segunda-feira, 6 de junho de 2011

AS REFLEXÕES DE GINSBURGH



Por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Frater Reginaldo trouxe-me à consideração, dia desses, os comentários do livro Hebrew Letters: Channels of Creative Conciouness, de Yitzchak Ginsburgh.



Lá pelas tantas, comenta o rabino que as cinco letras hebraicas finais, Tzadi, Fei, Num, Mem e Chaf finais “...correspondem às cinco redenções da escuridão de nosso exílio dentro da consciência da pluralidade.”



É curioso encontrar tantas similaridades entre culturas tão díspares como a hebraica e a indiana. Ambas falam de uma unidade no plano transfísico que é perdida ou pelo menos confundida neste plano de manifestação.
Ou melhor, apenas quando está na carne o homem tem esta impressão de ser uma parte destacada do cosmos, do Todo.
“Consciência da pluralidade” é uma expressão que identifica a natureza mental de quem está encarnado, por que , uma  vez na matéria, somos mergulhados e absorvidos em uma consciência plural, onde a noção de Unidade é perdida enquanto dura a encarnação.

Estas cinco letras, segundo Yitzchak Ginsburgh, têm o poder de “nos redimir do exílio, levando-nos à luz da consciência final da Unidade Absoluta Divina.”
É curioso que um homem capaz destas palavras, filósofo e matemático formado pela Universidade de Chicago, seja o mesmo que declarou certa feita que não existe possibilidade de comparação entre judeus e gentios e que gentios não poderiam ser autorizados a viver na terra de Israel além de defender o retorno da Monarquia Hebraica.

POR QUE AMAMOS AS PESSOAS ERRADAS?



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



Embora aparentemente estranho falar ou escrever sobre isso em um blog místico, relacionamentos afetivos preenchem grande parte do cotidiano de homens e mulheres ao redor do mundo, interferindo na produtividade profissional e na qualidade de vida de todos.
Alguns pontos acerca deste tópico me parecem, no entanto bastante significativos para os místicos de hoje, já que a opção da existência monástica não é uma alternativa válida para místicos modernos.
As cavernas já se prestaram a esconder por tempo demais as pessoas de seus demônios, de suas indecisões. As cavernas escondiam as pessoas de si mesmas.
Santo não é aquele que não peca porque não é tentado, que não erra porque não se arrisca, que não falha porque não é testado. O nome dessas pessoas é outro: eles se chamam covardes.
Mortos vivos, pois jamais experimentarão qualquer emoção, qualquer sentimento, qualquer paixão.



Viverão sempre a sombra de suas mediocridades, de sua não existência.
Não, esta também não é uma opção.
Todos os místicos são pessoas, se bem que nem todas as pessoas são místicas.
Todos nós, de qualquer forma, místicos ou não, necessitamos de afeto.
E inevitavelmente corremos e correremos riscos por causa disso.
O primeiro deles, o risco do fracasso.
O risco de não conseguirmos um relacionamento satisfatório, ou estável.



Aqui devemos considerar que estas são duas coisas absolutamente diferentes.
Relacionamentos satisfatórios não são necessariamente estáveis.
Relacionamentos estáveis, da mesma forma, necessariamente não são satisfatórios.
Podemos estar com alguém que nos agrada em um momento, mas não em todos os momentos, porque um dos mitos da existência é a estabilidade.
Tudo é instável, todo o tempo. Nós somos instáveis, todo o tempo.
Está nos nossos átomos que seja assim; está nas nossas moléculas; portanto, está também em nossos relacionamentos.
A instabilidade desses relacionamentos não os torna piores ou melhores, apenas dinâmicos.
É preciso estar atento todo o tempo.
Principalmente nos primeiros momentos, os momentos da escolha.



