Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CIÊNCIA MÍSTICA X CIÊNCIA ORTODOXA


por Mario Sales, FRC,SI,CRC




"...Quanto a sua indagação em relação a ciência, vejo que as ordens estão cada vez menos atrativas, tentando desesperadamente ampliar seu quadro associativo para movimentar um volume financeiro que não sabemos a finalidade. No caso da AMORC eu compreendo o motivo pelo qual ela não se aproxima da ciência, ou não constrói as pontes que você citou. Para mim, os motivos principais são:
Esse conhecimento ainda é o atrativo da ordem (vantagem competitiva);
A Ordem não possui o interesse em atestar, comprovar e compartilhar o seu conhecimento;
A Ordem não colocará a sua reputação em jogo com o meio acadêmico e científico para comprovar suas teorias;
A Ordem não tem preparo para uma suposta gestão de crise caso os ensinamentos dela sejam comprovados como errados, falsos ou inexistentes pela comunidade acadêmica ou científica.
Me diga frater, você com 37 anos de ordem, como se sentiria se a comunidade científica comprovasse que os ensinamentos de um grau inteiro da Ordem não se comprovam? Como a ordem lidaria com isso? O que seria ensinado nesse grau dali em diante? Será que os líderes de nosso movimento teriam sabedoria para lidar com isso?
Sobram dúvidas, faltam respostas."

De um comentário ao post "Pontes", de 25 de abril de 2013, anônimo, no blog.

