Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 5 de agosto de 2014

GRUPO VIRTUAL DE ESTUDOS MARTINISTA DOS ANTIGOS E DOS ATUAIS MESTRES DA HEPTADA MARTINISTA GUARULHOS LEITURA ANALÍTICA DE "O MINISTÉRIO DO HOMEM ESPÍRITO" DE LOUIS CLAUDE DE SAINT MARTIN

Considerações sobre a visão pessimista e às vêzes mórbida acerca da vida na Terra de Saint Martin tendo como fundo musical as Suites para Violoncello de Johan Sebatian Bach, de 1 a 6, interpretadas por Pablo Casals.

por Mario Sales, FRC e SI




Organizamos um Grupo de Estudos Martinistas Virtual, via Skipe, às sextas feiras.
As considerações abaixo são, no entanto, apenas de minha responsabilidade, já que expressam posições pessoais sobre o assunto. Hoje por causa desses arranjos do acaso, ficamos eu e um antigo irmão e ex mestre da Heptada Guarulhos, Felipe Lozano, sozinhos para estudar, e como no grupo já estivéssemos adiantados na leitura do livro da vez "O Ministério do Homem Espírito", fiquei a vontade para reler do início o texto e, aproveitando ser a estreia dele no grupo, rever os conceitos.
Foi muito produtivo.




O "Ministério do Homem Espírito" foi o último e mais claro livro de Saint Martin e está encharcado do pensamento Bohemiano, sendo portanto um texto fundamental de sua obra literária. Publicado em 1802, pela Editora Migneret, em Paris, o livro é uma expressão fiel do pensamento básico de Saint Martin que a rigor, se resumiria a frase "o homem é a medida de todas as coisas", e "só através da busca dentro de si o Homem pode entender tudo que existe fora dele".
O que salta aos olhos, mesmo reconhecendo a boa intenção de Saint Martin em construir um argumento de peso em favor da espiritualidade, é a estratégia de discurso de que se utiliza.




"A Terra onde caminhamos nos oferece em todos os seus poros como que bocas que nos pedem um bálsamo consolador para curar as chagas que a consomem: e nós, em lugar de lhe proporcionarmos repouso e vida, só sabemos saciar sua sede com o sangue dos homens, que derramamos em nossos furores guerreiros e fanáticos e que só pode acentuar as dores que ela sente , atingindo seu seio com a cólera e as ferozes paixões do homem."



O Ministério do Homem Espírito, pág.140




Se voce que lê o texto é adepto do pensamento cristão católico como definido pelos concílios, onde, em um primor de síntese conseguido por Felipe, "os três dias do sofrimento de Jesus são mais importantes que os três anos de seu ministério", então o texto está perfeito, nada a comentar.
Mas se você é um rosacruz, e considera a vida preciosa, alegre e mesmo divertida, como um casamento aonde um dos convidados, generosamente, transforma água em vinho de excelente qualidade, algo destoa e incomoda no texto.
Cristo demonstrou várias vezes que não via diferença entre a vida espiritual e material, ambas, para ele, igualmente expressões do Divino. A generosidade de Jesus em seu primeiro milagre chama atenção porque sendo, como era, senhor de tanto conhecimento e poder, foi capaz de compartilhar bem estar com seus semelhantes, mesmo que através de um ato aparentemente banal, ainda mais que, neste gesto de caráter profano está presente a mesma perfeição característica do Sagrado, a ponto de gerar dos que se beneficiaram dele , inocentemente, comentários como os que estão em João 2: 9-10.
"E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho."
Não, como eu já discuti, o Cristo que emerge dos vinte e um Concílios, entre 325 e 1965 DC, não é o das festas, do "bom vinho", mas sim um trapo humano, devastado pela sevícia dos romanos, humilhado, maltratado e, finalmente, assassinado em uma bárbara e desumana forma de execução.
Nem a sua ressurreição, três dias depois, em corpo glorioso, recebe o destaque que estes míseros três dias receberam, três dias estes que, sem sombra de dúvida, não são os três dias mais importantes de seu ministério, mas apenas os mais trágicos, embora a Igreja tenha pregado ao contrário.
Belo, digno e magnífico era o Cristo da Última Ceia, que na verdade não foi a última, já que ressurrecto, ele come com os apóstolos, como relatado em João 21:12-14 "Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? sabendo que era o Senhor. Chegou, pois, Jesus, e tomou o pão, e deu-lhes e, semelhantemente, o peixe. E já era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dentre os mortos."
Como dizem alguns, no século XXI, é preciso "tirar o Cristo da Cruz".