Imaginamos que escolhemos quem escolhemos em função de seus dotes físicos, em primeiro lugar e depois, por suas qualidades psicológicas, seu charme. Na verdade não é bem assim. Existem alguns marcadores psicológicos em nosso subconsciente que precisam ser considerados.
Os modelos que nos atraem geralmente reproduzem modelos domésticos, paternos ou maternos. Existe um consenso entre os psicólogos sobre isso. Este modelo não é uma reprodução idêntica de nossos pais, mas uma aproximação com as variações relativas a idade e contexto social. No início, isto pode parecer absurdo, mas via de regra só encontraremos felicidade e algo perto de satisfação em nossos relacionamentos se a pessoa em questão tiver qualidades semelhantes aos nossos padrões domésticos. Pelo menos é isso que a natureza estabelece de forma automática. Ou seja, se nosso ambiente doméstico não for um modelo de equilíbrio, se for marcado por problemas absolutamente humanos como alcoolismo, jogo, adultério, ateísmo ou excesso de zelo religioso, em outras palavras, fanatismo e conservadorismo moral, talvez estejamos destinados a repetir com nossos futuros parceiros relacionamentos marcados pelas mesmas características.
E mesmo que tenhamos jurado a nós mesmos, desgastados pelo sofrimento da infância e da juventude, de que nos distanciaremos deste modelo ao estabelecer nossos próprios relacionamentos, os programas subconscientes, as rotinas de nosso disco rígido psicológico sabotarão nosso discernimento, e seremos cegados para sinais evidentes de que aquela pessoa a nossa frente tem preocupantes semelhanças com tudo aquilo de que queremos fugir, mas com o que estamos habituados por uma prolongada convivência.
Hábitos. Afetividade e sentimento, atração, mesmo aquela de natureza sexual, tem a ver com nossos padrões habituais.
No início não parece claro, achamos que percebemos características aqui e ali que nos lembram nosso pai ou nossa mãe, mas desconsideramos, ou até consideramos como bom sinal dependendo daquilo que nossos pais significaram em nossas vidas.
É preciso estar atento, no entanto.
Deixar-se arrastar em um relacionamento por padrões automáticos pode ou não ser algo prejudicial à qualidade do próprio relacionamento.
É preciso dialogar com nossos impulsos, conversar com eles, não reprimi-los, nem ceder totalmente a eles, mas administrá-los, não apenas de forma racional, mas usando também nossa sensibilidade.
A primeira e mais prudente conduta em relacionamentos afetivos é nunca tratá-los como definitivos sem que um certo tempo de avaliação, um precioso e importante período de avaliação decorra.
Nada de pressa pois até a vida é provisória.
E neste período de avaliação é fundamental que, como o nome diz, avaliemos, detalhadamente, nosso pretendente em suas características psicológicas tanto quanto as físicas.
Existe um método para tornar esta avaliação menos subjetiva.
Trata-se exatamente de tomar como modelo comparativo nosso pai ou mãe de acordo com a circunstância.
No que este indivíduo lembra nossos pais? Quais são suas características comportamentais que mais se assemelham aos padrões aos quais fomos habituados?
E quando digo analisar e comparar, falo de usar até um lápis e um papel.
É mais ritualístico e dá mais tranqüilidade ao processo do que um computador. Acreditem.
Se tivermos orgulho de nosso contexto social e familiar, quanto mais parecido nosso possível companheiro for com nossos modelos domésticos, melhor. Se ao contrário, nossa herança doméstica não for algo do que devamos nos orgulhar, uma semelhança constatada deverá ser um aviso para corrermos para o mais longe possível daquela situação.
Ficaremos surpresos com nossas constatações.
De qualquer forma, é preciso tempo. E se possível não desperdiçar este tempo sem utilizá-lo para ganhar mais tempo.
Não se deve marcar as núpcias ou discutir a decoração da igreja antes do noivado, digamos assim.
Por mais que queiramos acertar nos nossos relacionamentos, vamos errar, com certeza, uma, duas vezes, ou mais. E erraremos mais se tivermos pressa, se considerarmos que um relacionamento que está indo bem , sempre irá bem. Ou que, por último, não precisamos fazer mais nada do que sermos gentis uns com os outros, e confiar que tudo seguirá o melhor cenário. Desejar o melhor e preparar-se para o pior.
E para todos os afazeres da existência, inclusive as relações amorosas, preparar-se para o pior é analisar os sinais presentes nos outros.
Cuidadosamente, atentamente e sem ansiedade. Isto não impede que desfrutemos das coisas boas do relacionamento, mas impede que nos deixemos arrastar por estes bons momentos como se fossem os únicos possíveis.
Alguns místicos não compreendem bem o conceito de karma por que supõem tratar-se de um conceito estático. Que coisas foram feitas e outras terão que acontecer para compensá-las. Na verdade o karma é bem mais dinâmico.
Alguns relacionamentos ruins não são kármicos, vale dizer, não são obrigatórios, mas tornam-se kármicos quando se impõem pela omissão dos seus participantes em modificá-lo, melhorá-lo, ou abandoná-lo mesmo, se demonstrar-se absolutamente insatisfatório. Tudo pode ser revisto porque tudo nesta vida é provisório e nosso único compromisso é com a qualidade de nossa própria existência, o que implica em ter extremo cuidado e carinho com nossas relações, não nos sujeitando a relacionamentos ruins porque talvez não tenhamos encontrado algo melhor. Não significa dizer, da mesma forma, que devemos abandonar uma situação ao primeiro sinal de conflito. Deve-se saber pelo que vale a pena lutar e ir atrás de nosso objetivo.
Um relacionamento, como qualquer outro empreendimento deve ter prioridades e detalhes sem importância. São essas prioridades que vão determinar se o resto deve ou pode ser relevado como coisa sem importância, mas não se pode transigir com prioridades.
Todo relacionamento é dual em essência e trino em manifestação.
Sempre haverá dois lados a considerar.
E para essas considerações devemos usar a razão e a sensibilidade.
Uma sem a outra são capengas.
Portanto, se foi o próprio Deus que nos deu inteligência, devemos utilizá-la para interferir no assim chamado curso natural ou automático das coisas.
É como nas cesarianas e na anestesia. Antes das duas, uma das formas de seleção natural era a morte de bebês humanos em trabalhos de parto impossíveis de serem resolvidos sem a cirurgia; e sem a anestesia, a cirurgia era insuportável. Com as duas, muitas vidas que seriam naturalmente, automaticamente ceifadas, não o são. Interferimos no problema e mudamos o curso das coisas, mudamos o curso do Karma.
É romântico e até poético dizermos que a decisão sobre quem será nosso parceiro definitivo ou algo perto disso será tomada pelo nosso coração e não por nosso cérebro.
Só que não é bem assim. Porque se fosse, se não tivéssemos a capacidade de pensar nossa felicidade e nossos encontros, apenas reproduziríamos comportamentos pré-programados em nosso subconsciente. É exatamente para não sermos vítimas de rotinas mentais que temos nosso cérebro.
Porque amamos as pessoas erradas? Porque deixamos tudo a cargo da emoção, ao sabor do instinto, do "natural".
Como antes das cesarianas e das anestesias.
Estejamos atentos aos nossos sentimentos mas do mesmo modo aos nossos pensamentos. É mais prudente.
E para lembra Carl Sagan, se bem que ele tenha usado a frase em outro contexto, "é preciso deixar a cabeça aberta, mas não tão aberta que o cérebro caia de dentro dela".

