Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

EQUÍVOCOS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC



"O estudante que alcançou o estágio de Iluminação vê-se em "verdes pastos". Para o místico este estágio é semelhante ao de outros dedicados às suas igrejas e à sua Bíblia, e tem suas armadilhas. Para essa boa gente, tudo o que acontece é da "Vontade de Deus". Num filme intitulado "A Cidadela", um jovem médico está assistindo uma paciente em um parto e o bebê é natimorto. O método usual (palmadas) não provoca a respiração no pequeno corpo. O médico então, passa a usar métodos científicos. A velha avó que está observando diz: "- Deixe estar. É a "Vontade de Deus". Quando o médico finalmente soprou nas narinas do bebê e ele chorou, a velha acreditou que acontecera um milagre. O estudante também tende a deixar tudo nas mãos do "Deus Interior" e mergulhar numa segurança perniciosa que impede o progresso. É por isso que os exercícios rosacruzes enfatizam(...)o uso e o teste dos princípios e leis na vida diária."

Monografia de AMORC 228, 12° grau de Templo, página 3




Preparando o ensaio sobre "As Três Cabalas" me deparei com uma passagem curiosa na biografia de Éliphas Levy, ou Alphonse Louis Constant.
"Em 1847, sua esposa (de Eliphas Levy) deu à luz uma menina, que faleceu em 1854, para desespero de seu pai, que a adorava. Era uma criança muito doente e esteve várias vezes à morte."(Em uma dessas vêzes)", diz o Mestre, "trouxeram-me essa pobre criança agonizante, porque não ouso dizer morta, por uma estúpida mulher que Noémi, incapaz de ser mãe, tinha admitido como ama-de-leite. A criança estava fria; o coração e o pulso não batiam mais. Noémi, que não soube cuidar dela como devia, estava furiosa, dizendo que mataria o filho da ama-de-leite (que mulher eu tinha, grande Deus!). Para apaziguá-la, jurei-lhe que a menina não estava morta. Transportei o pobre corpo para a cama e coloquei-o sobre meu peito; assoprei ao mesmo tempo em sua boca e em suas narinas; senti que ela começava a se contorcer. Peguei em seguida um pouco de água morna e bradei: Maria! Si quid est in baptismate catholico regenerationis et vitae, vive christi-ana! Ego enim te baptizo en nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.( Maria! Se há no batismo católico poder de regeneração e de vida, vive de maneira cristã! Pois eu te batizo: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.) Meu amigo, não vos conto um sonho: a criança abriu imediatamente seus grandes olhos azuis espantados e sorriu... Levantei-me precipitadamente com um grande grito de alegria e conduzi-a aos braços de sua mãe, que não podia acreditar no que estava vendo".[1]
Em medicina conhecemos bem este episódio, que chamamos de "rolha de catarro", quando secreção pulmonar se aloja na traquéia ou no nariz de crianças muito pequenas e as sufocam,por parada respiratória, que se for curta pode ser revertida facilmente caso alguém "assopre ao mesmo tempo em sua boca e em suas narinas"  o que mobiliza a rolha e pode permitir a respiração.
O que Eliphas Levy descreve como um ato mágico, na verdade foi um ato médico, e medicina não é magia, é técnica, um tipo de educação.
Penso em quantos atos meramente médicos não foram no passado descritos como supostamente mágicos por mentes mais simples de eras menos elaboradas.
A própria indução hipnótica chamada de sugestão, usada largamente pelos rosacruzes em técnicas de cura e ensinada como um segredo por séculos é conhecida de qualquer psicólogo mediano em nossa época, nada tendo de incomum, a não ser o fato de que continuará sendo um mistério e um segredo para mentes menos educadas.
Já fiz várias vezes distinção entre Magia e Pensamento Mágico aqui no Blog. 
Nem sempre com muito sucesso.
A falta de um preparo educacional que possibilite discernimento às pessoas se faz sentir no dia a dia e no ato de lidar inclusive com os chamados conhecimentos esotéricos.
Ainda hoje, como no passado, nos deparamos com equívocos interpretativos os mais variados baseados na superstição e na ignorância, ou melhor, na falta de prudência e de discernimento, já que ignorantes todos somos, em maior ou menor grau, mas ignorantes imprudentes, nem todos, graças a Deus.
