Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 6 de junho de 2013

MISTICISMO LITERÁRIO E MISTICISMO REAL 2


Considerações sobre as  fantasias advindas de textos, capazes de confundir Magia com Pensamento Mágico.




"Portanto, muita da cultura mística, talvez a maior parte dela, é essencialmente literária, já que não é comum contemplar o invisível, ou ouvir a Voz do Silêncio. A maioria de nós é formada por homens e mulheres comuns, com limitações de percepção comuns a maioria dos seres humanos, e, por um motivo qualquer, sem que possamos ver ou tocar estas coisas, cremos que aquelas afirmações são verdadeiras, ou por senti-las em nosso interior como tal, ou por ter alguma experiência pessoal que nos leve a pensar dessa forma. Experiências fundamentadoras destas crenças, por outro lado, a rigor, não são a maioria.Cremos porque cremos e nem sempre sabemos descrever a razão de nossas crenças."
Trecho do ensaio anterior, com o mesmo título.

Como vimos no ensaio anterior sobre este tema, muito do trabalho místico beira a religião, já que não prescinde de Crença e Fé em certos valores e pressupostos que fazem parte do perfil psicológico do Místico.
O trecho em epígrafe ressalta que consolidar o conhecimento místico a partir de experiências palpáveis e perceptíveis pelos cinco sentidos comuns, que demonstrem sua eficácia enquanto visão de mundo e veracidade, não é o fluxo de eventos mais comum.
Porque alguém já comentou, se a memória não me trai, Marcelo Gleiser, o físico, que em ciência precisamos ver para crer enquanto em questões de espiritualidade precisamos crer para ver. Se assim fosse, eu até me sentiria mais confortável. O problema é que a parte do ver após o crer nem sempre ocorre. Muitos místicos dizem que sentem que estão corretos em suas crenças, intimamente, mas poucos, muito poucos, referem ou descrevem fatos perceptíveis ou reprodutíveis para demonstrar a veracidade de sua crença.
Assim, a equação de Gleiser deveria ser refeita do seguinte modo: em ciência é preciso ver para crer; no esoterismo, é preciso crer para, sabe-se lá quando, talvez nunca, ver alguma coisa. E esta falta de acontecimentos e de resultados das práticas místico-mágicas gera ansiedade no estudante comum.
É normal que seja assim. A ânsia de resultados está em todo ser humano. Naqueles ligados a ciência ou naqueles ligados ao esoterismo. Por isso, por mera ansiedade, muitas vezes pessoas de bom coração, mas impacientes, prestam-se a declarações infundadas seja em sensações internas ou fatos externos, acerca de experiências fantasiosas e vagas, às quais se agarram como " possíveis 'provas' " de seus pressupostos e crenças.
Há nestas pessoas um enorme receio de admitir o fracasso, a falta de dados e ocorrências que realmente possam ser chamadas de experiências reais de natureza transcendental. E então, já que a Magia não funciona, recorrem ao Pensamento Mágico, e inventam um mundo particular em que habitarão com mais conforto, desde que não sejam frontalmente questionadas.
O diferencial da AMORC, principalmente a AMORC spenceriana, sempre foi este.
O que sempre me fascinou nos escritos de Spencer Lewis foi exatamente a recomendação expressa de que nada que fosse ensinado pela Ordem Rosacruz - AMORC deveria ser aceito apenas e tão somente porque a Ordem dissesse que era real. Recomendava ele, em todos os seus textos, o cuidado que cada frater e cada sóror deveriam ter em testar os ensinamentos rosacruzes na vida diária, mundana, e dessa forma, pelo teste constante, não só aperfeiçoar esta técnica ou habilidade quanto verificar sua realidade, sua real aplicabilidade.
O certo é que por mais inspiradores que sejam os livros que consultemos e por mais que incendeiem nossa imaginação com suas afirmações, muitas das vêzes, verdadeiramente fantásticas, a boa atitude, a atitude mais prudente, é nos concentrarmos em trabalhar as informações que sejam possíveis de ser verificadas na vida hodierna.
Não que aquilo que não puder ser imediatamente verificado não seja verdadeiro, mas, seguindo a orientação de um pensador alemão, Edmund Husserl, o criador da Fenomenologia, o melhor é deixar tudo entre aspas, em suspenso, sem fechar uma conclusão sobre temas que não possam ser verificados imediatamente, com os recursos que possuímos no momento, para quando houver estes recursos possamos fazer esta verificação. Suportar com dignidade nossa própria incerteza e ignorância é uma prova de maturidade emocional.


Edmund Husserl

O mais curioso é que esta demonstração de prudência científica, mas também de equilíbrio mental, está presente em muitas linhas de pensamento orientais, como no Budismo e no Hinduísmo.
Conhecida é a seguinte frase de Sidarta Gautama:
"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o."