domingo, 5 de junho de 2011

AOS PORTUGUESES





Hoje é dia de eleição em Portugal, o terceiro  país que mais acessa o blog.
Como a política é parte importante da vida social e muitos dos que acessam o blog são maçons e rosacruzes portugueses, gostaria, como irmão , de desejar a todos boa sorte. E que o povo português supere tudo o que está passando o mais rápido possível.
São estes meus mais sinceros votos.


M

sábado, 4 de junho de 2011

ARISTÓTELES E A SERPENTE


por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:;M.:M.:







Coloquei no título do blog a imagem de Shiva, deus da renovação e princípio da transformação de tudo que existe.
Chama atenção a serpente enrodilhada em seu pescoço. Nathalia, minha filha, percebeu e perguntou.
"Porque uma serpente?",quis saber.
Respondi que a serpente na cultura indiana representava a energia Kundalini que dorme na base da espinha dorsal, para mim no gânglio ímpar do cordão do sistema nervoso simpático ou autônomo.

Na tradição do Yoga esta energia uma vez desperta, sobe até o chakra da coroa e desce abrindo este e os outros abaixo dele, um a um, transformando o indivíduo em um semideus.
Concluí a conversa dizendo que isto significa que a energia que nos transforma em semideuses vem de baixo e a serpente é um animal da terra, telúrico, e que por isso serve bem para representar o conceito de Kundalini.
Foi neste momento que caí em mim.
Havia dito uma verdade bombástica de modo descuidado.

A energia que nos liberta da servidão e da doença, que nos eleva fisicamente a uma condição de força mental e vigor físico indescritíveis, vem da terra, não do céu.
Talvez por isso havia e ainda há tanta precaução na iniciação desses ensinamentos se bem que não creio em monstros desde que me tornei adulto e creio que nem um fósforo é riscado sem que Deus permita.

Se alguém modernamente conseguir este tipo de iluminação kundalínica, isto não ocorrerá apenas graças a sua vontade e esforço, sempre fundamentais, mas também a autorização do Alto.
De qualquer forma, esse comentário, lembrando que aquilo que nos transforma em deuses vem da terra, vem de baixo, para só depois ascender e tornar a descer nos libertando-nos da dor e da morte física é, filosoficamente, instigante.
Deste lado do planeta, onde se vive sob a égide do discurso Paulino, da recomendação religiosa de ser manso e frágil, para ser digno da graça, é nítido o contraste com a doutrina védica onde o poder vem das energias telúricas, onde mais importante que uma vida moral é a combinação de aspectos mentais e físicos, e eu vou repetir para enfatizar, físicos, como o domínio da respiração, os pranayamas; o domínio da digestão, com os bhandas; enfim o domínio sobre o corpo, com a Hatha Yoga.



Abraham Maslow, modernamente, em psicologia, reforçou esta perspectiva com sua pirâmide de necessidades.