"À semelhança da deusa que no monte Ida fazia a Terra florescer sob seus pés, acumulamos em nossos jardins numerosas plantas e esplêndidas árvores; mas em lugar de lhes proporcionarmos a vida das produções do Jardim do Éden, acorremos em multidão a passear ao seu redor nossa indolência e nossa ociosidade."



O Ministério do Homem Espírito, pág.140



A religião, entretanto, luta contra isso.
O discurso oficial da Igreja é que o sofrimento santifica, que a dor faz o indivíduo se aperfeiçoar espiritualmente e que a vida é um mar de lágrimas, e ponto.
O Cristo da festa de Mateus, o coletor de impostos, o Cristo que diverte os presentes enquanto os converte narrando a parábola do filho pródigo, ou o que visita os fariseus da Sinagoga e discute filosofia religiosa com eles, não é um ser martirizado pela dor física, mas um homem pleno de luz e sabedoria, de argúcia e perspicácia, um sábio e um pescador de almas. Este é o exemplo a ser seguido, que em momento algum é um padrão dor = luz, mas sim luz = vida e vida social intensa, já que a função do Iluminado é estar no meio daqueles que precisam ser iluminados.
Não, como rosacruz eu me recuso a aceitar outro Cristo que não este, um líder espiritual e moral, íntegro, integral, aonde a humanidade e a divindade, como em tudo, se encontram e se harmonizam.
O axioma de que a vida na matéria seja uma punição e não uma oportunidade é descabido a partir do exemplo de vida deste homem.
Pensar de outro modo configura uma visão mórbida e depressiva da vida com a qual não posso compactuar, e já disse isso aqui antes, mas nunca é demais repetir, principalmente quando se lê um autor como Saint Martin, que tem, em sua exaltada, mas triste espiritualidade, características de discurso que repetem o conceito de que "três dias são mais importantes que três anos."
Para os religiosos dos Concílios, que deram o tema musical do Cristianismo nos séculos seguintes, a Vida não tem nenhuma função a não ser nos punir pelos nossos pecados.
Até em textos esotéricos insuspeitos, vemos este asco à vida material e biológica, como neste trecho pinçado de uma monografia do décimo primeiro grau de templo, que revela um reflexo, ainda que discreto, desta idéia que se faz, no ambiente religioso, da vida humana comum:

"De maneira geral, a alquimia espiritual é o processo que consiste, para o ser humano, em que ele transmute todos os seus defeitos por meio do cadinho-da-vida , e, sob a impulsão do seu Fogo Interior: com efeito, todos os seres humanos são imperfeitos, o que explica por que estão encarnados no plano terrestre..."(o grifo é meu).

Nestas linhas está, disfarçadamente, a convicção de que toda a vida material sempre será, toda ela, igual aos três fatídicos dias supra citados, e que, numa lógica no mínimo estranha, as alegrias, sendo efêmeras, pela sua própria efemeridade, provam que a vida não é essencialmente alegre; mas o sofrimento, mesmo sendo também efêmero, paradoxalmente, demonstra o quanto a vida humana é, essencialmente ruim . Não faz sentido pra ninguém, fora Schopenhauer.
Saint Martin segue esta linha : o mundo não presta e a vida no mundo é prova de que nós também não somos boa coisa. Senão, não estaríamos aqui. Seríamos espíritos, flutuando no Universo, pois na matéria, segundo esta concepção, só existe dor e "resgate cármico", para usar uma terminologia típica do kardecismo.
Obrigatoriamente, se estamos aqui isto demonstra nossa involução, noção religiosa que contaminou o discurso místico, como vemos no trecho citado, "... com efeito, todos os seres humanos são imperfeitos, o que explica por que estão encarnados no plano terrestre..."

