Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O MISTICISMO NO HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Ou de como as canções de Pink Floyd ainda me emocionam

por Mario Sales, FRC, SI, MM




"Como eu queria que você estivesse aqui 

Nós somos apenas duas almas perdidas 
Nadando num aquário 
Ano após ano 
Correndo sobre o mesmo velho chão 
O que nós encontramos? 
Os mesmos velhos medos 
Eu queria que você estivesse aqui” 

“Wish You Were Here”, Pink Floid


“O tempo passa, em meio a momentos 
que maquiam um dia monótono
Você perde tempo 
gastando as horas de modo descuidado
Perambulando por aí, em sua terra natal
Esperando alguém ou algo 
que te mostre o caminho” 

“Time”, idem




Talvez o que marque a diferença entre mentes infantis e outras, amadurecidas pela convivência mais serena e respeitosa com as emoções e por uma reflexão mais equilibrada, é a impressão, que aquelas primeiras têm de serem de alguma forma especiais, independente do cotidiano demonstrar-lhes, insistentemente, a monotonia das personalidades e dos comportamentos ditos tipicamente humanos; mais que isso: chegam a supor que esses auto denominados "seres especiais", dotados de algum talento particular, artístico ou intelectual, por terem este referido talento, tenham desejos menos comuns, errem menos ou mesmo nunca, e suas conclusões sejam sempre sensatas e corretas.
O que me parece hoje claro é que se até Anjos podem rebelar-se e se o céu, em suas lendas, descreve, dentro de suas portas, uma luta por poder e liberdade, nós, pobres humanos, somos capazes apenas de falhar, miseravelmente, todos os dias, em busca de uma perfeição espiritual imaginária.
Se alguma dignidade temos como raça, como espécie, é sermos o que somos, nada além, nada aquém.
Ponte para algo além do homem, como lembrava Nietzsche, mas não o “Übermensch”[1] em si.
Em nossas buscas a sensação não é de progresso ou de alivio; ao contrário, sentimos como se estivéssemos “nadando num aquário, ano após ano, correndo sobre o mesmo velho chão. 

(E) o que nós encontramos? Os mesmos velhos medos. ”[2]
Assim se comportam  esoteristas românticos e fantasiosos, supondo-se no domínio de forças imaginárias que jamais utilizaram, das quais só conhecem o que ouviram falar ou leram em textos obscuros, supondo, vaidosos, que são homens melhores por causa do que leram. Ou ocultistas, voltados para o passado, transformados em estátuas de sal como a esposa de Ló.[3] 

Enquanto os místicos, esses devotados homens e mulheres, seguem esquecidos de que de nada necessitam além de sua capacidade de orar com sinceridade. 
E isto qualquer pai, que não seja iniciado em nenhuma ordem secreta, com um filho ou filha doente, sabe fazer.





Tantos rituais e códigos e apertos secretos de mão só nos afastam de nós mesmos e daquilo que realmente importa: vivermos nossa humanidade, “ano após ano”, dia após dia, pagando nossas contas, trabalhando, e desfrutando de conversas na cozinha, com o marido ou com a esposa, ou dividindo uma taça de vinho com um bom amigo.
A vida comum, desde que aceita como a verdadeira vida, é a única garantia de não gastar “as horas de modo descuidado”, supondo que exista algo diferente em algum lugar ou época que não fizemos ainda.
Fantasias ameaçam nossa Imaginação tanto quanto nossa Realidade.
São nossas falsas idéias de mundo que militam contra a Luz dentro de nós, a Luz que brota dos dias comuns e simples.
O que precisamos, para avançar em nossa espiritualidade, é reencontrar nosso corpo, e os corpos daqueles que amamos ou que não amamos, contatos que nos enriquecem e humanizam.
Precisamos reencontrar o foco no cotidiano, nas pequenas delícias de estar neste plano, no gosto do café, no sabor de um pão quente, e de apreciar o jeito como a manteiga derrete e se espalha em sua superfície pela manhã.
Amar nossa casa, amar estar “em casa, novamente em casa, (e dizer em alto e bom som): Eu gosto de estar aqui quando posso; quando chego em casa cansado e com frio
É bom ... esquentar meus ossos ao lado da lareira, (enquanto)
Bem longe, do lado de lá do campo, o badalar do sino de ferro, chama os fiéis, de joelhos, para ouvir o encanto suave de ... palavras”, mas eu não me importo. 

Esta casa é meu templo e as únicas palavras que me importam são as palavras da mulher que eu amo e que está aqui ao meu lado.
É o som de sua voz, sua entonação, que me abençoa e acalma.
Este amor, esta convivência, são o verdadeiro e mais profundo esoterismo, a mais importante magia.



[1] Além-Homem é o termo originado do alemão Übermensch, descrito no livro Assim Falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em que explica os passos através dos quais o Homem pode tornar um 'Além-Homem' (homos superior, como no inglês Beyond-Human a tradução também pode ser compreendida como Além-do-humano).
[2] Pink Floyd, em epígrafe.
[3] Gênesis, 19-26