Buda não era um cientista positivista. Buda nem mesmo era um acadêmico universitário. Buda era um mestre espiritual. Toda a sua vida foi dedicada a libertação (moksha) daqueles que estavam mergulhados no torvelinho do desejo e do apego. Mas sua frase cai como uma luva na metodologia mental de qualquer pesquisador moderno. Ciência é a arte de pensar com prudência, com calma, com vagar e cuidado. A Ciência é parecida com a arte da Alquimia, sua antecessora, da qual herdou o gosto pela metodologia, pela paciência, pela perseverança no cumprimento de todas as etapas de um processo. É lugar comum dizer que os cientistas modernos são os novos alquimistas. Muitos dirão que isto é uma sandice, que alquimistas eram supersticiosos e cientistas modernos são homens e mulheres da razão. Tolice. Vale aqui o ditado árabe: "Enquanto só vires as diferenças, todo o teu conhecimento não valerá uma rúpia; só começas realmente a compreender quando prestas atenção às semelhanças." E assim, para sermos coerentes com a sabedoria árabe, prestemos atenção nas semelhanças entre alquimistas e químicos contemporâneos.


Reações químicas tem seus próprios ritmos que podem ser acelerados por catalisadores, mas não podem ser alteradas quanto aos componentes e quanto aos resultados.
É preciso conhecimento, é preciso paciência, é preciso calma para se fazer ciência em química, como também em física ou em biologia. Esta última, mais que as outras, nos leva a lidar com sistemas muito voluntariosos, cheios de peculiaridades e comportamentos misteriosos, que uma vida inteira às vêzes não é suficiente para dominar. E é assim que as coisas são.


Para o Cientista da Biologia (como para o Alquimista) as peculiaridades dos sistemas com os quais trabalham devem ser conhecidas e respeitadas, já que a natureza não permite trapaças, mas é dócil à alterações que sigam as suas regras, regras que só podem ser utilizadas quando são conhecidas. É preciso estudar estas regras, portanto, sempre e sempre, já que são sistemas vivos e por isso dinâmicos, sempre se metamorfoseando, sempre evoluindo, como nós, seres humanos, partes deste universo biológico. Estar atento aos ritmos da natureza, harmonizar-se com este ritmo e este modus operandi, ter paciência e calma ao analisar os resultados, não é um procedimento eminentemente alquímico?
Essas são as interessantes semelhanças entre um e outro método de abordagem do real.



