Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 9 de junho de 2013

TERAPEUTICA ESOTÉRICA, PAPUS E AS DOENÇAS FÍSICAS E PSIQUIÁTRICAS

Por Mario Sales, FRC, SI


"E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia;

E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe;

E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.
E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos.
E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz;
E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano.
E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove?
Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?
E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou"

Lucas 17:11-19


E chegaram ao outro lado do mar, à província dos gadarenos.

E, saindo ele do barco, lhe saiu logo ao seu encontro, dos sepulcros, um homem com espírito imundo;

O qual tinha a sua morada nos sepulcros, e nem ainda com cadeias o podia alguém prender;

Porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas, e ninguém o podia amansar.
E andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras.
E, quando viu Jesus ao longe, correu e adorou-o.
E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes.
(Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo.)
E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.
E rogava-lhe muito que os não enviasse para fora daquela província.
E andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos.
E todos aqueles demônios lhe rogaram, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles.
E Jesus logo lho permitiu. E, saindo aqueles espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada se precipitou por um despenhadeiro no mar (eram quase dois mil), e afogaram-se no mar. 

Marcos 5:1-13



Por diversas vêzes, aqui no blog, pelejei contra a cristianização excessiva da Ordem Rosacruz. Por cristianização, quero dizer a imposição de um símbolo religioso, um modelo de compreensão do divino, em detrimento de outras tradições religiosas. Embora Spencer Lewis fosse metodista, portanto um cristão por definição, jamais confundiu as duas coisas.
A Ordem não é uma religião, não é uma seita, é, como o nome diz, uma Ordem Esotérica Mundial, de homens e mulheres que sentem e manifestam o divino em seu interior, e que tem a necessidade e o direito de expressá-lo de muitas e variadas formas de acordo com a sua própria visão deste divino, desta divindade.
O que seria dos rosacruzes japoneses xintoístas ou dos rosacruzes budistas se os obrigássemos a entrar num Sanctum Celestial aonde no leste deste templo tivéssemos, não a imagem neutra de um triângulo violeta de vértice para baixo, mas sim a imagem do Cristo, Jesus? E os possíveis rosacruzes que cultuam a religião islâmica, em países de tradição árabe? E aqueles que são, por nascimento e prática, adeptos do Judaísmo, origem e fonte da Cabala?
Por esses motivos, em 26 de dezembro de 2010 publiquei um artigo aqui no blog intitulado "Desconforto", onde analisava a situação no mínimo inadequada de, em uma Ordem que sabidamente cultua a pluralidade e o respeito à diferença, colocar como capa de um dos números de sua revista, ingenuamente, um quadro de Nicomedez Gomez, renomado artista místico, onde ele usava a imagem do Cristo como substituto do Leste Egípcio habitual de um templo rosacruz.
Digo ingenuamente porque tal atitude pressupôs que no Brasil ou no ambiente da Grande Loja Portuguesa não existam membros que sejam adeptos de outras denominações. O mundo, repito, é plural.
Em toda parte, a diferença é a mais constante semelhança.
Eu sou hinduísta e recebi, à época, o apoio de um frater budista, que se identificou com meu pleito.
Lembro no entanto, que comecei o artigo dizendo :
"Quando digo que não sou cristão, isto não quer dizer que não respeite e admire a personalidade e os feitos do Cristo, Jesus. Este ano, tornei-me ex-mestre da Heptada Guarulhos da Ordem Martinista, uma ordem sabidamente de orientação cristã. Considero-me, pois, um dos defensores da causa do Cristo, como Mestre Espiritual que foi para todos nós, seres humanos, e como exemplo para toda a Humanidade."
Ou seja, feitas as devidas ponderações, em nada isto queria significar uma postura anti cristã, o que seria um absurdo para um místico.



