalidades político religiosas. Por isto este saco de gatos, esta salada teórica que tudo aceita e tudo distorce, a chamada Cabala Cristã, a segunda cabala, digamos assim, que não contribui para o entendimento dos conceitos teóricos mais importantes do cabalismo.
Embora exista um aspecto da Cabalá Judaica que é prático, operacional, e encerra técnicas de invocação e ação teúrgica sobre a realidade, a Cabala Cristã tem desde o nascedouro um forte cunho essencialmente magista. Ao cabalista cristão interessa o poder, não o saber. Ele considera a Magia uma forma de alcançar este poder e um poder em si. E assim esta compreensão prevalecerá e durará por séculos, ganhando força inusitada no século XVIII e só desaparecendo sob a contracorrente do pensamento positivista de Conte no final do século XIX.
A Magia é também uma ferramenta de intervenção no real e na ausência de tecnologia, ela assume este papel com mérito. Uma afirmação de Cornelius Agrippa o papel da Magia como substituta naquela época do que hoje chamamos ciência:

"...aliás ensina a natureza das coisas que estão no mundo, explorando e investigando suas causas, efeitos, tempos, lugares,maneiras,eventos, o todo e as partes, e também: o número e a natureza dessas coisas chamadas elementos; o que o Fogo, a Terra e o Ar geram ; de onde se originaram os firmamentos; de onde vem a maré, de onde vem o arco íris vestido de cores alegres; o que faz as nuvens reunidas ficarem negras para enviar relâmpagos e produzir trovões; o que gera as chamas da noite e cria os cometas; o que faz a Terra tão firme e , de repente, tão trêmula; qual é a semente dos metais e do ouro; que virtudes, riquezas, se guardam no cofre da natureza."[2]

