Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

MAIS LEITURAS E REFLEXÕES


Por Mario Sales




Estou lendo agora no e-reader da Livraria Cultura, o Kobo, a biografia de Carlos Chagas Filho,(“Um Aprendiz da Ciência”) que cheguei a ver em vida, em uma visita de minha turma de faculdade à Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lembro-me de um homem alto e de cabelos muito brancos que me disseram ser o eminente, depois vim a saber, cientista, que por sua biografia descubro foi por toda a vida emaranhado (para usar um termo da Mecânica Quântica) com a Biofísica, e com pesquisas com o peixe elétrico brasileiro.
Este descendente do mesmo Carlos Chagas que dá nome a doença tornou-se uma autoridade científica respeitada internacionalmente, mas se eu não lese este texto jamais saberia disso. Faleceu no ano 2000, coroado de láureas e títulos de Doutor Honoris Causa de dezenas de Universidades em todo o mundo, além de ter sido a pedido de Paulo VI presidente da Academia Pontifícia de Ciências em Roma.



Um cientista, um homem da pesquisa, que participou ativamente da fundação do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) e mesmo assim, sem pertencer ao clero, um homem da religião.
Acabei de ler A Ilha do Conhecimento de Gleiser, e lá também encontrei vários momentos em que, às vezes de modo sutil e em outros momentos, de forma não tão sutil assim, o físico e palestrante brasileiro, professor da Universidade de Dartmouth, (em Hanover, New Humpshire), flerta com a espiritualidade.
Ao que parece o fenômeno é mais difundido do que supõe a vão filosofia de racionalistas extremados como o biólogo evolucionista Richard Dawkins.
Não há certos ou errados nesta questão.
O que Dawkins chama de crença irracional para muitos é algo natural como a fome ou a sede. Para pessoas assim, como eu mesmo, a percepção do divino em nada afeta a razão ou a sensibilidade à argumentos lógicos.
Cretinos e idiotas existem em ambos os campos, sejam crentes ou ateus.
O que deveria se combater isto sim era a estupidez e a ignorância e não a sensibilidade de certas pessoas que independente de sua formação intelectual sólida (Carlos Chagas Filho lia Goethe no original aos 10 anos) são capazes de abraçar uma crença de modo sereno e sincero.
Dawkins e outros revoltados como ele não estão errados ao elencar os problemas ligados à crenças religiosas extremadas e que tem uma história nefasta em relação a liberdade de pensamento e à ciência em si. O problema é que, se existiam, repito, cretinos entre os crentes que queimaram pensadores e mataram homens de ciência, lembro as palavras do professor Karnal que, como bom historiador e estudante das religiões, embora diga-se ateu, alerta que assassinos existem entre religiosos e ateus, lembrando sempre que “o homem mata porque gosta de matar e não em nome de seu Deus”.
Penso sempre nisso quando lembro o destino de Frater Lavoisier, químico guilhotinado pela junta do período pós revolução francesa, a época conhecida como Terror.
Não, não é a fé ou a percepção da existência de algo superior a nós, uma inteligência que tudo governa e administra, que faz de nós cretinos assassinos. Ou mesmo maus cientistas.
As coisas não são tão simples. Lutar contra a religião e o senso do divino entre seres humanos é tentar segurar o vento entre as mãos e faz de qualquer um como Dawkins ou o escritor Christopher Hichtens, um cruzado ridículo.
Todos têm direito a crer ou não no que queiram. Ninguém, no entanto, tem o dever de tentar convencer de modo acintoso alguém de seu ponto de vista.
Mesmo homens de ciência sabidamente distantes de problemas como a religiosidade pensam assim, considerando este proselitismo, mesmo que feito por ateus uma coisa extremamente chata e desconfortável.
O próprio Dawkins sofreu na pele a conhecida ironia de ninguém menos do que o professor Hawkins, que de sua cadeira de rodas zombou dele pela sua obsessão antirreligiosa. Confiram o vídeo do link abaixo em 3’ e 29”.
Este debate hoje é no mínimo ridículo, e a insistência dos entrevistadores e de alguns intelectuais de forçarem este tipo de questão primária e superficial me irrita profundamente.
Newton era profundamente ligado a alquimia e um home de crenças em uma divindade inabaláveis. Nada disso afetou seu brilhantismo, suas contribuições a ciência ou seu papel no enriquecimento do conhecimento humano na ótica, nos estudos gravitacionais e na criação do Cálculo, em matemática.
Não porque Newton fosse um crente, mas porque ele não era um cretino. A inteligência não é nem nunca foi incompatível com a sensibilidade às coisas de Deus.
Eu já usei a palavra cretino várias vezes e pode parecer que estou tomado de fortes emoções ao fazê-lo.
Não é bem assim. A palavra define um estado de deficiência mental característicos de portadores de hipotireoidismo congênito e é por extensão a todas as pessoas limitadas intelectualmente.
É nesse sentido que uso o termo.
A luta não foi entre o bem e o mal mas entre o conhecimento e a ignorância. E a humanidade não tem, na sua maioria, pessoas da estirpe intelectual de um Marcelo Gleiser ou de Carlos Chagas Filho.
É de se lembrar aqui que existem espíritos antigos e sábios fora da academia, fora da ciência e da filosofia.
Longe de mim achar que a razão é o que garante a qualidade das almas e das mentes, bem como dos comportamentos.
Não, a razão já mostrou que pode causar muito mal, que ode ser tanto uma geradora de luz como também um monstro perigoso. A razão, de per si, não merece confiança.
Mas é uma ferramenta importante que se manipulada com destreza e sabedoria pode ajudar muito a sociedade e aos seres humanos.
Oxalá superemos a ignorância, a fome e a miséria material. Que nossas vidas possam ser apenas a busca por um nível de espiritualidade maior e mais profundo.
E que então debates estúpidos e inúteis sejam substituídos por diálogos sérios em busca de soluções objetivas para os reais problemas que afligem nossa espécie, como um todo.