Este argumento, pensando bem, não se sustenta.
O problema não é que sejamos imperfeitos, mas que este adjetivo, "imperfeitos", se transforme em um adjetivo estático. O mais correto era que nos classificássemos, todos nós, como "seres em aperfeiçoamento".
Creio, aliás, seguindo o pensamento de um teósofo português que li na juventude, Félix Bermudes, que nós, seres humanos, mergulhados neste plano, encharcados de vida material e carnal por todos os lados, melhorando como almas, graças a este mergulho estamos "condenados a nos tornar deuses".
A água da vida material nos batiza para a vida eterna, como a água de João, o Batista, preparou para a vida espiritual tantos corpos que por ele passaram, lançando, pela água, a bênção sobre as suas cabeças .
Lembremos que entre estas cabeças e corpos que foram por ele, João, batizados no espírito, estava a cabeça e o corpo de Jesus, o Cristo.
E já que queremos refutar o argumento de que "...todos os seres humanos são imperfeitos, o que explica por que estão encarnados no plano terrestre..." , tomemos o Cristo como exemplo.
O Cristo era um ser imperfeito? Estava aqui porque era imperfeito? Estava ou  não estava na carne, no mundo profano, participando do cotidiano profano, curando no Templo, no Sábado, conversando com prostitutas, pobres e leprosos? E mesmo assim, deixou de ser divino por isso?
"Ah", dirão alguns, " este é um caso excepcional, Ele era o filho de Deus".
E nós, não somos todos também filhos do mesmo Deus, como diz Paulo em Romanos 8:16? ( "O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus")
A única razão pela qual o ser humano se convenceu de que sua vida mundana é menos sagrada do que realmente é foi por que a Igreja, por séculos, criou dificuldades para vender facilidades. Hoje, aliás, ao menos posso fazer esta especulação sem receio de ser queimado por isso.
Ao contrário dos que dizem que este é um mundo de caídos, de espíritos impuros, que só estão aqui por serem impuros, muitos são os iniciados que conheço que estando no corpo irradiam uma imensa luz aonde chegam e estão certamente mais perto da iluminação do que supõem e só não o percebem por causa de sua timidez ou por medo do pecado do Orgulho.


"Oh! não, homem depravado, em meio a essa balbúrdia que nesses jardins públicos erra vagamente, como tu, sob a sombra hospitaleira, mal restam alguns desses olhos castos e pudicos para fazeres corar com tua imoral e revoltante indecência. A morte a que estás acostumado também está presente nos costumes desses seres ociosos de que vens aumentar o número."

O Ministério do Homem Espírito, pág.141


Aliás, pecado é um conceito e uma categoria católica e não mística. Não se encontra tal noção no Hinduísmo ou no Zen Budismo.
Igualmente, Rosacruzes realmente rosacrucianos não crêem em tal coisa, o pecado. Eu faço esta afirmação porque nossa herança enquanto rosacruzes é a soma de várias tradições, mas primitivamente devemos nossas características como escola mística às tradições egípcias e depois, gregas. E nestas culturas, muito anteriores ao cristianismo, noções como esta, pecado, não existiam.
Se, entretanto, quisermos recorrer a exemplos mais modernos de fundamentos culturais genuinamente rosacruzes, encontramos o mesmo tipo de perspectiva no fundador do movimento racionalista, o filósofo francês Renée Descartes, (pensador reverenciado por Saint Martin na página 23 da edição ora em consideração) para o qual não existe tal coisa como o pecado, mas o erro, o qual é passível de ser corrigido pelo entendimento e não implica em culpa, outra categoria, dessa vez judaica, não cristã, que em muito contribuiu para a formação de uma sociedade mentalmente insegura e acovardada.
Às vêzes, encontramos fratres ou sórores que aceitam esta categoria do pecado como válida, mas isto é apenas e tão somente um eco de seu passado, já que todos temos cicatrizes de experiências espiritualistas religiosas anteriores.