Alguns alegarão que nada há de errado em buscar-se poder sobre as coisas sempre tão instáveis da natureza, ou seja, conseguir alguma previsibilidade sobre nosso destino e sobre os acontecimentos que atingem os seres humanos individualmente e a sociedade humana como um todo.
Não é isso que a Ciência contemporânea faz? Ela não nos dá algum grau de previsibilidade e até elementos de defesa contra as intercorrências naturais? Ela não nos auxilia nas variações do clima, no saciar da fome e na luta contra as doenças?
Sim, é fato, mas é preciso lembrar que ao se tornar Cabalista, um judeu jamais separava o conhecimento que conseguia da necessária busca do divino em sua vida pessoal e na vida da comunidade. Ao contrário, a Magia como ferramenta de intervenção, tornaria o Mago senhor da criação, rivalizando até, para mentes menos evoluídas, com o próprio Deus.
Cabala, para o Judeu era um mergulho no Divino; Cabala Cristão era um mergulho no Ocultismo e trazia consigo os riscos do orgulho e da vaidade. O mesmo risco que traz a Ciência Contemporânea aos seus praticantes, em princípio uma área que segundo alguns prescinde da hipótese de um Deus, como se Deus fosse apenas isto, uma hipótese intelectual. Cabalistas Judeus são místicos; cabalistas cristãos, são ocultistas e esoteristas, com todas as implicações e diferenças sobre as quais já teci considerações em ensaio anterior.
A segunda Cabala, portanto, é a Cabala anti judaica, a que tem como princípio mostrar a superioridade do Cristianismo sobre quaisquer outras compreensões de Deus. É a Cabala da busca do poder sobre o Céu e a Terra, mas não necessariamente na busca de uma autocompreensão maior, mas sim de uma capacidade de intervenção maior nesta mesma realidade. Aqui já se vêem o surgimento da atitude típica do Ocidente sobre a Natureza, da busca do controle sobre Tudo o que Existe e não da harmonia com este mesmo Todo. Seguem o pensamento de Pico della Mirandola , Johannes Reuchlin, Paolo Ricius, Baltashar Walter, Athanasius Kircherus, Raimundo Lúlio, Guilherme Postel, Christian Knorr Von Rosenroth, Johan Kemper, Heirich Cornelius Agrippa, Johanes Valentin Andrea, Giordano Bruno, Robert Flud, e outros.
Esta segunda Cabala já foi também chamada de Cabala da Renascença e como a renascença foi a época da redescoberta do Homem como foco da Criação, como uma reação à Contra Reforma e à Inquisição e ao totalitarismo do pensamento de Roma, entende-se também porque esta ênfase em trazer para as mãos do homem o fogo dos céus, numa manifestação da Síndrome de Prometeu.
O avanço dos anos faz com que o Ocultismo também ampliasse sua influência, sempre no sentido de ocupar um lugar que hoje seria o da Ciência Ortodoxa.
Em vez de Astronomia, Astrologia; em vez de química, Alquimia; em vez de Medicina, herbologia e emplastros, sangrias e sangue sugas. Sim, desde os quinhentos a razão avança, paripasso com a superstição, com Descartes, Galileu, Copérnico e Newton. Mas é importante dizer que não de forma antagônica, mas de mãos dadas pois Ocultismo era "O Conhecimento" naquela época e andava de mãos dadas com o conhecimento científico, de tal forma que aqueles que se dedicassem a um poderiam ser encontrados dedicando-se ao outro, como é o caso do próprio Isaac Newton, matemático, físico e rosacruz. Por isso, embora estas práticas ocultistas pareçam ecos de um passado bárbaro, são apenas os primeiros passos de um diálogo com a natureza que ainda buscava a linguagem adequada. No seio de um conhecimento supersticioso e mágico, já crescia a semente do empirismo e da prática científica. A árvore mesma só seria visível bem mais tarde.
Antes, haveria um último suspiro destes exercícios mágicos que caracterizaram estes quatro séculos, do XV ao XIX. O pensamento empirista e positivista já se aproximava quando, ao final do século XIX começaram a surgir obras que buscava a síntese definitiva da Magia e do Cabala. Por essa época não existia mais nenhuma intenção de doutrinar o povo judeu, a igreja já tinha perdido sua antiga força militar, e assim, o poder político havia sido pulverizado entre dezenas de nações.
É em 1810 que vem ao mundo o maior esoterista do século XIX, Alphonse Louis Constant, mais conhecido pelo codinome de Eliphas Levy. Como Pico della Mirandola foi o criador da segunda Cabala, aqui temos o criador da terceira Cabala, a Cabala Hermética.
É em seus muitos livros que Eliphas vai construir a estrutura e o esqueleto de sua linha de interpretação dos mistérios cabalísticos. Ex seminarista, culto, filólogo, Eliphas usa sua erudição para produzir vasta bibliografia. Dogma e Ritual da Alta Magia, História da Magia, A Chave dos Grandes Mistérios, A Ciência dos Espíritos, As Origens da Cabala, Os Mistérios da Cabala, Curso de Filosofia Oculta, Fábulas e Símbolos, O Livro dos Sábios , O Grande Arcano, Os paradoxos da Sabedoria Oculta, O Livro das Lágrimas ou Cristo Consolador.
Obras que alimentaram o pensamento e o imaginário de muitos e importantes intelectuais franceses como ele; França, que na sua época era a biblioteca do mundo. Foram admiradores e seguidores de Eliphas Levy, Papus e Stanislas de Guaita, dois dos mais importantes e influentes esoteristas franceses do início do século. Também Saint-Yves de Alveydre.
Sua intenção sempre foi a investigação das possíveis conexões entre a Magia Judaica e a Magia proveniente de outras tradições, a Babilonica, a Egípcia, a rosacruciana. Foi amigo e colaborador de Bulwer Litton, autor de "Zanoni". Embora estivesse envolvido com magia e hermetismo, não tinha ambições pessoais, mas sim culturais. Era um homem tocado verdadeiramente pela sensibilidade religiosa mas, embora formado em ambiente ortodoxo católico, o paganismo estava nele de modo intenso, e as tradições do druidas, as invocações medievais e em latim, a espada cerimonial (que depois seria herança material de Papus) eram artefatos que o acompanhavam. Estudar Cabala, conhecida como Magia Judaica, era inevitável. E ele o fez. Talvez mais do que Pico della Mirandola tenha entendido a ligação entre esoterismo, ocultismo e misticismo. É dele a vinculação entre as letras hebraicas e letras hebraicas, consideradas símbolos poderosos de Magia. Como filólogo, viu relações entre a tradição dos 22 Arcanos Maiores(exatamente como são 22 as letras hebraicas) e Menores (que são 10 com quatro naipes, da mesma forma que são 10 sephirot e quatro os mundos ao longo da Árvore da Vida), descrevendo esta relação pela primeira vez em Dogma e Ritual da Alta Magia.
E foi a partir disso que estabeleceu-se que tal relação era real e sólida, quando na verdade é produto de suas elaborações pessoais e inspiração solitária. Ele era o mestre, ele era a Luz Maior do movimento, ele era o iniciador. Pelo menos, era tanto um Ocultista quanto um Místico. E pode-se dizer que, embora gentio e não judeu, conseguiu recuperar o caráter de busca do divino e desta intimidade mágica entre o ocultista judeu e Deus, agora em uma versão não judaica.
Justiça seja feita, nem todos os seguidores da segunda cabala foram ortodoxos e leais a visão de Pico della Mirandola. Raimund Andrea, praticante de Cabala Cristã, era rosacruz e um dos autores do Fama Fraternitatis. Era também membro do movimento protestante e profundamente religioso. É claro que esta formação temente a Deus e austera deve ter tido alguma influência sobre seus estudos de Cabala, e deve, da mesma maneira ter sido um critério a mais na absorção deste conhecimento. Antes dos movimentos existem os homens que deles participam.
E se nem todos os judeus Cabalistas pensavam da mesma forma, e mesmo dentro da comunidade judaica os Cabalistas eram e são considerados seres diferenciados espiritualmente, da mesma forma entre estudiosos de cabala cristã encontraremos homens justos e serenos, que antes de Eliphas Levy, buscaram a experiência Mística e divina no Ocultismo e no Esoterismo.
A terceira Cabala não vai falar de Tzin Tzum ou de Tikun Olam, conceitos caros aos Cabalistas Lurianos, mas vai falar da força das letras hebraicas e das sephirot, os 32 caminhos que já tinham sido descritos no início do Sepher Yetzirah, pouco depois do século II da era cristã. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, as Cabalas não judaicas, tanto a segunda como a terceira, devem ser encaradas também como formas de popularizar mundialmente este conhecimento maravilhoso, tal qual o Yoga Indiano que hoje é parte do cotidiano de muitos ocidentais não hinduístas, ou mesmo as práticas mântricas tibetanas.
São conhecimentos que somam e enriquecem os seres com alternativas e estilos diferentes de busca do divino, abrindo portas e alargando os horizontes espirituais não só de judeus, mas de toda a humanidade.


[1] Rabino Yitzhak Saggi Nehor רַבִּי יִצְחַק סַגִּי נְהוֹר, também conhecido como Isaac o Cego (c. 1160 - 1235, Posquére, França) era um famoso autor sobre Cabala (misticismo judaico). Historiadores suspeitam que Isaac o Cego seja o autor do livro Bahir, um texto antigo de cabala.
[2] Henrique Conelio Agrippa, "Três Livros de Filosofia Oculta", pág. 80, ed Madras.