Sim, a mente também será objeto de atenção, mas não apenas de modo filosófico especulativo, não através da doutrinação com discursos morais e repressivos, mas através de práticas respiratórias, principalmente por inibição do processo de respiração inconsciente disciplinando-o com khumbakas (apnéia) em rechaka (expiração) ou puraka (inspiração), sempre seguindo o protocolo de que a respiração e o pensamento são a mesma coisa e a velocidade do pensamento e da respiração também.

É no domínio do corpo, o telúrico corpo que carregamos, que melhoramos nosso desempenho espiritual e mental. Esta é uma perspectiva absolutamente anti aristotélica. A evolução não vem do alto, mas de baixo, como a serpente no pescoço de Shiva, na imagem. Para quem acha que mistcismo é apenas discurso e teoria esta é uma lição preciosa. Uma lição que vem do Oriente. Mais uma.
Por isso se diz que "a luz vem do Leste".

PARA QUE SERVE A ORAÇÃO?



por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:;M.:M.:

"Já que não sei rezar , só queria mostrar

meu olhar, meu olhar, meu olhar."

trecho de um poema de Renato Teixeira


A questão procede.

O salmista já dizia: "Tu sabes o que vai no meu coração antes que meu lábio pronuncie qualquer palavra"(Salmos 139 : 4)


 



Se o Senhor do Universo já conhece nossas intenções antes de nós, para que precisamos explicitá-las?

Ao contrário do que supomos, a Oração não é um conjunto de palavras ou uma informação ao Todo Poderoso de nossas intenções, desejos ou aflições.
Orar é entrar em um estado de conexão.
É colocar-se em contato com a Fonte de toda a Vida.
Pode-se fazer isso em silêncio, como na meditação. Pode-se fazer isso falando, como pela oração. Só que, desde que estejamos na freqüência certa, mesmo as palavras que usemos deixam de ser importantes. Oramos com o coração, não com o cérebro, muito menos com a boca. O que verdadeiramente importa é fundir a nossa vontade com a vontade de Deus, e isto é o que se chama conexão.

Alguns anos atrás, um dos meus conflitos enquanto rosacruz na prática Martinista foi conviver com a idéia de fé. Como rosacruz, fui educado no conceito de confiança, rejeitando a idéia da fé como limitada e restrita à prática religiosa.
Qual não foi meu embaraço quando em pleno templo ouvi um discurso sobre a importância da fé na vida mística. Por lealdade à Rosacruz, que assumiu a responsabilidade pela manutenção da Tradicional Ordem Martinista, calei-me e relevei minhas dúvidas.
Até que fui confrontado com outro discurso que falava exatamente sobre a noção de fé, mas como conexão. Senti-me regenerado.
Esta idéia eu poderia aceitar. A oração como técnica e a fé como representação da qualidade desta conexão com o Altíssimo.

Assim oramos para nos conectarmos e derramarmos no colo de Deus nossas aflições, não como um pedido, mas como um compartilhamento com a Fonte de nossas experiências, enquanto assistimos a ação de Seu Divino Poder transformando problemas em soluções, angústias em revelações, aparentes derrotas em vitórias espirituais.
Precisamos ir a Deus como vamos ao Google, em busca de respostas. E uma vez que iniciemos nossa pesquisa, aguardar paciente que nos cheguem as inúmeras possibilidades de solução para o que antes não parecia ter jeito.
 Nosso maior erro é supormos que estamos sós frente à existência e suas mazelas; não estamos. Resta usufruir de nosso Companheiro, "telefonando" vez ou outra para perguntar-lhe o que fazer.
 A Oração nos permite estas ligações.
 Esta é sua função.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

COISAS LEGAIS NO GLOSSÁRIO TEOSÓFICO


     
Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Quero compartilhar com vocês um achado delicioso que fiz no Glossário Teosófico hoje pela manhã. A minha é a 2ª edição traduzida por Silvia Sarzana, da Editora Ground, sob a supervisão de Murillo Nunes de Azevedo, 1991.
Folheando ao acaso este tomo , parei na página 330, na definição do verbete “Luz”. Lá está escrito: “A conexão entre luz e entonação (svara) dos Vedas é um dos mais profundos segredos do esoterismo. (T.Suba Row)
A Luz é a Mansão de Ormuzd(1), segundo os Parsis; para apagar uma luz, abanam com a mão ou com um leque e, quando se trata de uma vela, cortam a ponta acesa umas três ou quatro linhas abaixo do pavio, levam para casa e deixam que se consuma perto do fogo.(Zend Avesta II, pág.567)”


Espero que por solidariedade, sintam-se tão perplexos como eu. Ler o Glossário Teosófico de Blavatsky é tão duro quanto ler a Doutrina Secreta. A expressão "a Mansão de Ormuzd" eu nem vou comentar. Ninguém pode acusar Blavatsky de ser didática e o sem número de informações que praticamente se derramam em nossos olhos engasga o mais persistente estudante.
Às vezes me lembra as classificações de Borges. Michel Foucault, filósofo francês, diz no prefácio de seu livro mais fascinante, “As Palavras e as Coisas”, que o mesmo nasceu de um texto de Borges, “do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento.”