Jesus cura o possuído pela "Legião"

Pelo contrário. Embora não adepto de uma linha de pensamento religiosa eminentemente cristã, sempre me fascinou a postura terapêutica que o Mestre enfatizou em seu ministério.
Como médico, isto sempre me atraiu, sobremaneira. E embora saiba que tal poder de cura, considerando como reais todos os relatos dos evangelhos, significaria a perda da possibilidade de uma vida social normal, como bem lembrou Richard Bach em sua belíssima parábola, "Ilusões", nunca pude evitar a inveja de possuir um dom terapêutico tão exímio, tão eficaz.
Não por mim, mas em função dos inúmeros casos frustrantes com os quais me deparo, trabalhando, no momento, principalmente, as demências orgânicas em idosos, entre elas, Alzheimer. Os relatos sobre o Cristo são surpreendentes: cura de doenças incuráveis à época, ressuscitações, restabelecimento da visão à cegos, restauração da sanidade à dementes, se bem que através de um processo em tudo e por tudo semelhante ao exorcismo.




A cura dos dez leprosos


Mas entre todas essas coisas, o mais fascinante é a capacidade do Mestre , senhor de uma técnica indiscutível de cura, ser ao mesmo tempo, possuidor de enorme misericórdia. A todos os que o procuravam, necessitados de uma atenção terapêutica, ele não só acolhia, mas consolava ao mesmo tempo em que os curava. Havia, pari passo, técnica e compaixão.
Não era apenas um restaurador da saúde do corpo, mas um restaurador do bem estar completo, com a devolução aqueles que haviam sido excluídos pelo medo e pela falta de atenção de muitos, de uma nova possibilidade de integração a comunidade humana, da renovação da auto estima dos que estavam apartados da vida em sociedade.
Eu sou médico, e sei que as doenças são objeto de temor. Por ignorância, aliás, as pessoas tem, às vêzes, mais medo dos remédios do que da doença em si. Gostariam de curar-se apenas através de seu desejo, como já falei, não por Magia , mas lançando mão do Pensamento Mágico, a fantasia de que podem ir contra os fatos sem recorrer a nenhum esforço intelectual, farmacológico ou mesmo cirúrgico. Bom seria se assim fosse, mas não é.
Pelo menos se considerarmos aspectos da vida comum.
Para o Cristo e para seus discípulos diretos, os Apóstolos, aos quais deu este mesmo poder de cura, isto era possível. Talvez para alguns outros, ocultos pela poeira do tempo e da prudência, também. Alguns relatos esotéricos confirmam que muitos aprenderam como curar desta forma, ao estudar e dominar as técnicas ocultas de terapia.
Papus, relata-se, era um desses. O médico francês Gerard Encausse, seu nome de batismo, em seu consultório costumava usar técnicas esotéricas de cura, em uma época sem antibióticos, sem anestesia, sem antissepsia adequada. Ele mesmo, no entanto, faleceu em decorrência de uma tuberculose, hoje uma doença perfeitamente tratável e, se seguidas as orientações adequadas, curável.
Este paradoxo entre as técnicas de cura esotéricas que o Cristo tão bem encarnou e demonstrou e a dificuldade de manifestá-las em nossa época de maneira ampla, geral e irrestrita, pelo que dizem os textos, tem a ver com a qualidade espiritual dos seres humanos e não só com a seu conhecimento esotérico.
Papus era, de nascença, portador de dons místicos de vidência. Sua mãe, de origem cigana, deve ter lhe transmitido esta herança místico-esotérica. Como seus avós maternos, ele era fascinado por cartas de Tarot e métodos de adivinhação e pelo Ocultismo em geral. Mas isto provavelmente não seria suficiente para dar-lhe capacidade de cura. É minha opinião que a capacidade de trazer bem estar aos necessitados passa por um poderoso senso de misericórdia por estes pacientes, uma identificação com a dor alheia, uma empatia que transcende o mero conhecimento técnico.



A arte de curar não é apenas produto do conhecimento técnico, ela também demanda senso de misericórdia, portanto. Chesed, a Misericórdia, é a quarta sefira, parte do fluxo da energia de Deus que desce de Keter até Malkuth, mas também sobe de Malkuth até Keter, e além, para o Ain Sof. Não há como ir ao Pai , senão através deste caminho, senão através daquilo que o próprio Cristo era a expressão e representação, a um só tempo.
A etapa da Misericórdia traz as vibrações e bênçãos de Deus como leva nossas vibrações e nossas informações ao Todo Poderoso.
Compreender isto é entender a Árvore da Vida como um caminho e não apenas um símbolo. E portanto, ter este poder de Deus para curar os necessitados, não pode prescindir da virtude e condição da Misericórdia.
Teoricamente, todos os médicos deveriam possuir esta sefira bem trabalhada dentro de si. Infelizmente não é assim. Encontra-se entre os médicos muitos que não tem e nem tem interesse em desenvolver este aparentemente discreto detalhe em sua performance profissional.





