Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 14 de março de 2010

FRAUDE

por Mario Sales, 14 de março, 2010




Todos nós, em menor ou maior grau, sentimo-nos uma fraude.
A máscara social e os mecanismos naturais de defesa do ego nos obrigam a todo o momento a emitir uma imagem em desacordo com aquilo que sabemos ser a nossa realidade.
Nenhum de nós é absolutamente puro ou digno, nenhum de nós é absolutamente moral ou ético; no entanto nos comportamos e procuramos parecer devidamente indignados e radicais na exigência deste comportamento de outros como se nós também fôssemos absolutamente íntegros e nobres.
Esta trapaça constante com os fatos visa talvez a preservar nossa auto estima. Se admitíssemos nosso, chamemos assim, lado negro, talvez não nos sentíssemos muito bem para dar conta de tocar o dia, digamos assim. Talvez entrássemos em um estado de complacência com o erro alheio que faria retroceder em séculos a busca por uma sociedade melhor.
Por outro lado, conhecer e reconhecer nosso outro lado, a Sombra Junguiana, aquele lado de nós não muito digno, não muito nobre, nos tornará apenas seres humanos normais, mais humildes, menos arrogantes, mais tolerantes e não necessariamente complacentes, porque admitir que somos capazes da mesmas indignidades que reprovamos em outros apenas não implica em reproduzi-las.
Ser capaz de e fazer são coisas absolutamente diferentes.
Dependemos da autorização de uma instância mais alta em nossa personalidade, nossa consciência, que nos autorizará ou não a materializar esta ou aquela ação menos nobre, menos digna.
Existe o consenso que o rigor excessivo leva a auto destruição, que um certo grau de permissividade mantém a sanidade.
O equilíbrio não está em tudo reprimir, em busca de uma perfeição suposta, em desacordo com o nível de exigência de nossos padrões morais.
E este é o fator humano. A humanidade em nós não nos garante nobreza, mas a possibilidade da nobreza. A dignidade perfeita sempre será uma meta, possível de ser alcançada, como o horizonte, mas sempre distante em relação a nossa posição atual.
Por isso, a noção de que somos uma fraude não seria correta. Deveríamos entender que enquanto seres humanos todos nós somos um processo de avanços e recuos, de ajustes e desajustes, dinâmico e ininterrupto, difícil senão impossível de ser objetivado, congelado para rotulação, já que é processo, fluxo permanente, oscilação constante.
O erro não está em saber-se não perfeito, mas em supor-se a perfeição e a completude como metas estáticas, espacialmente localizadas e alcançáveis em determinado período de tempo.
Perfeição é equilíbrio entre o que somos e o que desejaríamos ser, reconhecendo nosso contexto e nossas limitações sem nunca, mas nunca mesmo deixarmo-nos limitar ou bloquear por este reconhecimento.
Quem exige menos de si, exige por conseguinte menos dos outros. Espera menos dos outros e sabe que o outro não o ameaça com uma perfeição insuportável que ele nunca conseguiria obter.
O outro é uma extensão de nós mesmos, preso a conflitos equivalentes aos nossos se bem que com outras formas de apresentação, mas tão inquietantes quanto os nossos são para nós mesmos.
Compreender a nós mesmos, aceitando-nos, é compreender aos outros e aceitá-los, como são, e não como querem parecer ser.
Nisto consiste o humanismo verdadeiro. O resto não tem importância.