Aliás, fazendo um pequeno parêntese, este é um outro grande problema do rosacrucianismo. Todo tipo de pessoas, egressas ou não das mais diferentes crenças religiosas entram no meio rosacruciano, e se este estudante recém iniciado não mergulhar nos conceitos e valores do rosacrucianismo, terá uma formação educacional mística cheia de espaços em branco, causados por seu desconhecimento do pensamento genuíno da rosacruz. E, ato contínuo, preencherá estes espaços em branco com conceitos de suas antigas linhas de pensamento religioso, as quais, às vêzes, nada tem a ver com o pensamento rosacruz, ou são mesmo opostas a ele, o que faz surgir um verdadeiro Frankstein conceitual. Fim do parêntese.

O equívoco de Saint Martin, repito, é absolutamente bem intencionado. Origina-se talvez na falta de perspicácia acerca dos valores que fundamentam o que chamamos "a prática e o caminho do bem".
Schopenhauer em seu pessimismo pós derrota napoleônica, foi contaminado por estas visão. 
Nietzsche não tinha nascido. Sua ironia e capacidade de desvendar o psicológico por baixo do religioso ainda não haviam sido trazidas a público.
Desconfiar da tristeza como sinal de espiritualidade, hoje, nesta era pós nietzschiniana, é uma obrigação moral e intelectual.
Se estes aspectos entram em choque, na minha forma de ver, com valores essenciais rosacrucianos, encontram por outro lado abrigo e aceitação no discurso martinista, que na verdade é uma extensão do discurso de sofrimento, dor e ranger de dentes do Cristianismo dos Concílios.
O discurso Martinista é uma versão modificada do Neoplatonismo de Plotino[1], neoplatonismo este aonde estão elementos presentes na Doutrina Rosacruz ( a noção de que não existe o Mal, mas que o Mal é apenas a ausência do Bem); mas que, infelizmente, ao mesmo tempo, estabelece a necessidade de entender o mundo e a criação em partes separadas, uma delas, perfeita e sagrada e claro, invisível, acima de todas as coisas comuns; e a outra "isto", que chamamos de vida cotidiana, visível, que recebe todos os adjetivos ruins (imperfeita, impura, criadora do Mal, etc, etc, etc).
Foi assim que o discurso Cristão foi transliterado da União (Eu e o Pai somos um.[João 10:30]; Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de fornicação; temos um Pai, que é Deus.[João 8:41]; Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. [João 3:1])  para a Separação (Deus está nos Céus, longe de nós, e só podemos chegar a Ele através de Jesus, mas como Jesus não está mais aqui, deixou esta autoridade a seus representantes, os padres, bispos e  cardeais da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, ou seja, só se chega a Deus através de um sacerdote).
Os Cátaros[2] tentaram pensar diferente. Foram massacrados em 1209 e 1244. Não era permitido pensar assim.
Este era o Cristianismo de Estado, dos consensos teológicos dos Concílios, que buscava antes a unidade de discurso e de interesses entre as mais diversas correntes da Igreja da época, em uma época pré cisma, antes da ruptura com Constantinopla.
Vidas humanas foram destruídas, pessoas foram mortas, por que discordavam desses consensos . Não espanta que alguns escritores e pensadores aleguem que são ateus porque as religiões, em sua opinião, sempre foram causadoras de guerras e chacinas em vez de propagarem o bem.
Rosacruzes, embora sejam místicos e, portanto, imbuídos de imensa religiosidade, não são religiosos.
A Ordem Rosacruz não é uma religião, não possui dogmas, embora tenha seus postulados doutrinários bem definidos no Credo Rosacruz.
E sendo uma escola, antes de tudo, não busca poder, mas conhecimento, e por isso prima pela defesa da liberdade de pensamento. Nesse sentido, a TOM sofre uma influência positiva do ambiente rosacruciano, o qual exalta mais as posições do Marquês Stanislas de Guaita, liberal e erudito, do que as abordagens tristes e depressivas de Saint Martin.