E isto é um diferencial. Quando Binah, o conhecimento, se une a Chesed, a Misericórdia, o fluxo da Luz Divina é fortalecido e volumosas doses de Inspiração e Bênçãos Intuitivas são derramadas sobre aquele que faz essa junção mística. Não acidentalmente, Daath, a sefira oculta fica no meio exato do caminho entre uma e outra. Em Daat, todos as sefirot existem em seu estado perfeito de partilha de infinito. Era o que ocorria provavelmente com Papus, que jamais fez alarde destes dons por receio de ser tachado de charlatão ou curandeiro, acusação que rendeu a expulsão da escola de medicina de seu padrinho espiritual, Nizier Anthelme Philippe, o Monsieur e Mestre Philippe de Lyon. A ciência médica da época era implacável, como talvez hoje não seja, com dotes terapêuticos inexplicáveis, mesmo que eficazes.


Philippe de Lyon

Por isso Papus era extremamente discreto em relação ao que fazia em consultório e ao emprego de técnicas esotéricas em suas curas. Isto não o impediu de publicar em detalhes algumas destas técnicas no seu "Tratado Elementar de Magia Prática". Tenho comigo a 19a edição, Editora Pensamento-Cultrix, em Português. Embora não seja dedicado especialmente a terapêutica, inclui trechos em que ele, como médico, faz demoradas considerações sobre natureza esotérica de doenças as mais variadas, na sua época desprovidas de recursos farmacológicos que temos hoje.

Na página 63, discutindo a Loucura, a moderna Lepra, como doença que estigmatiza suas vítimas e afasta as pessoas pelo medo infundado e pela falta de habilidade em lidar com este drama familiar, até entre médicos desprovidos da sefirah Chesed em seus corações, ele diz:
"Todos os fenômenos que vimos até agora, o sono, a embriaguez, os estados determinados pelo hipnotismo, não são no fundo senão a evolução normal de uma série de fatos derivados de uma causa única: a ruptura do equilíbrio entre o ser impulsivo e o ser consciente. Vamos ver se o mesmo acontece com a loucura.O que é perigoso nos atos orgânicos, são as passagens bruscas de um estado para outro, as agitações, quer físicas, quer psíquicas. A força nervosa, sendo idêntica para todos os centros nervosos, não pode concentrar-se em um ponto do organismo a não ser sob a condição de deixar um outro, e esta passagem, para ser sem perigo, deve ser progressiva. É por isso que a idéia fixa do bêbado, ainda que perigosa para si e para os outros no momento, não persiste mais após a passagem da crise; é que o movimento excessivo impresso ao centro intelectual foi progressivo, não instantâneo. Mas se uma visão aterradora, uma nova inesperada, uma alegria ou um medo súbitos vêm, de repente, pôr em movimento de uma maneira excessiva o ser impulsivo, pode acontecer que o movimento assim adquirido assuma uma tal importância, que toda a força nervosa que une a organização ao espírito seja subitamente absorvida, e então a pessoa pode perecer ou tornar-se louca."
Ou seja, para Papus, a loucura é a ruptura de um equilíbrio entre duas forças poderosas que trabalham dentro de nós: a força impulsiva, representante do mundo orgânico e a força da consciência, que administra essa energia impulsiva e a transforma em ação social equilibrada.
É espantoso, mas não inesperado, que haja grande semelhança entre o pensamento de Papus e a psicanálise freudiana à qual, por ser contemporâneo, ele deve ter tido acesso.