Jorge Luis Borges

O texto de Borges a que Foucault se refere, fala de “uma certa enciclopédia chinesa, onde está escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões ; e)sereias ; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera; m) que acabam de quebrar a bilha; n)que de longe parecem moscas.”
Ler Blavatsky, muitas vezes, me parece o mesmo.
Primeiro temos o verbete, Luz, simplesmente, e então, em vez da definição de Luz, passa-se a falar da “conexão entre Luz e Entonação (Svara) (?).
O que me chamou a atenção, no entanto, em meio a este Caos intelectual blavatskyano foi a referência ao fato que esses Parsis (que no mesmo glossário descobri serem os seguidores do Zoroastrismo, religião do Antigo Irã) “ao apagar uma luz, abanam com a mão ou com um leque”, ou seja, não sopram.
Grupo de Parsis, em Mumbai, Índia

Este, imediatamente reconheci, é um hábito e um ensinamento rosacruz. Desde os primórdios de minha afiliação nesta encarnação, em 1975, me diziam que “um rosacruz jamais assopra uma vela, mas sempre a apaga com os dedos, ou abanando ou com o abafador.” Como a Ordem Rosacruz não é uma escola de supersticiosos, logo indaguei por que se fazia desse modo, ao que recebi a seguinte resposta: “Porque considera-se desrespeitoso.” Não me satisfez, mas engoli e deixei passar. Afinal não era um grande problema.
Agora entendo a razão. A Luz, do verbete do Glossário, não é apenas a Luz em si, mas o símbolo da Luz espiritual, a Luz Divina.
Zororastro
A Vela e sua luz representam simbolicamente essa Grande Luz. Lendo sobre “Svara”, o termo sânscrito usado para definir “entonação”, na explicação do verbete, ainda no Glossário, na página 665, vejo que pode ser traduzido por “A corrente da Onda da Vida; O Grande Alento; o Alento Humano.” Ou em termos rosacruzes, Nous. E continua a explicação: “Svara, O Grande Alento, em qualquer plano de vida, tem cinco modificações, ou seja, os Tattwas, (Râma Prasad). Svara significa também: tom, entonação; acento, nota musical.” Ou seja, a tradução do verbete de Luz não foi feliz, pois deveria em vez de “entonação” ter falado em “O Grande Alento”, já que assim configuraria a imagem: o Sopro que normalmente usamos para apagar uma chama de vela.
Vi intuitivamente que O Grande Alento, manifestação do Sagrado em nós, O Espírito de Deus em Nós, não pode ser usado para fazer cessar a Luz ou qualquer um dos seus símbolos.
É muito significativa a imagem e agora fica clara. Como detentora da condição de preservadora da Tradição Mística, a Cultura Rosacruz absorveu uma prática dos seguidores do Zoroastrismo, belíssima, que representa o respeito à Luz e ao Grande Alento presente no Sopro, o mesmo sopro que Deus usou para dar vida ao Homem, no Gênesis.

Lindo.
Só que como explicado no Glossário Teosófico, Borginiano [como na classificação: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d)leitões; e)sereias].
Seria divertido se não fosse tão intelectualmente angustiante. Foram três verbetes para entender um. 
Mesmo assim, que bonito.


(1) Ormuzd é o mestre e criador do mundo. Ele é soberano, onisciente, deus da ordem. O Sol é seu olho, o céu suas vestes bordadas de estrelas. Atar o relâmpago, é seu cílio. Apô, as águas, são suas esposas. Ahura Mazda é o criador de outras sete divindades supremas, os Amesha Spenta, que reinam, cada um, sobre uma parte da criação e que parecem ser desdobramentos de Ahura Mazda. Sob Ahura Mazda e os seis Amesha Spenta a mitologia persa coloca, como divindades benéficas: "Mitra", o mestre do espaço livre; Tistrya, o deus das trovoadas; Verethraghna, o deus da vitória; ela admitia, além disso, um grande número de deuses do mesmo elemento, os Izeds: fonte.http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_persa

MENTE, CÉREBRO, ALMA


VONTADE E NEUROFISIOLOGIA

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:




Psicologia e Misticismo, um ensaio feito para uma palestra aqui na região SP2 da AMORC, em 2007, publicado no blog em agosto de 2010 foi, por quase um ano, o campeão dos textos mais lidos. Só nesta semana foi ultrapassado por outro ensaio, mas até semana passada demonstrava, com seu sucesso, o interesse que os místicos rosacruzes têm pelos assuntos objetivos, como comentei em carta com o Grande Mestre, frater Helio de Morais. E isto tem uma razão, resumida em uma frase socrática: “Só sei que nada sei.” Não é importante apenas saber, mas estar sempre aberto a novas informações e manter o espírito plástico e maleável às atualizações que acontecerão de forma inevitável, dado o avanço do conhecimento.Uma dessas importantes atualizações, no campo da Psiquiatria, aconteceu nos últimos 60 anos, qual seja o advento de medicamentos antidepressivos e drogas antipsicóticas, como a clorpromazina. Todas surgidas após 1950. Neste ano foi inaugurada a psicofarmacoterapia.
A primeira droga desse leque de possibilidades foi a Clorpromazina. Sintetizada pelo químico Paul Charpentier em 11 de dezembro de 1950, como uma evolução dos estudos dos efeitos psiquiátricos de uma outra droga, a Prometazina, um anti histamínico, ou seja, um antialérgico, usado para evitar as freqüentes complicações nas anestesias do início do século. Os primeiros testes farmacológicos foram feitos por Simone Courvoisier. “Coube ao cirurgião francês Henri Laborit em 1952 as primeiras aplicações clínicas da substância. A primeira referência do uso de clorpromazina na literatura médica surgiu num trabalho de Laborit e Huguenard em 13 de fevereiro de 1952: "Um novo estabilizador neurovegetativo, o 4560 R.P." Não era uma indicação para tratamento das psicoses. Esse uso se deve a Deniker que, após conseguir amostras do 4.560 R.P. decidiu experimentá-lo em pacientes psicóticos. A substância foi chamada na França de Largactil. Nos EUA mudou de nome e passou a se chamar Thorazine. No Brasil recebeu o nome de Amplictil.”



Clorpromazina

Assim se iniciou o período de tratamento farmacológico da doença psiquiátrica que até aquele momento jamais tinha sido objeto de qualquer abordagem por drogas. Tudo começou a mudar na compreensão da base neuroquímica do comportamento e também começou a aumentar o entendimento de que alguns cérebros já saíam do estaleiro, digamos assim, com defeitos de fábrica, e que bastariam alguns comprimidos para ajudar, não a curar, pois ainda estamos longe disso, mas estabilizar o humor daqueles que junto com leprosos e pobres sempre foram a escória dos doentes para toda a sociedade: os doentes mentais.

Quanto a depressão, a doença da perda da vontade, sua história também é curiosa. Na página 342 do Tratado de Farmacologia de Goodman e Gilman, 10ª edição, Ed. Mac Graw Hill, lemos o seguinte: “Em 1951, a isoniazida e seu derivado,... a iproniazida, foram desenvolvidos para o tratamento da tuberculose. A iproniazida demonstrou ter efeitos de elevação do humor em pacientes com tuberculose. Em 1952, Zeller e colaboradores constataram que a iproniazida , em contraste com a Isoniazida, era capaz de inibir a enzima Mono Amino Oxidase (MAO). Após investigações realizadas por Kline e por Crane, em meados da década de 1950, a iproniazida passou a ser usada para o tratamento de pacientes deprimidos. Historicamente trata-se do primeiro antidepressivo moderno clinicamente bem sucedido.” Foi assim que a própria vontade, decantada em prosa em verso, mostrou-se também uma conseqüência da saúde neuroquímica. Até hoje, a compreensão da doença mental é difícil e trabalhosa e a aceitação da mesma pela classe médica não ligada a área psiquiátrica mais ainda. Só que a mudança na quantidade de informações sobre patologias mentais aumentou tanto em qualidade e quantidade que é inevitável que nos próximos anos os distúrbios psiquiátricos ocupem um espaço semelhante ao que a diabetes ocupa hoje na clínica diária, sem a sombra do preconceito que hoje paira sobre a demência ou qualquer outro distúrbio de comportamento. Mas porque falar dessas coisas em um blog místico? Por que esta mudança de compreensão afetou de modo significativo a nossa visão da mente como uma manifestação espiritual e modificou a perspectiva das relações que até então estabelecíamos entre humor e comportamento, educação e humor, vontade e educação. Até a evidenciação de que a vontade e a capacidade de reagir ou não aos desafios do cotidiano, as angústias, os sofrimentos, principalmente aqueles de natureza mental, não dependiam unicamente de uma formação educacional ou religiosa X ou Y, mas também de uma saúde mental e neurológica capaz de acompanhar esta educação, a sociedade estava dividida entre pessoas classificadas, quanto ao caráter, em fortes e fracas, e as fracas deveriam ser severamente criticadas enquanto as fortes elogiadas por seu desempenho e capacidade, tomadas como exemplo de como um ser humano deveria ser.


