Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 18 de setembro de 2011

A FALSA LUZ


por Mario Sales FRC.:, S.:I.:,M.:M.:




Acho que talvez não exista ordem mais erudita que a Rosacruz. Por natureza é formada por homens e mulheres bastante diferenciados, que exibem, cada um ao seu modo, habilidades intelectuais excepcionais ou uma curiosidade insaciável acerca das coisas do esoterismo, ou ambas as coisas, em número suficiente para fazer uma massa crítica considerável.
Nem sempre são originários da Academia. Muitos são pessoas sem uma formação ortodoxa, o que em nada diminui sua perspicácia e acurácia na interpretação de textos e conceitos que a Ordem generosamente derrama sobre eles em seu trabalho ininterrupto de preservar a herança atlantiana.
Às vezes, entretanto a questão da erudição me preocupa.
Todos que me conhecem sabem que eu seria a última pessoa a carregar meus canhões contra a erudição ou contra a atividade intelectual. Só que exegese de textos, a hermenêutica sacra ou laica da herança esotérica, a meu ver, nunca deve ser mais importante que a mensagem que estes textos e estes símbolos trazem para nós, desde tempos remotos e distantes.
A luz que corre pela corrente e ilumina várias lâmpadas em série, é a mesma. Ao passar pelo filamento da lâmpada emite luz branca e calor iguais, em lâmpadas de mesma voltagem; mas se são lâmpadas de cores diferentes o que veremos não é a luz interna de cada lâmpada, mas aquela que atravessa o bulbo colorido, modificada para verde, amarelo ou vermelho.
A essência do conhecimento esotérico, da mesma maneira, é a mesma. Ele se assenta nas mesmas bases que alimentaram os Caldeus e Babilônios, Hebreus e Persas, Hindus e Chineses. Manifestou-se de diferentes formas em diferentes culturas, mas que são a expressão local de um conhecimento e de uma cultura que um dia foi planetária, e que se esfacelou em meio a um cataclismo natural ou não, o que não cabe aqui discutir.
Os esoteristas, como eu e outros, que militam como Artesãos desta nobre Ordem, se compreenderam bem sua missão, buscam extrair o sentido íntimo de cada uma das tradições que estuda, seguindo a máxima árabe que diz: “Enquanto vires apenas as diferenças, teu conhecimento não valerá uma rúpia. Só começarás realmente a aprender quando perceberes as semelhanças.”
Esoteristas são, por natureza, altruístas. Não se encharcam como esponjas de informações com a intenção de manterem este líquido represado dentro de si, mas sim com a única finalidade de transportá-lo e despejá-lo no "Jarro Comum de onde Todos Bebem e Beberão", numa colaboração ininterrupta para garantir que a sede espiritual e intelectual de todos os nossos fratres e sorores seja sempre saciada.
Não há outro objetivo possível.
Só a vaidade poderia supor que, alguns de nós, sabem mais ou melhor do que outros, as coisas que sabemos. Somos todos partes de um mesmo corpo, em busca da mesma essência, do mesmo cálice sagrado.
Não somos nada senão instrumentos do Altíssimo e o que descobrirmos ou percebermos, será, sem hesitação, imediatamente partilhado, como é nossa obrigação fazer, como servos desta Santa Sociedade.
Em Mateus 5:15 está dito: “Não se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.”
Tudo, portanto, que estudarmos e lermos visa duas coisas:
1° atingir o sentido íntimo do símbolo ou do texto estudado e ver nele os sinais da Tradição Primordial, reconhecendo se possível a mesma Luz que está presente em todos os Textos verdadeiramente sagrados e em todos os símbolos verdadeiramente importantes;
2° acumular para desfrute de todos os irmãos de Ordem, as informações necessárias para que o caminhar iniciático destes buscadores seja facilitado, dando-lhes, dentro de nossas possibilidades, todas as ferramentas que pudermos para que desvendem o Mistério da Vida e retirem o Véu de Ísis.
É preciso entender, assim, o intelecto.
Um instrumento, belo e elegante, como um piano de som afinado e doce, mas morto, se um pianista, com técnica, mas também com sensibilidade artística, não o tocar.
Por isso se diz que o intelecto é a Falsa Luz.
Ele faz com que acumulemos informações sobre lâmpadas de todas as cores,verdes, azuis ou vermelhas, na suposição de que são produtos diferentes, de energias diversas, apenas porque a cor das lâmpadas é diferente.
Não são em essência diferentes, entretanto.
Isto todo esoterista sincero e principalmente todo Rosacruz sincero sabe.
Nunca, entretanto, é demais lembrar.
Principalmente àqueles que vivem pelos três mais elevados princípios: Trabalho, Lealdade, Humildade.
É isso.