Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 15 de fevereiro de 2014

MÁGOAS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC

Um velho monge e um jovem monge estavam andando por uma estrada quando chegaram a um rio que corria veloz. O rio não era nem muito largo nem muito fundo, e os dois estavam prestes a atravessá-lo quando uma bela jovem, que esperava na margem, aproximou-se deles. A moça estava vestida com muita elegância, abanava o leque e piscava muito, sorrindo com olhos muito grandes.
– Oh – disse ela –, a correnteza é tão forte, a água é tão fria, e a seda do meu quimono vai se estragar se eu o molhar. Será que vocês poderiam me carregar até o outro lado do rio?
E ela se insinuou sedutora para o lado do monge mais jovem.
O jovem monge não gostou do comportamento daquela moça mimada e despudorada. Achou que ela merecia uma lição. Além do mais, monges não devem se envolver com mulheres. Então ele a ignorou e atravessou o rio. Mas o monge mais velho deu de ombros, ergueu a moça e a carregou nas costas até o outro lado do rio. Depois os dois monges continuaram pela estrada.
Embora andassem em silêncio, o monge mais novo estava furioso. Achava que o companheiro tinha cometido um erro ao ceder aos caprichos daquela moça mimada. E, pior ainda, ao tocá-la tinha desobedecido às regras dos monges. O jovem reclamava e vociferava mentalmente, enquanto eles caminhavam subindo montanhas e atravessando campos. Finalmente, ele não agüentou. Aos gritos, começou a repreender o companheiro por ter atravessado o rio carregando a moça. Estava fora de si, com o rosto vermelho de tanta raiva.
– Ora, ora –, disse o velho monge. - Você ainda está carregando aquela mulher? Eu já a pus no chão há uma hora.
E, dando de ombros, continuou a caminhar.

Este conto, intitulado Trabalho Inútil, faz parte do lindo livro de coletânea Contos Budistas, recontados por Sherab Chödzin e Alexandra Kohn, ilustrados por Marie Cameron, editado no Brasil
pela Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, São Paulo, 2003



Existem várias histórias sobre a importância psicológica e física de superar mágoas de qualquer espécie, e superando-as, tirá-las de dentro de nós.
Trata-se de um processo em tudo e por tudo terapêutico.
Perfeição será quando nem tivermos que retirar de nós qualquer coisa indesejada, ou quando não formos capazes de receber a energia ruim que vem de outros fora de nós ou de dentro de nós mesmos, e atinge com força nossa mente.
Se falamos em abandonar mágoas é porque estas mesmas mágoas já estão em nós, o que pressupõe que, mesmo temporariamente, nos deixamos atingir por seus malefícios, outorgamos a pensamentos íntimos produto de uma educação pregressa, preconceitos enfim, ou a outras pessoas, a capacidade e a possibilidade de roubar nossa serenidade.
Mesmo que a recobremos depois, fracassamos.
Em nós ainda existe Ego a ser ferido, orgulho a ser dissipado.
E isto não é o ideal, mas faz parte do caminho do ser humano.
Sejamos tolerantes conosco como com os outros a nossa volta.
Nosso tempo de serenidade perfeita vai chegar.
Já estamos a caminho.
Basta que continuemos a andar, sem pressa, dentro do nosso próprio ritmo.
E o destino luminoso será inevitavelmente alcançado.
Paciência.