Talvez a maioria das pessoas tenham uma idéia fantasiosa da ciência exatamente porque não fazem ciência. Embora eu também não faça, trabalho na porta ao lado e como somos vizinhos, testemunho frequentemente os problemas dos cientistas ou aqueles que estão no meio.
A ciência não tem nada em especial contra o misticismo. 
A única preocupação da ciência é com a falta de fundamentação empírica ou matemática. 
É isso que a ciência, por ser ciência, não pode deixar de considerar. 
Ciência é a busca sistemática do entendimento do funcionamento íntimo da Natureza, em princípio, na intenção de melhoria da qualidade de vida de toda a raça humana.
Ocorrem desvios desta missão, mas paciência.
Um cientista combate a superstição, não o conhecimento em si. Portanto, qualquer fenômeno, que se sustente do ponto de vista teórico, matematicamente, ou qualquer evento demonstrável empiricamente, desde que a experiência siga os procedimentos mínimos de confiabilidade, controlando variáveis e expondo publicamente seus resultados, de modo que a comunidade científica possa repetir o experimento e comprovar os resultados, se essas condições forem preenchidas, aquele conhecimento será cientificamente embasado e entrará no conjunto de eventos que comporão o próximo consenso daquela área.
Consensos são mais flexíveis à mudança. Não são dogmas irrevogáveis, mas protocolos passíveis de modificação no momento em que algum dos cientistas participantes deste consenso tiver acesso a algum dado novo e também cientificamente fundamentado que modifique em parte ou totalmente o consenso e o paradigma anterior.
São movimentos lentos de acumulo de informações e sedimentação de convicções, sempre em meio a crítica metodológica, ao debate de alto nível entre correntes de pensamento diferentes.
Isto é, intelectualmente, estimulante.
Mesmo conhecimentos que nortearam por séculos o pensamento humano e a humanidade, como o geocentrismo de Ptolomeu ou a mecânica gravitacional Newtoniana, foram rejeitados como infundados no momento em que novas evidências, trazidas ou não por novas tecnologias de investigação, demonstraram suas falhas e incorreções.
Os místicos, mesmo os rosacruzes de AMORC, nas conversas do cafezinho dos corpos afiliados, gostam de comentar a "imutabilidade das leis eternas", expressão que é usada de modo despreocupado e, do ponto de vista científico, leviano.
E uso o termo leviano porque na maioria das vêzes existe nesta afirmação, de modo explícito ou implícito, a extrapolação de que , não só as leis espirituais são imutáveis, mas as leis do funcionamento material universal também são.
E aí estamos misturando alhos com bugalhos.
Quando nos referimos ao Karma, a Reencarnação, a dualidade da natureza da existência, estamos falando das Leis ou Princípios Espirituais Universais e, quanto a isso, cremos estar sim, falando, de um Modus Operandi invariável.
Mas quando falamos do Universo Material não podemos ter a mesma certeza e segurança já que nossa ignorância sobre a Natureza do Universo Material ainda é imensa e assim continuará, salvo engano.
Ou seja, não são as Leis Científicas que mudam mas o nosso conhecimento que se expande e isto sim implica em mudanças nos nossos paradigmas acerca da criação.
Independente do que a Ciência creia hoje sobre a Natureza do Universo, está pronta para revisar suas posições no momento em que novas evidências levem a tal revisão.
O conhecimento técnico rosacruz (telecinese, projeção astral, telepatia, cura através de abordagens energéticas, domínio da intuição) não atraem o interesse da comunidade científica ortodoxa.
E isto se deve ao fato de que as experiências neste campo jamais se deixaram sujeitar totalmente ao método científico, foram sempre guardadas como coisas sigilosas, esotéricas, mesmo quando veio à luz o interesse russo por este campo.
E quando eu digo "sujeitar-se ao método científico" digo expor ao público científico aquilo que ensinamos de modo oculto, e permitir que a comunidade científica livremente critique e analise os métodos de experimentação, procure reproduzir as técnicas, em suma, investigue a confiabilidade das técnicas demonstradas e sua reprodutibilidade, independente de qualquer aspecto subjetivo.
Para isso, nós, esoteristas, precisaríamos ter projetos de pesquisa internos, direcionados para a mensuração destes fenômenos, documentando-os em áudio e vídeo, e publicando-os regularmente com detalhamento do experimento, seguindo o modelo do antigo Laboratório da Universidade Rose Croix da Grande Loja de Língua Inglesa, com o professor Georges Buletza, hoje abandonado.
Nossa compreensão sobre esses fenômenos, tenho certeza, se modificaria e poderíamos entender melhor a razão pela qual algumas pessoas tem o dom de ver auras ou levitar objetos e outras não, sem a suposição de que isso seja a "vontade de Deus" e que nada possamos fazer para ampliar e facilitar para mais pessoas a capacitação e o desenvolvimento dessas habilidades.
Ressalto que rosacrucianismo não é parapsicologia e não se resume a desenvolver estas habilidades, mas visa a busca do Sagrado dentro de nós , de forma que essas habilidades poderiam ser até uma distração no caminho em direção ao Altíssimo.
Se a ciência ortodoxa, nas palavras de um pesquisador, "prescinde do conceito teórico de um Deus", na ciência rosacruciana isto é impensável, já que Deus, para o rosacruz, é tudo menos um mero conceito intelectual.
Só que isto não impede que façamos ciência de boa qualidade, já que ciência e rosacrucianismo não são conceitos excludentes.
Mesmo a prática esotérico-ocultista mudou e evoluiu ao longo do tempo.
Nós rosacruzes vivenciamos períodos de investigação magista, teúrgica, de John Dee, antes de Bacon, até Papus, no final do século XIX; hoje estas práticas estão praticamente abandonadas pela entrada em vigor de um conceito de ocultismo mental, e não ritualístico, que jogou nos armários cajados, mantos e chapéus cônicos como marcas de um período já superado e obsoleto (vejam a transição do Martinezismo para o Martinismo, ou do trabalho de Hyeronimus na França para o de Spencer Lewis na América do Norte)
A única coisa que não se modificou foi a abordagem mística, a busca interior do sagrado, que continua como antes cada vez mais forte em todos os rosacruzes.
Se, como comenta o frater, a ciência, eventualmente, mostre "que os ensinamentos (da AMORC)  sejam (comprovadamente) errados, falsos ou inexistentes pela comunidade acadêmica ou científica ..." ela poderia fazê-lo em relação ao aspecto temporal destes ensinamentos e não em relação aqueles que são atemporais e realmente fundamentais. E no melhor cenário, AMORC deveria agradecer a ciência por estas revelações, desde que a refutação fosse bem fundamentada e embasada experimentalmente.
Quanto a mim, com "40 anos de ordem (entrei na rosacruz aos 17 anos, em 1975, e hoje tenho 57), me sentiria sereno caso "a comunidade científica comprovasse que os ensinamentos de um grau inteiro da Ordem não se (sustentam)" , pelos motivos acima expostos. "Como a ordem lidaria com isso" não sei, caso estas questão se refira aos seus líderes. Quanto aos rosacruzes, estes, tenho certeza,  ficariam muito atentos e curiosos e procurariam adaptar-se aos novos tempos, da mesma maneira que abandonaram mantos e cajados em troca dos poderes mentais, a astrologia pela astronomia e a alquimia em troca da química e da física.
Na verdade, tenho uma enorme confiança na qualidade mental da maioria dos rosacruzes. Espero não ser uma confiança ingênua e tenho lutado, convicto de que não é, para sugerir, daqui desse espaço ou pessoalmente, que assim permaneça, que jamais um rosacruz seja um indivíduo pusilânime e supersticioso, e que tenha dignidade intelectual, como recomenda a carta aos SI do Marquês Stanislas de Guaita, uma das peças de retórica mais rosacrucianas que eu já escutei, juntamente com "Nuvem sobre o Santuário" de Erkasthausen.
Dignidade intelectual é ter discernimento e prudência, é usar e crer no método científico, é não ser arrogante achando-se dono da verdade sobre a realidade temporal, mas estar aberto a rever suas posições desde que novas evidências assim o recomendem, e tudo isso, sem perder o amor a Deus e aos seus desígnios, jamais esquecendo que se temos alguma luz em nós é pela presença da Luz maior que nos dá existência neste mundo de ilusões impermanente.