E ser um ignorante imprudente é não ter noção de sua própria ignorância, é lidar com os fatos sem cuidado, sem a abordagem do que Frater Descartes chamou de ceticismo metodológico.
Por exemplo: não se deve confundir eruditos com iluminados ou seres avançados espiritualmente.
Eu, por exemplo, sou um erudito do esoterismo. Leio há dezenas de anos sobre o assunto e continuo estudando ainda hoje. No entanto, como ser humano, sou o mais comum dos seres, não atravesso paredes, não leio mentes, não ressuscito os mortos, não transformo água em vinho. Além disto sou portador de todos os defeitos de caráter comuns à maioria dos seres humanos.
Parece tolice afirmar estas coisas aparentemente óbvias. Só que este blog é lido por dezenas de pessoas e, entre estas, mentes não muito amadurecidas, que poderiam facilmente confundir alhos com bugalhos.
Se há algum mérito em mim como escritor e esoterista é ser um ignorante prudente, conhecer minhas limitações, tanto porque estou hoje mais culto do que era anos atrás, quanto por estar mais velho e, por isso, mais aperfeiçoado. Segundo meu xará, o professor Mario Sergio Cortela, as pessoas não nascem prontas e por isso não envelhecem , mas se aperfeiçoam. Quem nasce pronto é fogão, geladeira, automóvel, e por isso estes objetos apenas envelhecem. Seres humanos não nascem prontos e por isso apenas se aperfeiçoam.
Gosto desta visão. E sigo este pensamento.
Considerando pois que sou mais velho e por isso, como disse , mais aperfeiçoado, sei, como lembrava Sócrates, que nada sei, e acrescento, como Fernando Pessoa, que "não sou nada, e nunca serei nada". E como eu, muitos antes de mim, que perceberam, uma vez livres da ilusão da vaidade, que eram apenas pessoas comuns.
Só que sempre haverão os equívocos e as pessoas equivocadas dispostas a cometê-los, e que em vez de perceberem e aceitarem que alguém realmente não é nada de especial, quando este afirma isto respondem com a proverbial frase:      "-Que nada, modéstia sua."
É como se houvesse algo mais grandioso ou melhor do que estar simplesmente vivo neste corpo e desfrutar da experiência da vida comum. Na verdade não há, mas a fantasia e a mente iludida quer o romance, a glória e as lendas e histórias de cavalaria como pano de fundo para suas existências que consideram medíocres por serem simples e comuns.
Olha-se a vida pelos óculos coloridos de Maya, e aí, como na lenda chinesa de Chuang-Tzu, não se sabe se somos seres humanos sonhando ser borboletas ou borboletas que sonham ser seres humanos.
Primeiro, é preciso olhar para nós mesmos com discernimento. E reconhecer a beleza de ser um ser humano comum, sim, sem nenhum dom especial. Que isto já é uma bênção. Esta visão equilibrada só a educação garante. Não importa se é uma educação formal ou não, mas a educação é fundamental.
E repetindo, educação não é acúmulo de informações e dados, mas desenvolvimento da sensibilidade. A dança, a contemplação da arte, pinturas ou esculturas, a música, são tão ou mais fundamentais à nossa formação educacional quanto a matemática e a física.
É na arte que desenvolvemos sensibilidade.
E para sentirmos Deus é preciso treinar através da oração mas também da arte, desenvolvendo nossa sensibilidade à Sabedoria, a Força e à Beleza, para podermos depois sermos adequadamente sensíveis à Deus.
Não podemos confundir, pois, erudição (acúmulo de informações e dados) e evolução espiritual, uma coisa nada ou quase nada tem a ver com a outra. E os muitos autores do esoterismo literário devem receber de nós a atenção que merecem, como seres humanos que foram e são, cheios de problemas pessoais como nós também temos, ao contrário da devoção que é devida apenas e tão somente ao Deus de nossos corações, ao Deus de nossa compreensão.
Qualquer outra atitude em relação aos muitos autores esotéricos do passado e do presente, caracteriza apenas um grande equívoco.




[1] http://www.culturabrasil.pro.br/eliphas_levi.htm