Udday Shankar, bailarino e coreógrafo

Mas, se o Budismo pensa com equilíbrio e prudência, se os Alquimistas dedicavam toda uma vida a produzir condições para gerar um único resultado, o que diremos do Hinduísmo? O irmão do grande músico recentemente falecido Ravi Shankar, Uday Shankar, disse uma vez a George Harison, o guitarristas dos Beatles e discípulo de seu irmão Ravi Shankar:
"Um deus que não pode ser sentido com meu interior não é um bom deus. Deus precisa ser uma experiência, algo percebido em nosso interior, e não o produto de uma crença, tão somente."
No Hinduísmo é muito importante a noção de fundamentação interior de qualquer experiência espiritual. Não existe espiritualidade descolada do devoto, não existe espiritualidade fundamentada apenas em textos, embora o Bhagavad Gita seja um livro sagrado para todos nós hinduístas. Mas a noção de livro sagrado no Hinduísmo difere do Cristianismo, com seu culto a Bíblia na forma e na letra. Para o Hinduísta, um texto sagrado é aquele que pode ser percebido internamente pelo leitor em suas afirmações, as quais transcendem o papel em que está escrito. Não é o livro que é sagrado, com suas páginas e tinta. É aquilo que ele representa e transmite e que deve ter, necessariamente, para ser realmente sagrado, eco no interior de quem o lê.
No Hinduísmo, como de resto no Budismo, não se confunde a vela com a luz que ela representa.
O que estas ponderações nos trazem como reflexão? Que para o orientalista, a experiência religiosa ou mística advém de uma compreensão extremamente racional tanto quanto espiritual. 
E embora exista uma tábula rasa na imprensa ocidental, notória por sua ignorância acerca dos valores daquele planeta para lá de Roma, pela qual nivela todos os orientais como fanáticos e terroristas ignorantes, como se não houvessem fanáticos brancos e cristãos, é um fato histórico que os orientais são detentores de uma civilização milenar, sendo que nós, ocidentais, para eles,  somos apenas bárbaros do ponto de vista humano, embora bastante avançados do ponto de vista tecnológico.
Na verdade, os verdadeiros místicos orientais, os reflexivos e meditativos místicos das muitas e milenares tradições espirituais orientais, são pessoas de um bom senso e uma prudência intelectual que em nada deixa a desejar aos cientistas ocidentais, racionais, cuidadosos e cautelosos.
A Ciência, enquanto Ciência, não é uma inimiga do Místico. A verdadeira inimiga é a Ansiedade por resultados, que dá espaço à fantasia e ao Pensamento Mágico.
O Universo Místico é muito, muito delicado e sutil. É preciso caminhar por ele com muita suavidade, dar um passo de cada vez. Não se deve esquecer que não é só o Mestre que aparece quando o discípulo está pronto. Tudo que possa ocorrer, ocorrerá somente depois que o discípulo se apronta, se aperfeiçoa.
Existem coisas, supostamente não tão fantásticas e imaginosas, que são tão ou mais importantes do que obter resultados mágicos práticos, objeto do desejo de todos os tolos aprendizes de feiticeiros, que no máximo, no mais das vêzes, se deliciam em dançar com vassouras, como o Mickey no desenho clássico de Disney.
Sem sombra de dúvida existem coisas mais importantes do que isso para se fazer enquanto temos a chance, esta grande oportunidade da vida na carne.
Precisamos nos aprontar como discípulos , eu disse, e isto implica o desenvolvimento das sete qualidades da escada de Rá: Temperança, outro nome para Moderação; Fortaleza; Prudência; Justiça; Fé; Esperança e Amor. Só aqui já temos material que ultrapassa o tempo de uma encarnação. 
Mas são passos fundamentais para se desenvolver um verdadeiro Mago, um verdadeiro Místico, um verdadeiro e nobre Ser Humano.
Leva tempo, dá trabalho, exige paciência, e nem sempre, ou melhor, nunca é glamuroso. Nosso Ego não precisa ser esquecido, mas terá uma vida discreta, às vêzes algo insuportável para o Ego. Só que absolutamente necessário. Porque se o Ego é fundamental na consecução do equilíbrio social e psicológico, torna-se um forte obstáculo ao desenvolvimento de uma visão espiritual do mundo.
É preciso Temperança, Moderação, tanto na Espiritualidade, quanto na vivência social, para que o Ego não se suponha mais importante do que aquele que lhe dá existência, para que a criatura não queira superar o Criador. Não vou discutir a necessidade de Força no viver, seria redundante, mas no terceiro degrau, chama-se a atenção para a virtude da Prudência de que tanto falamos neste ensaio. Prudência em tudo, mesmo na Fé, quinto passo desta escada. E se o degrau da Prudência vem antes do da Fé, isto tem uma razão. Fé sem prudência não é Fé, mas fanatismo.
Precisamos crer, mas com moderação, enfatizando a Fé não como ato de crer, mas como conexão com o Altíssimo, de forma que as fortes sensações (físicas mesmo) desta conexão sirvam de sustentação experimental de nossas crenças. Um Deus, como dizia Uday Shankar, que se sente nos ossos, é um bom Deus. Senão é fantasia.
Por isso, os textos que lemos neste gigantesco universo literário esotérico, devem ser filtrados pela nossa racionalidade. E não devemos combater o pensamento e o ceticismo metodológico científico como se ele fosse um demonio e nós, crentes, fossemos anjos.
O pensamento científico sempre foi a sustentação do discurso de Spencer Lewis. O pensamento científico, forjado por grandes rosacruzes como Descartes e Bacon, é prudente, é sólido, baseia-se em reflexões feitas ao longo de séculos; não é orgulhoso, pois sempre critica a si mesmo, duvida de si mesmo, e todos os seus postulados estão sujeitos a serem modificados, caso algo prove que estão errados. Portanto, uma das coisas mais importantes que o pensamento científico tem a ensinar a qualquer pensador dogmático é a humildade. Não devemos lutar contra os cientistas, (como Blavatsky faz, ao longo de toda a Doutrina Secreta, quase deixando entrever uma inveja da metodologia e da fundamentação daqueles outros, já que, pouco a frente de um ataque a ciência, procura legitimar suas afirmações com o apelo a pesquisas as mais variadas dessa mesma ciência), mas aprender com eles o cuidado com nossas afirmações e crenças. Não crer em tudo que lemos, mas nos concentrarmos nas coisas que nos trazem melhorias reais e palpáveis, como avanços em nossa condição humana ou mais dignidade espiritual as nossas existências.
Essas são metas nobres que devem ser objeto de nossa ambição enquanto místicos.
São cálices sagrados que devem ser procurados ávidamente por todos aqueles que querem tornar-se melhores para, finalmente, mostrarem-se dignos de ser discípulos pessoais de um Mestre, sem que percebamos que ao ascender a condição de discípulos, já estamos nós mesmos, mais perto da condição de maestria.
Aprender e evoluir sempre e sempre. Esta é a missão mais sagrada de todos os místicos, pacientemente suportando a ignorância e a limitação com elegância, como fazem os cientistas, sem se precipitar em explicações ou crenças infundadas, melhorando todos os dias como pessoa e como indivíduo.
Que mais um verdadeiro ser humano pode desejar?
Textos devem, portanto, ser para nós um deleite, um prazer, mas nunca objetos de adoração. Devemos lê-los com nosso coração, mas também com nossos cérebros, de maneira a que não percamos tempo cultuando afirmações que seremos incapazes de verificar como se fossem mais importantes do que a melhoria de nosso comportamento como seres sociais ou membros de uma Fraternidade de Iniciados. Ser verdadeiramente humano ainda é a maior magia e o maior milagre. Dediquemos-nos a isto, de todo o coração e com todo nosso ser.