Já demonstrei antes ( "T.O.M. ou T.O.W."  18 de abril de 2014) que a Tradicional Ordem Martinista, não é essencialmente Martinista, mas segue um modelo Wilermosiano, com templos e salas de estudo divididos em graus, seguindo um protocolo maçônico. Além disso, é preciso entender que o Martinismo como reorganizado por Papus de 1882 a 1891, é diferente da idéia de Saint Martin acerca de como continuar a tradição que começara com Martinez de Pasqually, mas se modificara significativamente na perspectiva do "Filósofo Desconhecido". E, pela terceira vez, após Wilermoz e Saint Martin, esta tradição é modificada por Papus e Stanislas de Guaita, na reorganização da Ordem ao final do século XIX.
Em Guaita não encontraremos frases como "Ah! Como poderíamos conhecer essa paz! Não existe uma só alegria humana; que digo, um só movimento do homem que não tenha a cegueira por base e gemidos por resultados" ("O Ministério do Homem Espírito, pág 19, 4° parágrafo) que são o resultado de um pensamento religioso, não de um pensamento místico. Guaita era um erudito, mas um homem nobre e altamente espiritualizado, não depressivo nem desanimado, e é triste pensar na brevidade de sua luz no mundo, já que passou pela transição aos 32 anos, luz intensa e indiscutível.
Em suma, o místico rosacruz, está mais para espiritualismo ativo (O Ministério do Homem Espírito, pág.23) do que para espiritualismo especulativo[ou literário, como eu chamo] (mesma página).
E o espiritualismo ativo, a meu ver, é alegre, gregário, social, não tem a vida humana em baixo conceito, não supõe preconceituosamente que a vida na carne é sinal de imperfeição. O espiritualismo ativo, do ponto de vista rosacruciano, crê que a noção bohemiana de "imitação do Cristo", de fato refere-se a fazer o bem e desfrutar da vida enquanto isso, sendo capaz de beber o vinho transformado com tanto prazer quanto passar uma tarde de sábado curando pessoas.
Não é assim que Saint Martin pensa a vida.
Na página 132 do mesmo livro encontramos o seguinte trecho, o 2° parágrafo:
"Partindo do princípio de que o homem é um ser degradado e revestido de atos de ignomínia, podemos, sem inconsequência, considerar nossa Terra como sendo para nós uma prisão ou um cárcere; e aqui, independentemente da torrente de misérias humanas que se distribuem sem cessar por todos os mortais, qual é o homem que, descendendo dela em seu íntimo e secreto, não testemunharia em favor dessa dolorosa opinião?"
Eu não daria este testemunho, por exemplo. Não vejo a vida como um cárcere da mesma maneira que não é um cárcere a sala do cinema onde entro para me divertir.
Acredito que Saint Martin, que tanto prega que existe um mundo real que é invisível (Idem, pág 33) confunde ilusão e realidade ou melhor, as funções da ilusão e da realidade.
Ele admite que ainda não havia tido acesso, naquela época (1801 -1802) aos textos vedânticos ( Idem ibidem, pág 23) pois, se os tivesse conhecido antes saberia que, para os brâmanes hindus, Maya, a ilusão, embora como o nome diz, seja ilusória, tem uma finalidade educativa e experimentalista e não visa a dor ou o sofrimento. Dor e sofrimento são produtos da ignorância, em todos os sentidos da palavra, ignorância espiritual, intelectual, tecnológica, etc, a mesma ignorância que mergulha o homem e a sociedade no caos e no constrangimento, que intensifica o Medo; mas até este esforço por superar as dificuldades inerentes à vida em Maya, é didático e enriquecedor.
Como no Cinema, de novo, onde entramos voluntariamente, para assistir os filmes de nossa preferência, terror, romance, comédia ou tragédia, pagando a entrada para isso.
A ilusão que vivemos naquele curto espaço do filme, que podemos comparar ao curto período de uma encarnação, faz com que nos assustemos, nos emocionemos, mas além disso consigamos também nos divertir, ao mesmo tempo.
É algo voluntário, não fomos jogados ou caímos aqui: mergulhamos neste plano decididamente, como entramos com nossos pés na sala de projeção, pipoca na mão.