Hoje, com o conhecimento que possuímos sobre as muitas possibilidades de defeitos intrínsecos de produção de substâncias e neurotransmissores no sistema nervoso, sabemos que a diferença entre um indivíduo e outro quanto ao seu caráter pode estar apenas relacionada não a sua educação, mas a quantidade de serotonina que ele é capaz de produzir. E esta capacidade está diretamente ligada a uma herança genética, a um tipo de quadro biológico dado na formação do feto, ainda no útero de sua mãe. Sem termos claro se o paciente é ou não deficiente ou bem dotado de substâncias neuroquímicas absolutamente fundamentais para se ter uma saúde mental adequada, a comparação entre um indivíduo e outro pode ser a mesma que se faz entre uma pessoa em cadeiras de rodas e outra que tenha pernas normais.
Para usar uma imagem esclarecedora, ninguém veria o menor sentido uma disputa atlética, uma corrida, por exemplo, entre estes dois indivíduos. Suas peculiaridades, seus contextos biológicos são diferentes e as disputas entre ambos devem ser, também, contextualizadas: disputas entre corredores de cadeira de rodas de um lado e corredores com pernas normais do outro.
Hoje, com diagnósticos mais rápidos e mais corriqueiros, e com a abordagem psicofarmacológica, ainda imperfeita, mas muito mais rica de opções, os transtornos psiquiátricos vão aos poucos sendo aliviados e compensados, de tal maneira e com tal eficácia, que eu diria confiar mais em um paciente psiquiátrico medicado, diante de um estresse no trânsito, do que em uma pessoa sem qualquer diagnóstico e que se acha normal psicologicamente, por isso sem medicação, mas que anda armada e é capaz de causar uma tragédia levada pelo calor do momento. Quantas outras barbaridades mais seriam causadas não por razões ditas morais, mas por uma realidade neuroquímica predisponente? Difícil dizer. Não temos os elementos necessários ainda. Tudo indica, no entanto, que sem ir ao extremo de dizer que a maldade é apenas produto da doença não tratada, muitas das pessoas que hoje classificaríamos como dotadas de uma personalidade maligna, no futuro poderão ter seu comportamento antisocial e desumano revertido pela medicação correta. Obviamente serei acusado de ser materialista em excesso e esquecer da existência da alma.

Isto, claro, é falso. E mesmo aqueles que me criticarem concordarão comigo se acompanharem meu raciocínio místico e médico. Imaginemos que o corpo é, como em um ensaio anterior eu já descrevi (“O Mergulho”, de 3 de março de 2010) um instrumento como o escafandro, para visitar este mundo da manifestação, ou Assiah.