Papus

Mais a frente, na página 310, ele faz um esforço interessante de caracterizar a pertinência de métodos terapêuticos considerando o tipo de patologia, criando pontes entre métodos e não opondo um ao outro, como se espera de mentes esotéricas esclarecidas.
Diz ele:
"As afecções que atingem o ser humano classificam-se também segundo o centro particularmente atacado. Estas afecções podem declarar-se quer sobre o corpo físico, quer sobre o corpo astral, quer sobre o ser psíquico, porém jamais sobre o espírito que só pode existir em sua essência."
Ressalte-se que aqui ele reafirma a inviolabilidade da parte divina em nós, emanada e não criada.
E continua:
"A alopatia encontrará, pois, sua aplicação nas doenças provenientes do corpo físico. A homeopatia, ao contrário, dará excelentes resultados nas afecções provenientes do corpo astral, como as doenças do peito, o cancro e certas formas de enfermidades nervosas (coréia, paralisia agitante, etc)"
A coréia, citada por Papus, é a doença de Huntington, doença genética e um distúrbio neurológico raro, com 3 a 7 casos em cada 100000 habitantes. Já a "paralisia agitante", suponho, se refere a Doença de Parkinson.
E conclui:
"A medicina hermética será utilizada nas afecções psíquicas , casos de obsessão ou de vampirismo tão pouco conhecidos pelos médicos atuais que os confundem com manifestações de loucura."



Nas páginas 312 e 313 ele descreverá dois métodos, um indireto e outro direto, de magia cerimonial, para desfazer patologias neuropsiquiátricas, relatando inclusive um caso clínico tratado na Inglaterra.
Não vou descrever o ritual em si, está no texto de Dr. Gerard, mas quero chamar a atenção para a diferença marcante na abordagem terapêutica como descritas por ele e os métodos empregados pelo Cristo, em sua passagem pela Terra. Nas suas curas, Jesus raramente se valia de algum tipo de ritual complexo, e quase nunca lançou mão de qualquer substância intermediária entre Ele mesmo e o paciente (relata-se apenas o caso do cego, na área de banho público, que curou com a aplicação de argila e saliva em seus olhos). Via de regra a cura dava-se pelo toque ou mesmo sem ele, como quando diz ao soldado romano que vá para casa e que seu criado já estava curado, sem que estivesse fisicamente em sua presença.
São dois estilos de cura metafísica ou esotérica, um simples e direto, outro cerimonial e complexo. Não faço juízo de valor sobre um ou outro, desde que sua eficácia se demonstre, mas chamo a atenção sobre o estilo terapêutico rosacruciano, eminentemente essênio, que lembra mais a terapia crística que a papusiana.
O problema e o grande critério de avaliação continua sendo, como não poderia deixar de ser pelo método científico, a eficácia e a reprodutibilidade.
Técnicas que realmente funcionem, e possíveis de serem retransmitidas à terceiros, seriam uma bênção para grande numero de pessoas atormentadas pela doença, seja física ou psiquiátrica. Não faz sentido, na minha perspectiva, segredo sobre essas coisas. São terapias e como tal, precisam ser repartidas, mesmo que impliquem em uma modificação dos próprios terapeutas, e não só no aprendizado deste ou daquele método.
Seria uma ponte possível entre esoterismo e ciência. Prática, pragmática, demonstrável, passível de verificação. O próximo passo seria investigar seus fundamentos e mecanismos internos de funcionamento, sem recorrer a quaisquer fantasias ou imagens românticas.
E pensar que a Misericórdia seria parte do processo me faz pensar na importância do terapeuta para a terapêutica, algo que é intuído mesmo por aqueles que não são afeitos ao pensamento esotérico. Porque senhores, isto não são relatos de milagres, mas de técnicas de cura, para nós, hoje, desconhecidas. E rosacruzes são seres curiosos, querem conhecer a técnica, querem, enfim, reproduzi-la. Isto, em si, já encerra profundas reflexões.
A situação dos pacientes não apenas com doenças físicas, mas principalmente os psiquiátricos no mundo inteiro, os estigmatizados modernos, pede que ao menos possamos casar os avanços da ciência moderna, e não são poucos, com os conhecimentos esotéricos.
Acredito que seria um recurso a mais neste bom combate, na busca de outra sefira, Netzach, a Vitória, sobre o sofrimento de milhões de pessoas.