Repito, não estamos presos, encarcerados na sala de cinema, estamos lá porque queremos, para voluntariamente nos divertirmos com o estilo de filme que preferimos.
Salas de cinema lembram o Tzim Tzum. São espaços escuros, como o espaço aberto, segundo Izac Luria, no interior da Divindade, e de repente, sobre nossas cabeças, kav, o raio da criação, passa, no caso aqui o raio de luz que sai do projetor.
Na Teosofia se chama a esse raio Fohat, que vai se projetar em Kóilon, a substância indiferenciada, que aqui na nossa analogia será a tela branca de projeção, sem o filme.
E de repente, a mágica do cinema: civilizações e batalhas, romances, devoção, maldade, bondade, conflitos de interesses, misericórdia, heroísmo, ou seja, toda a gama de valores e aspectos comuns a natureza da sociedade humana.
E ali estamos como meros observadores, assistindo o filme e o desenrolar de sua história, aprendendo com isso, mudando com isso.
Embora o que ocorra na tela seja ilusão, não se trata de uma experiência emocional ilusória. As emoções desencadeadas pelas imagens do filme são reais em nós. Choramos e rimos de modo sincero. Saímos do cinema inspirados ou assustados, discutindo as vezes por horas as imagens que acabamos de assistir. E assim também no teatro.
O nosso teatro é a versão moderna de outros teatros, como o grego, no qual os atores usavam máscaras através da qual falavam, som que passava através da máscara, em grego per sona, de onde vem o termo personalidade. Entendemos graças a etiologia da palavra, que aqui na vida hodierna, também representamos um papel teatral, somos não só personalidades, mas também personagens teatrais, só que, ao mesmo tempo que atuamos no palco, nos assistimos desempenhando este papel, nos emocionamos enquanto o representamos, nos envolvemos com nosso personagem, com nossa personalidade, e nos modificamos com isso.
O Teatro é um exercício estético, é uma Arte.
A visão Vedantina da vida é que a vida deve ser vivida com a mesma beleza e a mesma arte, e a espiritualidade é a expressão da beleza máxima do ser.
Existe prazer estético e físico na existência, representado pela dança de Shiva Nataraja, o equilíbrio instável da Criação, dinâmico, oscilante, cheio de prazer no vigor sexual , contemplado e imortalizado na doutrina Tântrica.
Não se pode dizer que não haja nojo do corpo ou do mundano na prática da tradição hinduísta porque a estupidez é democrática e equívocos são coisas internacionais e transculturais, e muitos são os praticantes de linhas de negação da vida material na cultura indiana, mas são repudiados nestes exageros pelos yogues de grande elevação. O próprio Buda passa cinco anos meditando, embaixo de uma árvore, antes de se iluminar, vivendo na floresta e se alimentando de ervas e migalhas, ele que havia conhecido a abundancia no palácio de seu pai. Mas uma vez que se ilumina, recusa esta vida e descobre que a verdade está no caminho do meio, no equilíbrio, e vê na mudança de perspectiva sobre a existência a chave para Moksha, a libertação.
O Zen enfatiza este aspecto. A iluminação não é produto da bondade, mas da mudança mental.
Iluminação não é um prêmio, mas uma consequência natural de uma evolução mental, que ocorre com todos nós que estamos na sala de cinema.
Não o Cristo, mas o Cristianismo como doutrina da dor e da resignação não traz nem alegria em seu interior, nem serenidade, mas culpa e angústia. É por isso que a santidade só é possível, dentro desta ótica, se nos concentrarmos nos três trágicos dias do ministério cristão, digamos assim, seu período passivo, feminino, esquecendo dos três anos de intenso trabalho terapêutico, dos discursos maravilhosos, passeios e festas, ou, por outro lado, seu período viril, ativo, masculino.
São estas algumas das reflexões que faço, destas páginas que lemos em conjunto, eu e meus companheiros, deste belo livro, mas que mostra na sua estrutura alguns dos vícios interpretativos da espiritualidade causados pela peculiar visão do cristianismo do século XVIII.