Agora imaginem que uma peça no próprio escafandro, uma válvula ou outra parte da vestimenta, apresente um defeito que permita uma descompressão significativa no traje, afetando o raciocínio do mergulhador e provocando um comportamento alterado.
Dizem que a hipoxia, a falta de oxigênio, gera quadros de desorientação e demência.
Agora pensemos na Alma, perfeita, emanada, não criada, e por isso da mesma natureza de Deus, presa em um veículo problemático, com o qual sua visão do mundo, seu discernimento dos acontecimentos ficam prejudicados. Seria esta alma perfeita capaz de não ser afetada por estes problemas no seu veículo? Ou tais defeitos e problemas operacionais refletir-se-iam no comportamento deste espírito no mundo? Muitas vezes à sua revelia? Para um peixe, irracional, o ser a sua frente, dentro do escafandro é um com o escafandro, é um único ser.
Para o homem não espiritualizado, a alma dentro de um corpo defeituoso, com um cérebro defeituoso, é um único indivíduo, e não um ser perfeito aprisionado num veículo imperfeito.
Se ao longo dos anos, desenvolvermos uma tecnologia médica mais avançada que possa intervir nesses graves problemas que afetam a mente de muitos ou o cérebro que veicula esta mente, partindo do princípio que não seja a mesma coisa, seremos capazes de facilitar a manifestação da perfeição dessas pessoas verdadeiras, as almas nestes corpos, de modo completo e gratificante.
A Medicina é uma profissão de misericórdia. Seu único objetivo é diminuir o sofrimento daqueles que buscam seus recursos. Hoje, eminentemente, do ponto de vista orgânico. No futuro, no entanto, saberemos como diminuir o sofrimento, quiçá extingui-lo, no âmbito espiritual, por que esta divisão arbitrária e falsa entre corpo e mente já não existirá.
O “Escafandro” que usamos no “Mergulho” neste plano, o nosso Corpo, é altamente complexo e refinado, um verdadeiro biotraje, capaz de fundir-se com nosso sistema espiritual e receber instruções diretamente da mente que o ocupa, como se realmente fosse a segunda pele do espírito.
Mesmo assim não está imune a defeitos, que serão corrigidos cada vez de modo mais eficiente, de maneira que sua expressão possa ser a mais perfeita.
Recentemente, uma informação me deixou inquieto.
Uma pesquisa, aliás mais uma, estabelecia correlação entre anormalidades na estrutura neurológica, e provavelmente com repercussões neuroquímicas, e a sociopatia, um transtorno que poderia ser descrito como seres humanos que são capazes de manifestar aquilo que chamamos de Mal na sua forma mais pura e terrível, e pasmem, sem qualquer senso de culpa ou responsabilidade. No site http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=22449.0 lemos o senguinte:
“Muitos estudos têm mostrado nos últimos 20 anos que assassinos e criminosos ultraviolentos têm evidências precoces de doença cerebral. Por exemplo, em um estudo, 20 de 31 assassinos confessos e sentenciados possuíam diagnósticos neurológicos específicos. Alguns dos presos tinham mais que um distúrbio, e nenhum sujeito era normal em todas as esferas. Entre os diagnósticos, estavam a esquizofrenia, depressão, epilepsia, alcoolismo, demência alcoólica, retardamento mental, paralisia cerebral, injúria cerebral, distúrbios dissociativos e outros. Mais de 64% dos criminosos pareciam ter anormalidades no lobo frontal. Quase 84% dos sujeitos tinham sido vítimas de severo abuso físico e/ou sexual. O grupo de assassinos incluiu membros de gangues, seqüestradores, ladrões, assassinos seriais, um sentenciado que tinha matado seu filho pequeno, e outro que assassinara seus três irmãos. Em outro estudo realizado no Canadá em 1994, no grupo mais violento de 372 homens presos em um hospital mental de segurança máxima, 20 % tinham anormalidades focais temporais do EEG, e 41% tinham alterações patológicas da estrutura do cérebro no lobo temporal. As taxas correspondentes para o resto do grupo violento foram de 2.4 % e 6.7 %, respectivamente, sugerindo assim um papel importante para os danos neurológicos na gênese das personalidades violentas, em uma proporção de 21:1 para agressivos habituais, e de até 4:1 (quatro vezes mais que na população normal), no caso de agressivos incidentais (uma única vez). O estudo conclui: "nós propomos que, embora tais discrepâncias não sejam suficientes para confirmar a neuropatologia como uma causa univariada da agressão criminosa, também não é razoável supor que sejam meram artefatos do acaso."
De acordo com os autores Nathaniel J. Pollone e James J. Hennessy, "vários estudos em um período de mais de 40 anos sugeriram uma incidência relativamente alta de neuropatologia entre os criminosos violentos, muitas vezes acima daquele encontrado na população em geral, em taxas que excedem de 31:1 no caso de homicidas acidentais." (35 Annual Meeting of the Academy of Criminal Justice Sciences, Albuquerque, NM, 14 março, 1998).

Amígdalas cerebrais
Um estudo recente mostrou com o auxílio de ressonâncias magnéticas que a região préfrontal de criminosos é 16% menor nesses indivíduo do que no indivíduo comum. Hipocampo e amígdalas estão envolvidos nas nossas escolhas morais e são determinantes na orientação de nosso caráter e consciência.
O mesmo grupo que fez esta pesquisa na Universidade da Pensilvânia alertou também que fatores ambientais como falta de estímulo adequado e deficiências nutricionais podem colaborar para constituir mentes doentias.
Sim, não devemos supervalorizar estes dados, mas da mesma maneira não podemos desprezar estas informações. Existem alterações orgânicas, cerebrais, que interferem na capacidade de altruísmo ou egoísmo, ou na formação de uma personalidade construtiva ou uma personalidade destrutiva no ambiente social.
E isto, eu pergunto, tem a ver com Maldade ou Bondade do espírito dentro destes corpos ou são meros defeitos de fabricação que atrapalham a livre manifestação do aspecto divino que todos nós possuímos?
Seria pretensão declarar uma ou outra coisa, com o atual conhecimento que temos da neurofisiologia. O que se sabe é que o Hipocampo e as Amígdalas cerebrais de criminosos são bem menores do que os indivíduos socialmente normais.
Ou seja, às vezes, já chegamos na encarnação com “escafandros mentais defeituosos”.
Qual o papel desta situação no Karma, deixo ao critério de cada um concluir.