Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O NAVIO, O OCEANO E O FAROL

por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Símbolos são expressões de uma língua muito particular, o verdadeiro idioma universal, aliás, planetário, para ser menos pretensioso, além de atemporal e transcultural.
São manifestações complexas e sintéticas de uma narração em que uma imagem determina inúmeras compreensões. Sempre digo a minha filha menor que o bom escritor é aquele que é um bom descritor e que uma idéia é tão poderosa quanto a sua riqueza de cores, contrastes e paisagens.
Por isso a qualidade desses símbolos depende tanto da habilidade em representar uma determinada compreensão do mundo em um pequeno conjunto de traços, geralmente de caráter geométrico, ou seja, matemático. E a habilidade em decifrá-los depende em muito da capacidade de abstração geométrica do interpretador.
Essa geometria é composta de peças imóveis (quadrados, triângulos, círculos) associada ou não a alguns elementos biológicos (águias, leões, serpentes).
Citando a WIKIPEDIA: “A Semiótica (do grego semeiotiké ou "a arte dos sinais") ou Semiologia, nas ciências da linguagem, conforme sua origem (americana ou européia) é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ambos os termos são derivado de "Semeion", que significa "signo", havendo desde a antiguidade uma disciplina médica chamada de "semiologia".

Ferdinand de Saussure

Mais abrangente que a lingüística, a qual se restringe ao estudo dos signos lingüísticos, ou seja, do sistema sígnico da linguagem verbal, esta ciência tem por objeto qualquer sistema sígnico - Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, Religião, Ciência, etc.

Charles Sanders Peirce

Surgiu, de forma independente, na Europa e nos EUA. Mais frequentemente, costuma-se chamar "Semiótica" à ciência geral dos signos nascidas do americano Charles Sanders Peirce e "Semiologia" à vertente européia do mesmo estudo, as quais tinham metodologia e enfoques diferenciados entre si[1].
Na vertente européia o signo assumia, a princípio, um caráter duplo, composto de dois planos complementares - a saber, a "forma" (ou "significante") e o "conteúdo" (ou "significado") - logo a semiologia seria uma ciência dupla que busca relacionar uma certa sintaxe (relativa à "forma") a uma semântica (relativa ao "conteúdo").
Ferdinand de Saussure (1857-1913) é considerado pai da semiologia, a vertente européia do estudo dos signos, por ser o primeiro autor a criar essa designação e a designar o seu objeto de estudo. Segundo este, a existência de signos - «a singular entidade psíquica de duas faces que cria uma relação entre um conceito (o significado) e uma imagem acústica (o significante) - conduz à necessidade de conceber uma ciência que estude a vida dos sinais no seio da vida social, envolvendo parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral. Chamar-lhe-emos semiologia. Estudaria aquilo em que consistem os signos, que leis os regem.»
A concepção de Saussurre relativamente ao signo distingue o mundo da representação do mundo real. Para ele, os signos (pertencentes ao mundo da representação) são compostos por significante - a parte física do signo - e pelo significado, a parte mental, o conceito.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Semi%C3%B3tica#Ferdinand_de_Saussure
Quanto a este último comentário da citação, existe um exemplo famoso que descreve o conceito através de um símbolo: o cachimbo de Renée Magritte, abaixo do qual ele escreve, em francês (Magritte era Belga) que aquilo “não era um cachimbo”, insinuando o fato de que tratava-se apenas de uma pintura de cachimbo e não o cachimbo real.

Místicos também buscam a compreensão de mensagens ocultas em imagens como as descritas acima, geométricos ou com formas de animais, simples ou compostos, aonde idéias e discursos inteiros estão acondicionados.
Exatamente como embrulhos, símbolos místicos precisam ser desembrulhados. Para usar a imagem e o conceito de Ferdinand de Saussure, desembrulhamos o significado do papel do significante.
Estabeleçamos, a título de didatismo, que existam dois grandes tipos de símbolos místicos: os símbolos simples e os símbolos compostos.
Símbolos simples seriam aquêles compostos apenas de um único simbolo geométrico, seja ele plano ou sólido (por exemplo, um quadrado, um triângulo, um cubo ou uma esfera). Composto seria o símbolo que fosse formado por mais de um elemento geométrico ( por exemplo, um círculo com um quadrado dentro e dentro deste quadrado uma imagem qualquer, como um triângulo ou mesmo uma cruz).
Interpretar um símbolo simples, como o nome diz, não é menos complexo, como possa parecer, do que interpretar um símbolo composto.

