Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A NATUREZA DO QUE CHAMAMOS MAL

por Mario Sales, FRC,SI,CRC



Imaginem alguém com AIDS.
Frequentemente, isto incorre em uma diminuição de imunidade ou, em outras palavras, das defesas naturais do corpo contra infecções, como o próprio nome da doença (síndrome de imunodeficiência adquirida) diz.
A partir desta situação, fungos absolutamente inofensivos, bactérias de baixa agressividade e vírus de todas as espécies se sentem autorizados a provocar infecções de toda ordem, aproveitando esta oportunidade em que as defesas estão diminuídas. São chamadas, exatamente por isso, de infecções oportunísticas.
O que antes era fraco, no equilíbrio delicado da natureza, torna-se agressivo e forte. Não porque ficou mais forte em si, mas porque seu antagonista está ou debilitado, ou mesmo ausente.
Agora comparemos esta situação com a de pessoas enfraquecidas moralmente por problemas psicológicos, sejam as doenças psiquiátricas típicas ou depressões leves, seja pelo envolvimento com hábitos pouco saudáveis, que destruam seu sistema nervoso, como a dependência do álcool ou das drogas.
O que resulta desta situação é a perda da força de vontade, da capacidade de reação aos problemas, da vontade de viver. Os pensamentos refletem este estado físico debilitado e pouco a pouco a mente torna-se sombria e obcecada por questões medíocres.
Nasce o chamado problema emocional, ou espiritual, se preferirem.
Este raciocínio me vem a mente quando considero situações em que certas pessoas se sentem vítimas de magia negra, digamos assim, ou são presas de estados mentais atribuídos a terceiros de modo intencionalmente ruim.
Partindo do princípio de que não vivemos em ambientes sociais homogêneos, e que involuntariamente quaisquer pessoas podem invejar ou ser invejadas, desprezar ou ser desprezadas, pensar algo malévolo sobre outra pessoa ou ser objeto de tal tipo de pensamento, estaríamos em uma situação de caos permanente onde todos nós adoeceríamos vítimas das pragas ou maldições lançados, voluntária ou involuntariamente por terceiros.
E não é assim. Pessoas de bom padrão intelectual e financeiro, com beleza física ou espiritual, independente da inveja, repito, às vezes involuntária de que sejam alvo, podem conseguir vidas equilibradas, serenas e calmas, dentro do possível para a vida nesta Terra.
O que as protege? Serão dotadas de poderes especiais que desconhecemos? Serão místicos avançados disfarçados de pessoas comuns, embora socialmente destacadas?
O mais provável é que nenhuma dessas opções seja a resposta e estejamos diante de pessoas além de física, mentalmente equilibradas, às vêzes até por causa do equilíbrio físico. 
Nem sempre são pessoas do ponto de vista físico totalmente hígidas, como é o caso daquelas em corpos não muito saudáveis, mas que iluminam o mundo com seus exemplos e práticas. Falo de frágeis freiras como Irmã Dulce ou Tereza de Calcutá; de líderes religiosos como o Dalai Lama; de físicos como Stephen Hawking. Um corpo saudável ajuda a manter a mente saudável, mas uma mente saudável, na maioria das vêzes, bem focada, com objetivos bem definidos, pode sustentar um corpo frágil e desafiar prognósticos médicos os mais sombrios.
A mente é poderosa, para o Bem e para o Mal. 
E principalmente para o nosso próprio Bem ou Mal. 
Lá nascem saúde ou doença, felicidade e tristeza.
Mais poderosa do que as maldições ou pragas que possam nos lançar é a nossa fragilidade psicológica, filha da superstição e do medo.
Estas condições nos tornam seres com grave deficiência imunológica mental, tornando-nos vítimas fáceis de quaisquer pensamentos ou emoções de baixa qualidade que passem perto de nós.
Não são as pessoas que nos lançam pensamentos ruins, mas nossa própria fraqueza psicológica, e por que não dizer, mística, que nos torna reféns de eventos desta natureza.
O curioso é que nenhum de nós é, verdadeiramente, frágil. Cada um de nós carrega em si uma centelha de Deus discreta em manifestação, mas poderosa o suficiente para destruir e construir universos. Sempre esteve em nós, em todos nós, e sempre estará, já que nossa própria existência depende desta centelha. Não existiríamos sem ela, nada seríamos sem ela. Não é algo que conquistemos ao longo da existência, mas a condição si ne qua non para que esta existência do Eu possa ocorrer.
E não nos damos conta disso.
Deus está em nós, somos o próprio Deus manifesto, mas nos comportamos como se Ele estivesse distante.
Oramos a Ele, clamamos por Ele como se estivesse longe de nós, alguns, às vezes, aos gritos.
Não faz sentido. Não gritamos para falar com alguém ao nosso lado, falamos baixo e com calma, na certeza de que seremos ouvidos. Quanto mais se esta pessoa estivesse dentro de nós mesmos.
Este equívoco em supor um Deus, não interno, mas externo e distante, perturba a nossa percepção de sua presença em nós. E daí a origem desta síndrome de imunodeficiência espiritual, pode-se dizer, adquirida pela educação e pela pregação das religiões que convenceram milhões de seres humanos que Deus estava longe deles e que só poderia ser alcançado através de intermediários, invisíveis ou visíveis, geralmente os sacerdotes destas religiões, que se transformavam, dessa maneira, em despachantes da fé.
A força de cada um de nós, para o trabalho, para a vida social e sexual, vem de Deus.
A inspiração para a criação artística, seja na música ou na literatura, vem de Deus.
O fato é que esta conexão que nos alimenta e sustenta não chega até nós através do vazio, mas emerge de nosso íntimo até nossa mente, a qual, se for saudável e equilibrada, será transparente a sua luz e à sua manifestação.
Quanto menos atrapalharmos a livre manifestação da força de Deus em nós mais luz , não a nossa Luz, mas a Luz do próprio Deus, manifestaremos no cotidiano.
O Mal, portanto, está na crença nesta aparente e fantasiosa dissociação, nesta separação mental entre nós e o Deus de nosso coração que está lá mesmo, em nosso coração e em nenhum outro lugar a não ser lá. Esta Shekinah, esta Presença Divina em nós, é santa e nos santifica. E quem está santificado automaticamente fica imune aos problemas mentais e espirituais decorrentes da instabilidade emocional.
A Presença Divina não é uma crença, mas uma constatação, uma experiência direta, e é por isso que, mesmo aqueles que não crêem, são beneficiados por Ela. Sentir Sua força é manifestar plenamente, principalmente em nossa mente, a luz da inspiração, seja em seu reflexo menos intenso mais conhecido, a razão, seja em sua intensidade mais poderosa, a consciência crística.
Que coisas maravilhosas poderíamos ser e fazer apenas se nos livrássemos da embaraçosa ilusão do Ego e nos permitíssemos mergulhar neste Oceano de Luz que nos permeia.
Para isso, entretanto, necessitamos de muito desapego, não de força, mas de enfraquecimento de concepções errôneas sobre o que somos e o que não somos. Só pelo desenvolvimento de uma ausência programada poderíamos abrir a porta para a Luz em nosso coração e permitir que ela escape por nossos olhos e transformem tudo ao nosso redor, da mesma maneira que a luz do Farol mergulha no mar escuro à noite e orienta navios em direção ao porto.
Permitamos-nos ter esta saúde da auto negação e da afirmação da Shekinah em nós. Este é,sem dúvida, o caminho da bem aventurança.