[1] Da WiKipedia: 

Neoplatonismo é o termo que define o conjunto de doutrinas e escolas de inspiração platônica que se desenvolveram do século III ao século VI, mais precisamente da fundação da escola alexandrina por Amônio Sacas (232) ao fechamento da escola de Atenas imposto pelo edito de Justiniano, de 529.
O neoplatonismo é direcionado para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platônico, sintetizando o platonismo com a teologia egípcia e judaica. No entanto, os neoplatônicos se consideravam simplesmente platônicos, e a distinção moderna é devido à percepção de que sua filosofia continha interpretações suficientemente originais a Platão para torná-la substancialmente diferente do que Platão escreveu . Pensadores da escola neoplatônica relacionaram seus pensadores com outras escolas intelectuais. Por exemplo, certas vertentes do neoplatonismo influenciaram pensadores cristãos (como Agostinho, Boécio, João Escoto Erígena e Boaventura de Bagnoregio), enquanto o pensamento cristão influenciou (e às vezes converteu) filósofos neoplatônicos (como Pseudo Dionísio, o Areopagita). O neoplatonismo nasceu em um momento histórico particular, quando o homem, impulsionado por uma crise interna profunda, sentiu intensamente a transitoriedade da realidade sensível . Os primeiros neoplatônicos foram Plutarco, Maximus, Enesidemo e Numênio Apaneu, que teriam vivido no segundo século da era cristã e influenciado Plotino, o sistematizador do neoplatonismo. Segundo Numênio, havia três deuses, o Pai, o Construtor (Demiurgo) e o Mundo. Amônio Sacas, de Alexandria, é visto como o fundador da escola neoplatônica. O termo "neoplatonismo" é uma construção moderna. Plotino, que é muitas vezes considerado o "fundador do neoplatonismo", não teria se considerado um "neoplatônico", em qualquer sentido, mas simplesmente um expositor das doutrinas de Platão. Este fato o ter obrigado a formular um sistema filosófico inteiramente novo não teria sido visto por ele como um problema, pois era, a seus olhos, justamente o que a doutrina platônica precisava. Em certo sentido, isso é verdade, pois desde o Antigo Academy encontramos sucessores de Platão lutando com a interpretação adequada de seu pensamento e chegando a conclusões muito diferentes. Além disso, na época helenística, certas idéias platônicas foram retomadas por pensadores de diferentes lealdades - judaicas, gnósticas, cristãs - e trabalharam em novas formas de expressão que variavam bastante do que Platão realmente escreveu em seus Diálogos.

[2] da WiKipedia: O catarismo (do grego καϑαρός katharós, "puro") foi um movimento cristão de ascetismo extremo na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, estreitamente ligado aos bogomilos da Trácia. O movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental que a igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma séria ameaça à religião ortodoxa.As principais manifestações do catarismo centralizavam-se na cidade de Albi, motivo pelo qual seus adeptos também receberam o nome de "albigenses". O catarismo teve suas raízes no movimento Pauliciana na Armênia e no Bogomilismo na Bulgária que teve influências dos seguidores de Paulo. Embora o termo "Cátaros" tem sido usada durante séculos para identificar o movimento, se o movimento se identificava mesmo com este nome ainda é discutível. Em textos cátaros, os termos "homens bons" (Bons Hommes) ou "bons cristãos" são os termos comuns de auto-identificação. A idéia de dois deuses ou princípios, sendo um bom outro mal, foi fundamental para as crenças dos Cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo Testamento e criador do reino espiritual, em oposição ao Deus mau que muitos cátaros identificavam como Satanás, o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Toda a matéria visível foi criado por Satanás, e portanto foi contaminada com o pecado, isto incluía o corpo humano. Esse conceito é oposto à Igreja Católica monoteísta, cujo princípio fundamental é que há somente um Deus que criou todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também pensavam que as almas humanas eram almas sem sexo de Anjos aprisionadas dentro da criação física de Satanás amaldiçoado a ser reencarnado até os fiéis cátaros alcançarem a salvação por meio de um ritual chamado Consolamentum . Desde o início de seu reinado, o Papa Inocêncio III tentou usar de diplomacia para acabar com o catarismo, mas no ano de 1208, seu delegado Pierre de Castelnau foi assassinado quando voltava para Roma depois de pregar a fé católica no sul da França. Com a opção de enviar missionários católicos e juristas extintas, o Papa Inocêncio III declarou Pierre de Castelnau um mártir e lançou a Cruzada dos Albigenses.