É a mesma coisa que escrever sobre um determinado tema excessivamente genérico.
É mais fácil escrever sobre a “Natureza do comportamento das nuvens na produção de chuvas em altas temperaturas no Gabão” do que escrever um ensaio sobre, digamos, “A Verdade”.
Ou seja, símbolos compostos podem ser de-compostos, progressiva e metodicamente, e podemos nos divertir encontrando os muitos significados ocultos dentro de suas muitas partes.
Símbolos simples, ao contrário, podem siginificar um sem número de coisas, como no caso de um simples ponto, o qual pode representar O Uno, O Todo, Aquele ou aquilo que não tem Dimensão, O Centro de Tudo, etc.
O Ponto

Neste caso, dos símbolos simples, é necessário que ele seja acompanhado de um direcionamento, um sub símbolo explicativo, ou um sub conjunto de símbolos, ou seja, um texto, que o complemente.
São raros os símbolos simples capazes de sózinhos expressarem seu sentido desejado ou imaginado pelo seu autor sem a necessidade de uma intervenção elucidativa, no caso um texto auxiliar.
Podemos citar como representantes deste tipo entre os símbolos geométricos a cruz com braços iguais, que sempre significará a interseção do que está no alto com o que está em baixo e, entre os biológicos, o leão como símbolo de força e realeza.


Se por exemplo a cruz não tiver braços de mesmo comprimento, embora o símbolo cruz não seja monopólio do Cristianismo, assemelhar-se-á a cruz cristã e passará a ter significados religiosos os mais variados.
De qualquer maneira, muito importantes para o trabalho místicos como agregadores de conceitos, os símbolos esotéricos trazem em seu bojo uma enorme gama de significados éticos, espirituais e emocionais.
Gostaria de destacar a tradição simbólica maçônica para concluir esta revisão.

Ali encontramos uma profusão de símbolos baseados nos instrumentos de trabalhos dos pedreiros, os quais foram recrutados como símbolos místicos com rara sagacidade. Na lista encontramos as três Jóias Móveis da Loja Maçônica, o Esquadro,a jóia do Venerável, o Nível, a jóia do 1° Vigilante, e o Prumo, a jóia do 2° Vigilante.

O simbolismo destes elementos, como por exemplo a Justiça, Equidade e retidão para o Esquadro; a Igualdade, representada pelo Nível, segundo Ragon, citado por Jules Boucher ; e o “ emblema da busca em profundidade da verdade, representada pelo fio de prumo ou Perpendicular, por causa de sua verticalidade, símbolo do 2° Vigilante, expressam em seu conjunto valores, idéias, mas principalmente metas e horizontes.
Porque metas? Porque os símbolos, principalmente os maçônicos, são notórios pela falta de dinamismo interno, pela seu perfil estático, inerte: pedras,polidas ou não, cinzéis, colunas, etc.

Quando falamos em retidão, também sofremos com esta representação estática, como se fosse possível a seres biológicos comportarem-se como entidades geométricas.
E isto, o bom senso nos diz, é impraticável. Pois todos os homens têm em sua vida, uma evolução não retilínea, mas sinuosa, com altos e baixos, viva, em síntese. Só os seres mortos são retilíneos, equilibrados. Vida é desiquilíbrio, instabilidade e não estabilidade.
Nenhuma existência neste mundo de contradições e contrastes pode ser reta como uma régua e nenhum ser humano terá sempre gestos retos como o ângulo de um esquadro, pois somos mais que pedras , somos almas mergulhados em corpos, sujeitos a um sem número de forças que nos deformam e formam, dia após dia.

Comparando, se cada símbolo deve servir de guia para nossas vidas e para nosso comportamento, como os símbolos maçônicos guiam os passos de um maçon, é importante deixar claro aos aprendizes que estão chegando a Ordem que esses mesmos símbolos são estáticos como Faróis, impertigados na praia ou na rocha sólida, lançando sua luz sobre o Oceano da Vida , mas nós, os navios que procuramos sua luz e que precisamos de sua orientação, balançamos violentamente neste Oceano, sem nunca repousar, sem nunca encontrar uma posição definitiva.
Isto é a Vida Real: movimento, instabilidade, ebulição.



Por isto símbolos estáticos devem ser sempre entendidos como intenções, mas não como realidades factíveis, da mesma maneira que o quadro do cachimbo de Magrite não é um cachimbo de verdade.